Em um belo texto em sua prosa tão poética o escritor Khalil Gibran diz que se postou à frente de um templo e perguntava aos passantes o que era o amor, ansioso por encontrar a resposta definitiva a esta questão. Cada um dos interrogados respondeu de uma forma diferente. Para alguns era a vida, para outros a morte; cegueira, disse um, visão, argumentaram outros; luz ou trevas; sabedoria ou insânia; enfim cada um deu uma opinião diferente, baseada nas suas experiências e em si mesmo.
O pluralismo sobre o qual tanto se fala é difícil de se obter na prática justamente em função disto. Para se compreender um sociedade plural é preciso admitir a pluralidade da verdade, o que implica em grande parte também a renunciar a parte da nossa verdade. E justamente àquela parte que nos é mais cara: admitir que ela não é a única verdade e que não somos senhores da razão.
Há aí uma armadilha, pois não existe nenhuma verdade totalmente válida ou inválida, então tudo é permitido e justificável. Isto acrescenta ao desejo de uma compreensão realmente democrática da política o esforço de ser capaz de conciliar de um lado a pluralidade de verdades, de outro a constituição de um arcabouço ético constituído de valores universais e não relativísticos capaz de servir de parâmetro para as ações.
Parece missão impossível, mas não é. Há, em especial, um grande referencial objetivo e universal que é o cumprimento da lei. As leis podem e devem ser discutidas, aprimoradas, atualizadas, às vezes até descartadas quando se tornam inúteis, mas devem sempre ser obedecidas enquanto estão em vigência, mesmo quando lutamos para mudá-las e as julgamos injustas.
Mas mesmo a lei não é limite suficiente para permitir a coexistência de verdades, até porque ela expressa uma correlação de forças em dado momento, sempre condenada a expressar a vontade da maioria - por mais que se garanta o direito à voz para os segmentos minoritários. Deve haver a compreensão que as múltiplas verdades podem ser distintas, mas não excludentes e que é possível chegar a uma verdade consensual, negociada, capaz de conciliar a sua multiplicidade em um programa comum de ação.
Mas no próprio texto de Gibran é possível sentir uma outra pista sobre os motivos do diálogo serem necessários. As respostas dada por cada uma das pessoas interrogadas à porta do templo não são arbitrárias. O ancião de idade avançada enxerga no amor a morte próxima, a criança a vida que mal começa; a mulher amargurada a insânia; a jovem esperançosa a sabedoria; cada um vê no amor si mesmo, como cada um vê na verdade, sobretudo, seus próprios interesses e os de seu segmento ou corporação.
Isto não é negativo, na medida que exista um espaço no qual esta multiplicidade de interesses busquem se harmonizar em função dos interesses coletivos. É evidente que nenhuma instância institucional é mais apropriada a desempenhar este papel que o Parlamento, arena na qual os interesses segmentados e coletivos podem se digladiar com argumentos.
Como o interlocutor da história de Gibran, gostaria de me colocar à frente deste “Templo da Palavra†que é o parlamento - representante simultâneo dos interesses específicos e gerais - para indagar a cada um o que é a verdade para ele em cada questão. Indagar não só cada deputado, mas as entidades da sociedade civil organizada, as associações profissionais e comunitárias, os múltiplos grupos de interesse e pressão. Mas não se contentar em simplesmente perguntar a cada um deles a opinião sobre o assunto em pauta, mas também a conclamá-los a sentar juntos e discutir como a razão de cada um pode fazer parte daquilo que Marcuse chamava de Razão Comunicativa. (O autor, Walter Feldman, é médico e presidente da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo)