Os laços de amizade entre clientes e os comerciantes mais antigos de Bauru garantem a fidelidade no comércio local. Lojistas instalados há mais de 30 anos comercializam seus produtos aos descendentes de seus primeiros clientes. O atendimento personalizado e a confiança no produto vendido atraem a 4ª geração da mesma família.
A competição de preços e a diversidade de produtos oferecidos pelo comércio local não seduzem Osvaldo Rodrigues Azenha, quando o assunto é tecido. A amizade que nutre pela família Abo-Arrage faz com que ele seja um dos mais fiéis clientes da Casa Nova Tecidos.
A amizade dele pelos comerciantes se estendeu a seus descendentes e aos descendentes de João Abo Arrage, fundador da loja. “Minha família toda compra tecidos aqui. Meus filhos, minha nora e meus netos. A gente se conhece, isso facilita o atendimento.â€
Azenha acompanhou a evolução da loja. “Compro tecidos aqui há mais de 50 anos. No início, em 1938, comprava mais do que hoje. Quando o João Abo Arrage abriu a loja não existiam estabelecimentos que vendiam roupas já confeccionadas. Eu comprava tecido para a família todaâ€, conta.
Ele lembra que naquele tempo o movimento no comércio era grande. “Tinham poucas lojas e o pessoal que morava na área rural fazia compras em Bauru.â€
A loja, uma das primeiras no ramo a se instalar na rua Batista de Carvalho, é dirigida por um dos filhos de seu fundador, Kamele Abo Arrage, e mantém um dos vendedores mais antigos do comércio de Bauru Júlio Fernandes, 57 anos.
O vendedor que conhece tecidos como ninguém, diz que o consumidor mudou de comportamento. “Antigamente, eram os pais que compravam para os filhos. Eles escolhiam um tecido para a confecção de roupas para a família toda. Compravam a peça.â€
Atualmente, a escolha é feita pelo próprio usuário. “As pessoas chegam sabendo o que querem. Escolhem tecidos e exigem qualidade. O movimento é menor. O cliente quer produtos de qualidade e atendimento personalizadoâ€, relata Júlio.
Para acompanhar a evolução da sociedade, a loja teve que admitir novos funcionários. “Hoje temos duas estilistas para fazer os modelos. Tivemos que evoluir para acompanhar as exigências do mercadoâ€, confessa Kamele Abo Arrage.
Dentista aposentado, ele teve que assumir a loja por circunstâncias familiares. “Temos alguns funcionários com mais de 20 anos de casa. Eles sabem a arte de bem atender. Entendem do assunto. Sabem mostrar e têm argumentos para convencer o cliente.â€
O comerciante acha que o ramo de tecido se elitizou. “Antigamente, as exigências eram menores. Hoje, o consumidor de tecido quer um produto diferenciado para que ele não seja mais umâ€, observa Kamele.
Caderneta
Em 1937, o encanador Paulo Torralba fundou a loja Cecy- presentes finos, na quadra 5 da Batista de Carvalho. Naquela época, as vendas à prazo eram anotadas em uma caderneta e pagas religiosamente no dia marcado, ressalta o filho do comerciante, Nelson Torralba.
Sessenta e cinco anos depois, a loja não mantém o mesmo procedimento. “Está difícil receber com cheque e nota promissória. Já imaginou se eu marcar na caderneta?â€
Administrada pelos irmãos, Nelson e Ana Torralba Prado, a casa Cecy mantém o lay-out original. Prateleiras e vitrines de madeira com a mesma disposição dos produtos. Em contato direto com o público consumidor, os irmãos mantêm relações de amizade com várias famílias da cidade. “Temos clientes que fazem parte da 4.ª geração da mesma família.â€
Nelson Torralba faz uma observação sobre o comportamento do cliente. “Observamos que os avós eram bons pagadores. Os pais também, mas os filhos e netos não mantêm a mesma linhaâ€, comenta.
Ele admite que o movimento no comércio de presentes é muito menor do que na década de 50. “Antigamente, nos meses de maio, junho e julho, em Bauru aconteciam cerca de 40 casamentos por semana. Hoje, o número é bem menor.â€
O comerciante lembra que naquela época os presentes eram mais simples. “Os convidados levavam um jogo de café ou chá. Hoje, compram presentes mais caros, como faqueiro, cristais etc.â€
Para ele, o crescimento do comércio local foi benéfico. “Quando meu pai começou, eram poucas lojas. O aparecimento de novos estabelecimento, atraiu o consumidor da região e foi bom para todos os comerciantes†avalia.
O comércio da família Torralba não contagiou os filhos de Nelson e Ana. “Nossos filhos se formaram e não querem tocar o negócio. Ser comerciante é não ter férias e os jovens querem um emprego que lhes garanta um bom salário e período de descansoâ€, diz Nelson.