Quando uma doença torna-se amplamente difundida e coloca em risco a vida das mais diferentes populações, ela recebe o nome de pandemia – uma epidemia “giganteâ€. Identificada no início da década de 80, a Síndrome da ImunoDeficiência Adquirida (Sida), mundialmente conhecida como aids, pode ser chamada assim, pois afeta homens, mulheres, crianças, jovens e idosos de todo o mundo, sem distinções.
Nos últimos 20 anos, o vírus HIV já contaminou mais de 60 milhões de pessoas no planeta. Cerca de 20 milhões já morreram neste período (mais que o total de mortos em todas as guerras do século 20) e menos de 2% dos que sobrevivem recebem tratamento adequado. Para os especialistas, este é apenas o início do problema e se não forem tomadas medidas eficazes agora, o número de mortos poderá triplicar em mais 20 anos.
A advertência foi feita pela Organização das Nações Unidas (ONU), no início deste mês, quando foram divulgados os números mais recentes da disseminação da aids pelos países.
â€œÉ assustador. É a maior epidemia que a humanidade já conheceu. Nos 45 países mais afetados, se a resposta à aids não for intensificada, 68 milhões vão morrer de aids até 2020â€, declara o médico Peter Piot, diretor-executivo da Onuaids – programa da ONU dedicado à luta contra a doença.
“Mas a epidemia está apenas no começo. Sabíamos disso em relação à Ásia e à ex-União Soviética. Além disso, não há nenhum sinal de recuo nos países mais atingidos, quer dizer, os da África (...) A epidemia continua. Inclusive no Sul da África, onde é mais grave, não parece chegar a um limite máximo naturalâ€, completa.
De acordo com a ONU, o Sul da África é a região que terá o maior número de baixas: 55 milhões. Só no Zimbábue, um terço dos adultos está contaminado. E vislumbra-se um cenário ainda pior.
A ex-União Soviética enfrenta uma epidemia galopante. A Ásia, onde encontram-se os países mais povoados do mundo (Índia e China), é como uma bomba prestes a explodir. Principalmente porque as autoridades recusam-se a admitir o problema.
E até nos países ricos, onde o controle vinha sendo mais intenso, o aparecimento do coquetel de medicamentos, em 1996, tem feito o povo “baixar a guardaâ€. As drogas que garantiram sobrevida com qualidade aos doentes, deram a falsa impressão de que a aids estava acabando.
No entanto, apenas 1,8% dos soropositivos têm acesso ao tratamento, que é caro e inviável para dezenas de países. Só em 2001, a pandemia matou 3 milhões de pessoas.
“No final do ano, 730 mil pessoas no mundo recebiam um tratamento anti-retroviral. Meio milhão delas em países ricos, nos quais menos de 25 mil pessoas morreram de aids no ano passado (0,83% dos óbitos)â€, comenta Piot. No entanto, na África subsaariana, onde a doença matou 2,2 milhões de pessoas (73,3% dos óbitos), apenas 30 mil tiveram acesso aos medicamentos em 2001.
Segundo Piot, para combater seriamente a epidemia nos países mais carentes, seriam necessários US$ 10 bilhões anuais, durante dez anos. O investimento seria destinado à oferta de remédios e à promoção de campanhas preventivas.
Mas a pandemia continua espalhando-se pelos cinco continentes. E, segundo a ONU, os jovens estão particularmente expostos. São 12 milhões deles infectados (30% do total) – metade dos novos contágios envolvem pessoas entre 15 e 24 anos. “A cada dia, 6 mil jovens com menos de 24 anos e 2 mil com menos de 15 anos estão contaminados no mundoâ€, ressalta Piot.
Felizmente, o Brasil encontra-se em posição privilegiada, com uma das melhores estratégias de combate à doença. Além dos programas municipais voltados às Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids (DST/Aids), a política dos remédios genéricos permite que o governo forneça o coquetel gratuitamente aos portadores do vírus.
No final de 2001, cerca de 170 mil pessoas recebiam o coquetel na América Latina, sendo 105 mil no Brasil (61,7%). Neste momento, o mundo briga pela redução nos preços dos medicamentos e o Brasil coloca-se à disposição para fornecer os genéricos aos países mais pobres.