Saúde

Bauru: 633 mortes desde 1984

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Bauru contabiliza, desde 1984, 1.153 casos de contaminação pelo vírus HIV (estatística até dezembro de 2001). Neste período, 633 pessoas morreram com a doença.

Atualmente, cerca de 470 pessoas recebem os medicamentos do coquetel gratuitamente na cidade. Por ano, o Município gasta aproximadamente R$ 470 mil com o programa de combate às doenças sexualmente transmissíveis (DST), incluindo a aids. De março de 2001 até maio deste ano, o programa contou com R$ 413 mil do Ministério da Saúde e R$ 57 mil dos cofres municipais.

De acordo com a assistente social Mafalda Sparapan, se o número de contaminações (1.153 pessoas) parece pouco à primeira vista, uma avaliação aprofundada mostra que são índices preocupantes. Sparapan é presidente da Sociedade de Apoio a Pessoas com Aids de Bauru (Sapab) e responsável pelo Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA - antigo Coas) da SMS.

“A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza que, para cada pessoa contaminada, existem outros dez contactantes, ou seja, estima-se que cada portador do vírus possa transmitir a doença para outras dez pessoas”, explica.

Segundo Sparapan, o vírus HIV pode permanecer “escondido” no organismo por um período que varia entre 8 e 12 anos. A pessoa não apresenta sintomas e vive normalmente. Mas, durante todo esse tempo, ela pode transmitir o vírus para outros, caso mantenha relações sexuais sem camisinha ou compartilhe utensílios de contato com sangue (agulhas, alicates, etc.).

“As pessoas têm que ter consciência de que quem vê cara, não vê aids. Infelizmente, muitos ficam em situação de risco porque acham que o visual diz tudo, quando não diz nada. Você diz que sabe escolher seu parceiro, mas você não sabe com quem ele esteve antes de você, nem com quem estas outras pessoas estiveram antes dele”, destaca.

Considerando-se um intervalo médio de dez anos para a manifestação do vírus e o número de relacionamentos que uma única pessoa pode ter neste período, pode-se imaginar o risco que cada ser humano corre de se contaminar.

“Apesar do desenvolvimento de novos medicamentos, a aids não tem cura e a única alternativa é a prevenção. Aí, esbarramos em outro problema: o falso-moralismo. Ainda hoje, quando você prega o uso da camisinha, muita gente acha que você está incentivando o sexo e a promiscuidade”, lamenta.

Sparapan ressalta que as pessoas estão transando e não vão parar. Então, é preciso reduzir danos e tornar o sexo seguro. “Também acho fundamental a mudança de valores. Também acho que precisamos resgatar valores perdidos. Mas a libertinagem está aí. Se não podemos contê-la, também não podemos tapá-la com hipocrisia e falsos-moralismos”, acrescenta.

Futuro incerto

A introdução do coquetel de medicamentos que garantiu sobrevida aos portadores do vírus HIV levou muitas pessoas a “baixarem a guarda” e colocarem de lado os métodos preventivos. Para a assistente social, que trabalha com aids há 12 anos, tal comportamento é um erro que pode ter sérias repercussões.

“Se descobrissem um medicamento para a cura da aids hoje, ainda teríamos aproximadamente 20 anos de trabalho (tempo estimado para garantir acesso ao remédio no mundo todo)”, observa.

E se os cientistas descobrissem uma vacina para a doença agora, a solução só seria definitiva para as gerações futuras. Todos os 40 milhões de portadores do vírus HIV registrados hoje e aqueles que eventualmente já estão contaminados e não sabem, teriam que continuar o tratamento. Pelo menos uma geração inteira continuaria convivendo com a doença. Portanto, a prevenção ainda é o único caminho certo.

Caminho sem volta

A Sociedade de Apoio a Pessoas com Aids de Bauru (Sapab) mantém uma casa que abriga, atualmente, dez adultos e seis crianças portadoras do vírus HIV. De acordo com a presidente da instituição, Mafalda Sparapan, são vítimas não só de uma doença, mas do preconceito.

“Se houvesse menos discriminação, as pessoas poderiam falar que têm o vírus, poderiam se expor. Elas levariam uma vida mais tranqüila e poderíamos reduzir as contaminações, porque saberíamos quem é soropositivo”, supõe.

Na casa de apoio, são poucos os moradores que aceitam contar sua história. A maioria prefere esquivar-se de qualquer tipo de informação. Entre os poucos que se dispõem a conversar, é regra ter um “nome de guerra” e jamais permitir que seus rostos sejam mostrados.

“A partir do momento em que a gente descobre que tem aids, a vida muda muito. Os remédios até devolvem a saúde, mas o preconceito tira a gente da sociedade”, desabafa Cristina (nome fictício), 43 anos.

Ela conta que começou a usar drogas aos 23 anos. Queria rebelar-se contra todos e descobrir o mundo. Há 12 anos, depois de uma forte e persistente diarréia, foi informada de quer era portadora do vírus HIV. “Mas eu não sabia que isso era aids. Só fui saber um ano depois, quando a menina que compartilhava seringa comigo morreu”, lembra.

Cristina toma, hoje, sete comprimidos de coquetel por dia e vive longe da mãe e da filha. “Naquela época, a aids era novidade. Se eu soubesse que corria riscos, não teria usado drogas. Mas eu me sentia imbatível (...) Meus pais me deram muita força para estudar, mas eu preferi sair pelo mundo. É assim, como diz o ditado, ‘pau que nasce torto, nunca se endireita’”, sorri.

Heloísa (nome fictício), 26 anos, diz que foi contaminada pelo marido, há sete anos. “Tínhamos três anos de casados, eu estava grávida, quando ele morreu. Não me disseram o que ele tinha. No sexto mês de gestação, perdi a criança. Foi aí que descobri que tinha o vírus”, relata.

Sem o marido, sem o filho e doente, Heloísa diz que sentiu vontade de morrer. “Não gosto nem de pensar no meu filho... a vida podia ser muito diferente”, comenta.

“Eu não tenho muito para contar não. Descobri que tinha aids há dois messes e não sei como me contaminei. Acho que foi com mulher, porque nunca usei drogas. Um dia, tive um problema na perna e não conseguia mais andar. Fiz o exame e descobri que tinha aids”, descreve William (nome fictício), 39 anos.

Artista de circo durante muitos anos, ele conta que foi casado e levou uma vida regrada até poucos anos atrás. “Depois saí do circo, me divorciei e comecei a trabalhar em serviços gerais. Perdi 20 quilos com a aids, mas já estou melhor. Quando melhorar, quero voltar para o serviço, porque a vida não está fácil”, prevê.

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