Ando à cata de um tal de mercado. Às vezes penso que se trata de um ser de carne e osso, um verdadeiro ser humano. Razões não me faltam: ele tem humor muito variável, é extremamente suscetível, desanda à primeira aragem diferente à que costuma ser submetido. Como os humanos, por vezes fica alerta, em outras fatigado, em situações mais graves já se o admitiu verdadeiramente estressado. Reage irracionalmente como muitos de nós, demonstra raivas, preferências, amores e desamores. Das diversas características humanas só não se teve notícia até hoje que o mercado algum dia tenha caído em copioso pranto.
Às vezes penso que ele seja um santo, porque opera milagres inesperados - consegue elevar um tal de risco-Brasil, porque dá cá aquela palha; afaga o Brasil em Wall Street e ao mesmo tempo condena o país à companhia alegre porém humilhante da Serra Leoa. Mas como santo deveria ter um dia a ele consagrado, coisa que até agora não consegui descobrir. Poderoso como santo, talvez seja até superior ao grande Santo Antonio, meu padroeiro, aquele mesmo da devoção e cartilha da amiga, professora e colega Cleide Canova. Mas talvez santo seja pouco para este tal de mercado.
Move-se invisivelmente, é temido e idolatrado pelos governos, pela mídia, pelos políticos. Por outro lado, quando não há mais ninguém em quem se jogar a culpa, são as costas do tal mercado que doem. É ubíquo: reside em Crato, no Ceará, e ao mesmo tempo dá as cartas na Nova York, cada vez mais, a esquina do mundo. Já pensei que fosse arrogância, mas sou forçado a crer que ele é mesmo onipotente.
Seria o mercado um Deus? Ou o Deus? Se assim fosse, como repartir a unicidade que durante séculos pertenceu ao filho do carpinteiro José? Teríamos durante todos estes séculos adorado, venerado e rezado para um Deus errado? Já não bastaria a divisão do poder no mundo que os evangélicos teimam em fazer entre Deus e o Capeta, e vem agora este tal de mercado querer também tirar sua lasquinha?
O fato é que precisamos urgentemente localizar este ser, esta miragem, este santo, este deus (ou este Deus). Tentar fotografá-lo, tirar suas digitais, saber de suas preferências clubísticas, cinematográficas e musicais. Pedir perdão se alguma vez o desgostamos (ou se desgostamos ao presidente Bush) e dizer que nós, os brasileiros, somos assim mesmo: um pouco desorganizados, um pouco sentimentais, mas como sempre lembrava meu amigo Zuim, “manda quem pode, obedece quem tem juízoâ€. Vamos obedecer para que não pareçamos sem juízo.
Uma vez identificado, quem sabe, com todo jeitinho que é peculiar à nacionalidade, possamos dar-lhe o tal do calmante que FHC prescreveu (ou teria sido Ciro Gomes?). E lembrar que Lula não come criancinha e que sua barba é só para fazer cócegas eróticas quando na intimidade da alcova com dona Marisa.
Não desejamos que o senhor mercado decida as próximas eleições. Afinal, não é todo dia que a esquerda se coliga com a direita, que a direita se coliga com a esquerda e que se assiste este verdadeiro festim pantagruélico em que está se transformando a campanha presidencial. Deixe que a gente vote e que escolha o melhor (ou o menos pior). Depois a gente acerta com ele, ao dólar no paralelo.
Atenciosamente (Marco Antônio de Souza - OAB/SP 55.799 E-mail : longines@uol.com.br)