Sem obstáculos intransponíveis, as nossas sociedades deslanchavam lépidas, no outro século, em muitas conquistas intelectuais, mas somente os masculinos logravam destaque no amplo cenário da literatura, pois, quando o ensaísmo, a ficção e a poesia apareciam no mercado, quem eram os seus verdadeiros autores? Eram unicamente figuras existentes no vultoso esquadrão do sexo forte, as quais se esmeravam na versificação de seus pensamentos, nisso impondo à admiração dos leitores todo o esplendor de suas inspirações. Mas não seria apenas isso o bastante para ganharem eles comoventes encômios, creditados pelo público, amante da boa leitura, porque, conjuntamente, aspiravam também a uma venda fácil e descontraída de seus livros e folhetos. Não teria sido por outro motivo, então, que os nossos beletristas varões invadiram francamente o cenário e, superando inspiradamente seus primórdios, vinham mantendo, desde longa data, no altar de seus imaginosos versos, obras de esplêndida elaboração, pensadas e redigidas por intelectuais cuja masculinidade não elipsava o encanto e a sutileza de inteligências como as de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge de Lima, Gregório de Mattos, Jorge Amado, Manoel Bandeira, José Rubens Fonseca e Carlos Drummond de Andrade, entre tantas outras anteriores, Bilac inclusive, exuberantemente festejadas no interior e exterior do País à medida em que vinham despontando. Perguntava-se até se os versos e contos estampados nos livros, jornais e revistas da época, tendo como autores somente nomes masculinos, seriam mesmo da lavra enunciada. As belas imagens femininas ainda não figuravam no rol? Onde estariam rigorosamente ocultas? Elas, entretanto, que começavam a inserir-se em diferentes segmentos da humanidade - atividades sociais, mercado de trabalho, etc. - teriam, um dia, de mostrar também no campo da literatura o talento que Deus lhes dera desde a concepção. “Teriam de sair da caverna, do esconderijo!†- dizia a pré-poetisa Luzia Telles, enquanto outra afirmava que “a inserção feminina na esfera era extremamente benéfica, porque a literatura robustece a mulher ou, pelo menos, a afasta de seu centroâ€. E é a partir daí que foram surgindo Lygia Fagundes Telles, Raquel de Queiroz, Odília Prado, Nélida Piñon, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Ana Cristina César, Hilda Hilst, Orides Fontella, Lyz Luft, Renata Pallotini, Lucinda Persona, Dora Ribeiro e muitas outras, na sequência do século XIX, com trabalhos inseridos em compêndios, adotados em escolas de todos os níveis, traduzidos para vários idiomas e declamados em recitais, porquanto conseguiram todas incluir-se plenamente no universo das belas letras. E não se esqueça de lembrar, igualmente, da saudosa Cora Coralina, em cujos trabalhos teve toda a sua inspiração bondosamente vinculada à pobreza e à querida raça negra.
Tem hoje a literatura nacional uma enorme constelação de talentos, inteligências e intuições femininas, os quais se ombreiam com os dos varões, pois estão enraizados apaixonadamente na poesia e contos, alegres ou tristes, que embalam os corações de nossa gente. Temos, então, de bater para as Evas literatas as mesmas palmas que batemos para os Adãos, saudando-as carinhosamente pelos seus belíssimos pensamentos e rimas. Parabéns, meninas, vivas ou onde estiverem definitivamente escondidas. Tudo quanto as belas letras despertam nos garotos deve despertar em vocês também, pois os espaços a todos pertencem. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)