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O Brasil e a crise internacional


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Vamos deixar de lado por alguns momentos a crise de confiança que atinge nossa economia e olhar um pouco para a situação internacional. Os problemas que atingem atualmente os mercados de ações dos USA e Europa têm exercido uma força importante na recuperação econômica desses dois pólos mais dinâmicos da economia mundial. A purgação dos excessos gerados pela bolha especulativa nos mercados de ações, no final dos anos noventa, ainda está em ação. A perda da confiança dos investidores na ética dos principais executivos das empresas negociadas nas Bolsas de Valores é um fato muito grave, principalmente em uma sociedade moralista como a americana. A volatilidade dos preços das ações nos mercados do Primeiro Mundo está atingindo níveis somente vistos nos países desorganizados do mundo em desenvolvimento. Esse comportamento desconhecido pelos investidores está gerando problemas terríveis para as empresas financiarem suas dívidas, criando com isso um certo sentimento de pânico nos mercados financeiros. Economia em processo frágil de recuperação, crise de confiança de investidores e consumidores e o medo de uma crise bancária formam um coquetel explosivo que pode explodir a qualquer momento.

Melhor prova dessa situação incômoda no Primeiro Mundo é a mudança do tom das declarações do polêmico secretário do Tesouro americano sobre a crise brasileira. Certamente ele foi pressionado pelas lideranças do sistema econômico de seu país, para abandonar sua posição de antagonismo em relação ao Brasil e a crise externa que estamos vivendo. Suas últimas declarações são de apoio ao nosso governo, se a situação piorar e entrarmos em uma crise de solvência aberta. Um colapso brasileiro, e da Turquia que também está na marca do pênalti, pode colocar o sistema bancário americano em uma situação muito difícil.

Para nós essa mudança forçada de discurso do governo Bush pode representar um fator importante no encaminhamento da transição política, depois das eleições de outubro. Este é um dos poucos aspectos positivos dessa situação internacional complicada para nós. Por outro lado, a crise financeira internacional, que pode acontecer a qualquer momento, é mais um fator de incerteza, que deve cercar nossa economia nos primeiros anos do próximo governo. Por isso, é fundamental que diante dessa nova atitude dos governantes americanos haja um entendimento entre os principais candidatos à Presidência da República e o governo Fernando Henrique, para um acordo de transição com FMI. As primeiras negociações já foram encaminhadas pelo presidente do Banco Central do Brasil e a adesão dos principais candidatos cria uma expectativa positiva para o período pós-eleitoral. Precisamos entender que é a questão do financiamento externo de nosso balança de pagamentos o grande fator de insegurança que existe hoje.

Muitos analistas colocam a questão da rolagem de nossa dívida interna no início do próximo governo, como uma questão central desse acordo de transição. Não concordo com essa posição, pois esse problema pode ser resolvido com uma certa tranqüilidade pelo próximo presidente, sem necessidade de uma complicada negociação política entre os candidatos. Na negociação com o FMI serão tratadas as questões macroeconômicas mais relevantes, para uma redução do nível de stress que atinge hoje os mercados financeiros.

Gostaria de terminar esse nosso encontro, ressaltando os aspectos positivos desse complicado processo de negociação política envolvendo a transição ordenada de governo. Uma prova clara de uma maturidade política de nossa sociedade. (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, é economista e publicador do site e da revista Primeira Leitura. Site: www.primeiraleitura.com.br)

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