Política

Empresa ignora compra da Câmara

Josefa Cunha
| Tempo de leitura: 3 min

O sócio-proprietário da Kameda Provision, Jorge Egoshi, disse ontem que não teve qualquer participação no processo realizado pela Câmara Municipal de Bauru para a compra de um aparelho data-show. A declaração reforça as suspeitas do Ministério Público (MP) de que houve fraude na aquisição do equipamento.

A empresa, especializada em assistência técnica e venda de aparelhos fotográficos profissionais e multimídia, foi, segundo documentação apresentada pelo Legislativo, convidada a participar da disputa pela venda do equipamento. No entanto, Egoshi, afirma que a assinatura constante no documento não é dele nem de nenhum outro de seus funcionários.

“Desconheço aquela assinatura e, definitivamente, estou alheio neste processo. Fomos procurados informalmente por dois funcionários da Câmara, que perguntaram o preço do aparelho. Eu disse que custava a partir de R$ 5 mil, pois o data-show, assim como os computadores, varia de preço conforme a sofisticação do modelo”, declarou.

De acordo com Egoshi, o convite à Kameda Provision seria pertinente, embora a empresa não tenha o data-show no estoque ou como produto usual de vendas. “Esse é um equipamento que mexemos somente quando há encomendas. Em Bauru, além de nós, talvez só a Jalovi (livraria), que oferece material para palestras e eventos do gênero, teria porte para trabalhar com esse tipo de aparelho”, disse.

Jorge Egoshi deve repetir até o final da semana estas declarações ao promotor da Cidadania e Patrimônio Público, Fernando Masseli Helene, que investiga o caso. Na última sexta-feira, ele tomou o depoimento de dois servidores da comissão interna de licitação.

Ambos informaram que questões referentes ao envio de cartas-convite e cotação de preços figuram entre as atribuições da Diretoria Administrativa da Casa. O titular do cargo, Luiz Renato Joel, foi procurado ontem pelo JC para comentar as declarações de Egoshi e falar sobre as suspeitas que pairam sobre o processo. A princípio, Joel agendou entrevista, mas depois voltou atrás na decisão. Ele prefere falar ao Ministério Público antes de manifestar-se publicamente.

O promotor Fernando Masseli Helene deverá ouvir Joel nos próximos dias, bem como os proprietários das duas empresas bauruenses que a Câmara alegou terem participado do processo. Outras três empresas - duas de São Paulo e uma de Lençóis Paulista - também teriam sido convidadas e seus responsáveis serão ouvidos via carta precatória. O Ministério Público deve concluir o inquérito dentro de 40 dias.

Falsificação?

Além das suspeitas em relação à veracidade das propostas apresentadas, a compra do data-show apresentou uma outra grave distorção, esta referente ao preço do aparelho. A reserva de verba da Diretoria Administrativa para a aquisição foi de R$ 21 mil, enquanto o equipamento custa, em média, R$ 8 mil.

Com exceção da empresa de Lençóis Paulista, que não apresentou preço, todas as outras quatro apresentaram uma cotação muito acima do valor de mercado, oscilando na casa dos R$ 19 mil. O inquérito que corre no Ministério Público de Bauru quer justamente elucidar se as convidadas formaram um “pool” para estabelecer o preço elevado ou se as propostas contêm outras irregularidades.

Apesar de ainda não ter nenhuma conclusão sobre o caso, Masseli está convicto de que “alguma coisa estranha” ocorreu. A prova mais consistente disso está no fato de a vencedora do processo ter devolvido à Câmara a diferença entre o valor de mercado do aparelho e o preço pago por ele - R$ 9.850,00.

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