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Amizade garante fidelidade no comércio

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Os laços de amizade entre clientes e os comerciantes mais antigos de Bauru garantem a fidelidade no comércio local. Lojistas instalados há mais de 30 anos comercializam seus produtos aos descendentes de seus primeiros clientes. O atendimento personalizado e a confiança no produto vendido atraem a 4ª geração da mesma família.

A competição de preços e a diversidade de produtos oferecidos pelo comércio local não seduzem Osvaldo Rodrigues Azenha, quando o assunto é tecido. A amizade que nutre pela família Abo-Arrage faz com que ele seja um dos mais fiéis clientes da Casa Nova Tecidos.

A amizade dele pelos comerciantes se estendeu a seus descendentes e aos descendentes de João Abo Arrage, fundador da loja. “Minha família toda compra tecidos aqui. Meus filhos, minha nora e meus netos. A gente se conhece, isso facilita o atendimento.”

Azenha acompanhou a evolução da loja. “Compro tecidos aqui há mais de 50 anos. No início, em 1938, comprava mais do que hoje. Quando o João Abo Arrage abriu a loja não existiam estabelecimentos que vendiam roupas já confeccionadas. Eu comprava tecido para a família toda”, conta.

Ele lembra que naquele tempo o movimento no comércio era grande. “Tinham poucas lojas e o pessoal que morava na área rural fazia compras em Bauru.”

A loja, uma das primeiras no ramo a se instalar na rua Batista de Carvalho, é dirigida por um dos filhos de seu fundador, Kamele Abo Arrage, e mantém um dos vendedores mais antigos do comércio de Bauru Júlio Fernandes, 57 anos.

O vendedor que conhece tecidos como ninguém, diz que o consumidor mudou de comportamento. “Antigamente, eram os pais que compravam para os filhos. Eles escolhiam um tecido para a confecção de roupas para a família toda. Compravam a peça.”

Atualmente, a escolha é feita pelo próprio usuário. “As pessoas chegam sabendo o que querem. Escolhem tecidos e exigem qualidade. O movimento é menor. O cliente quer produtos de qualidade e atendimento personalizado”, relata Júlio.

Para acompanhar a evolução da sociedade, a loja teve que admitir novos funcionários. “Hoje temos duas estilistas para fazer os modelos. Tivemos que evoluir para acompanhar as exigências do mercado”, confessa Kamele Abo Arrage.

Dentista aposentado, ele teve que assumir a loja por circunstâncias familiares. “Temos alguns funcionários com mais de 20 anos de casa. Eles sabem a arte de bem atender. Entendem do assunto. Sabem mostrar e têm argumentos para convencer o cliente.”

O comerciante acha que o ramo de tecido se elitizou. “Antigamente, as exigências eram menores. Hoje, o consumidor de tecido quer um produto diferenciado para que ele não seja mais um”, observa Kamele.

Caderneta

Em 1937, o encanador Paulo Torralba fundou a loja Cecy- presentes finos, na quadra 5 da Batista de Carvalho. Naquela época, as vendas à prazo eram anotadas em uma caderneta e pagas religiosamente no dia marcado, ressalta o filho do comerciante, Nelson Torralba.

Sessenta e cinco anos depois, a loja não mantém o mesmo procedimento. “Está difícil receber com cheque e nota promissória. Já imaginou se eu marcar na caderneta?”

Administrada pelos irmãos, Nelson e Ana Torralba Prado, a casa Cecy mantém o lay-out original. Prateleiras e vitrines de madeira com a mesma disposição dos produtos. Em contato direto com o público consumidor, os irmãos mantêm relações de amizade com várias famílias da cidade. “Temos clientes que fazem parte da 4.ª geração da mesma família.”

Nelson Torralba faz uma observação sobre o comportamento do cliente. “Observamos que os avós eram bons pagadores. Os pais também, mas os filhos e netos não mantêm a mesma linha”, comenta.

Ele admite que o movimento no comércio de presentes é muito menor do que na década de 50. “Antigamente, nos meses de maio, junho e julho, em Bauru aconteciam cerca de 40 casamentos por semana. Hoje, o número é bem menor.”

O comerciante lembra que naquela época os presentes eram mais simples. “Os convidados levavam um jogo de café ou chá. Hoje, compram presentes mais caros, como faqueiro, cristais etc.”

Para ele, o crescimento do comércio local foi benéfico. “Quando meu pai começou, eram poucas lojas. O aparecimento de novos estabelecimento, atraiu o consumidor da região e foi bom para todos os comerciantes” avalia.

O comércio da família Torralba não contagiou os filhos de Nelson e Ana. “Nossos filhos se formaram e não querem tocar o negócio. Ser comerciante é não ter férias e os jovens querem um emprego que lhes garanta um bom salário e período de descanso”, diz Nelson.

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