"Meus antepassados chegaram a Jacutinga, hoje Avaí, ainda no século XIX e habitaram na região das Laranjeiras misturando-se aos silvícolas naturais do lugar como caigangues, coroados, terenas e guaranis. Naturalmente havia ainda animais selvagens de todo porte como antas, catetos, onças e outros menores.
Tenho fotografia de minha bisavó Catharina Foiser e sua filha Emília Foiser, casadas com lenhadores que faziam derrubada de árvores longe de casa, na região onde hoje está a cidade de Presidente Alves. Não tinha estradas, só trilhas pelo meio da mata virgem, por isso o retorno ao lar acontecia no máximo uma vez por mês.
Longe dos respectivos maridos, aquelas heróicas donas de casa enfrentavam até onças que vinham comer porcos, cabritos, aves e outros animais domésticos dentro do quintal da casa do sítio. Além disso, havia o temor pelos índios com os quais havia uma convivência calculada, estudada, tensa e cheia de desconfiança de ambas as partes.
Ainda hoje aparece um ou outro animal de porte pelos lados dos rios Batalha, Batalhinha e Anhumas e os índios remanescentes daquele passado são hoje pacíficos, muitos são formados, bem informados e até emancipados.
Mas a nossa história de hoje vem da década de 50, quando meu pai Floriano de Oliveira tinha um sítio em Avaí em sociedade com o então prefeito Júlio Rocha, pai do atual Reinaldo Rocha.
Floriano sitiante, Pedro Castelhano padeiro e Henrique Mota do D.E.R. combinaram uma rodada de bote desde o sítio perto da barra do Jacutinga até o Clavinote, imaginando fazer uma grande caçada.
O trajeto era considerado longo para a época e levaria cerca de três dias com bote de madeira empurrado com varejão de bambu. Hoje, o mesmo trajeto pode ser feito em até três horas ou menos em bote de alumínio e motor de popa.
Tralhas afins, comida para três por vários dias, ida e volta, espingardas de cano longo calibre 16', farta e grossa munição para derrubar capivara de qualquer tamanho. Capivara, bicho arisco, faro fino e ouvido sensível, esconde-se na mata ou joga-se no rio ao menor sinal estranho, então todo cuidado era pouco como falar em voz alta ou qualquer ruído no barco.
Floriano era o tocador do barco devido a sua experiência e força física. Pedrinho era franzino, surdo e não pilotava barco. Henrique era forte, sua voz também era forte e quando falava alto podia ser ouvido e entendido a um quilômetro mas se cochichasse ainda podia ser escutado a centenas de metros de distância e também não pilotava.
Portanto a caçada programada tinha tudo para não dar certo, pois apenas um sabia pilotar, remar, tinha fala mansa e era bom atirador. O segundo não ouvia nem conseguia ver os bichos entre as árvores e o terceiro ainda os espantava com sua voz forte.
O primeiro dia transcorreu sem nenhuma novidade, não viram nada nem conseguiram escolher um bom local para acampar à noite, pois quando passavam por um lugar ideal, era cedo demais e quando escureceu rápido, o ponto em que estavam não oferecia condições. Choveu naquela noite e meu pai estava cansado devido ao esforço desprendido naquele dia e também devido as inúmeras discussões havidas:
- Não fale alto, não faça barulho, Henrique. Escuta, escuta, preste atenção, seu Pedro. Se achou que agora ia comer, beber e dormir, enganou-se.
O Castelhano se divertia com a nuvem de mosquitos que picavam sem dó nem piedade e, ao contrário dos outros, não os afugentava. Quando eles iam embora voando, cantando e cheios do seu sangue, ainda gritava alegremente:
- Tchau pernilongo, tchau gordinho, boa viagem...
Por outro lado, o Henrique não dormia e falava forte o tempo todo com medo das onças, dizendo:
- Olha a onça, olha a onça, estou ouvindo a respiração dela, já estou sentindo o cheiro dela...
Com essa bagunça toda, o Floriano também não dormiu nem descansou de noite nem de dia durante todo o tempo que durou a aventura.
Finalmente, após três dias de rodada, chegaram a Clavinote com olhos no fundo, barriga nas costas, nenhum bicho, nenhuma ave, nenhum peixe sequer.
No aterro da ponte, Floriano desceu do barco, subiu na estrada municipal de terra para alongar os músculos, fazer um pouco de exercício, pois estava travado, cansado, decepcionado, saco cheio com o resultado zero e com seus desastrados parceiros. E ainda tinha toda a subida de volta. Mas lá longe, na curva da estrada, surgiu o caminhão leiteiro que coletava o produto pelas fazendas, chácaras, inclusive o leite nosso de cada dia do sítio do próprio Floriano.
O motorista do caminhão era o Pino Cerce, que estranhou a presença do seu conhecido sitiante naquele lugar e naquelas horas, de sorte que parou o seu Chevrolet Gigante, ano 37, para saber o que estava acontecendo. Floriano não teve dúvida e num segundo já estava instalado dentro da cabine do caminhão enquanto os outros dois berravam:
- Onde o senhor vai, seu Floriano...?
A resposta estarreceu a ambos:
- Vou tirar o leite das minhas vacas, eu tinha me esquecido...
Duas semanas mais tarde, Pedro e Henrique chegaram de volta no sítio de mãos e barrigas vazias, de mal com o barco, com o rio, com os bichos, com o mundo, mas não reclamaram nada com o Floriano pois o ditado diz que boi em curral alheio é vaca.
Mas alguns dias depois alguém, não me lembro quem, convidou o Henrique Mota para uma nova rodada para caçar onças e teve pronta resposta curta, grossa, em alto e bom som, própria do próprio:
- P.q.p."
Eurico de Oliveira Funcionário público aposentado, pescador e contador de histórias.