Geral

CTEEP guarda lixo tóxico em Bauru

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

A Companhia de Transmissão de Energia Elétrica Paulista (CTEEP), localizada às margens da rodovia Marechal Rondon, em Bauru, guarda em seus galpões uma grande quantidade de transformadores velhos contendo ascarel, um óleo tóxico que, por ter propriedades isolantes, até 1981 era usado em equipamentos elétricos.

A assessoria de imprensa da CTEEP garante que o lixo tóxico está armazenado em conformidade com a legislação e não há risco de vazamento e contaminação. Porém, o Sindicato dos Eletricitários de Bauru recebeu denúncia de que parte do material teria sido aterrado na própria empresa, o que poderia contaminar o solo.

Jesus Francisco Garcia, diretor sindical, conta que funcionários denunciaram que, há alguns anos, o lixo tóxico era aterrado no próprio local. “Há um local na empresa, chamado morro da formiga, que, segundo as denúncias, é onde o material foi aterrado”, afirma.

A suspeita foi reforçada por uma denúncia anônima recebida pelo JC, que relaciona uma licitação aberta recentemente pela CTEEP a uma possível proposta de descontaminação do solo. A empresa está contratando serviços de manuseio, transporte, drenagem, fragmentação, envase e destinação final (incineração e/ou reciclagem) de 176.200 quilos de resíduos sólidos, líquidos e miscelânea oriundos de transformadores e outros materiais contaminados por bifenilas policloradas, o ascarel.

A assessoria de imprensa da CTEEP nega que a licitação visa contratar serviços para descontaminar o solo. De acordo com a assessoria, a empresa que ganhar a licitação vai somente dar destinação final aos equipamentos contaminados com óleo que estão guardados nos galpões.

Rodrigo Agostinho, vereador e membro do Instituto Ambiental Vidágua, após saber da abertura da licitação, vai solicitar à Companhia de Tecnologia e Saneamento Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) uma vistoria para saber as condições do material armazenado. “Nós tínhamos o conhecimento da existência do ascarel em transformadores queimados, o que não oferece risco. Mas agora, com a abertura da licitação para incineração e após a denúncia do sindicato, queremos saber as condições do depósito, se há ou não material depositado de forma irregular e se houve contaminação”, explica.

Além disso, o Vidágua irá solicitar à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) auditoria ambiental na CTEEP. “Vamos esperar as informações da Cetesb e da Semma e, se houver irregularidade, entraremos com ação civil pública”, avisa.

Os transformadores e outros equipamentos com ascarel, de acordo com a CTEEP, estão acondicionados em tambores armazenados em galpão com piso especial. “Não há nenhum vazamento nem risco de contaminação. A Cetesb inspeciona o armazenamento a cada dois meses”, informa a assessoria.

Rogério Chini, gerente da Cetesb em Bauru, confirma que o órgão ambiental vistoria o depósito de ascarel da CTEEP e nunca foram encontradas irregularidades. Ele atesta que o material tóxico está sendo guardado dentro das exigências da legislação.

Chini diz desconhecer a informação de que material com ascarel foi aterrado na empresa. “Se o sindicato tem essa suspeita, deveria nos solicitar, por vias oficiais, uma fiscalização nesse sentido”, afirma.

A assessoria da CTEEP afirma que a contratação de empresa especializada para dar a destinação final a equipamentos com ascarel é uma prática comum. “O uso do ascarel está proibido há vários anos, mas ainda temos equipamentos em funcionamento que utilizam o óleo. Na troca do equipamento, o ascarel é retirado e embalado. Quando a empresa acumula uma grande quantidade do produto abre licitação para dar a destinação final”, explica a assessoria de imprensa.

Destinação final

A destinação final indicada para o ascarel é a incineração em altas temperaturas. Porém, há entidades ambientais, como o Vidágua, que condenam essa prática. Rodrigo Agostinho, membro da ong, afirma que a combustão do óleo elimina gases tóxicos. “Somos totalmente contra a incineração. Defendemos que esse produto precisa ser armazenado de maneira correta para sempre”, diz.

O ascarel é um óleo resultante da mistura de hidrocarbonetos, derivados de petróleo. O óleo é considerado cancerígeno e causador de vários danos à saúde, inclusive ao sistema nervoso central. Pelo risco à saúde, o uso do ascarel no Brasil está proibido desde 1981.

Porém, ainda existem muitos equipamentos velhos contaminados com o óleo armazenados em várias partes do País. Agostinho frisa que o produto é altamente tóxico. “Na Baixada Fluminense tivemos caso de contaminação pela ingestão do óleo. Moradores extraíram o óleo do transformador e o usaram em fritura. Todos foram internados”, relata.

Comentários

Comentários