Na década seguinte à queda do comunismo, o capitalismo global resplandeceu através do planeta como uma estrela supernova e acabou com comunidades, valores e tradições por todos os lados. Entretanto, na ausência de regulamentações efetivas para moderar os excessos inatos do capitalismo, muitos no mundo empresarial embriagaram-se com sua sempre crescente e facilmente obtida riqueza e pela aparente imunidade de que gozavam diante das conseqüências de suas ações. Agora, como dragões que devoram suas próprias caudas, eles estão sendo consumidos por sua avassaladora ambição.
Diante da falta de desafios externos à sua supremacia, o capitalismo começou a criar suas próprias contradições internas. Atraídos pela perspectiva de obter dinheiro fácil e liberados por uma desregulamentação geral, os executivos, acionistas e milhões de cidadãos comuns pegaram o vírus que o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, recentemente qualificou de “cobiça infecciosaâ€. Agora, o vírus está executando sua vingança, derrubando os poderosos e tosquiando os infelizes pequenos investidores que estão em apuros depois de terem sido atraídos com falsas promessas ao cassino econômico.
Tragicamente, enquanto os economistas e políticos, que lhes vendiam as passagens para esse Titanic em que se transformou a economia mundial, encontram-se nos acolchoados botes salva-vidas do Capítulo 11, o auto-explosivo mercado de valores - onde o Dow Jones perdeu, em média, quase a metade de seu valor desde que George W. Bush assumiu a presidência e onde o índice Nasdaq, das companhias de alta tecnologia, caiu 75% desde seu pico há dois anos - produziu o que o comunismo nunca pôde provocar: uma crise de confiança no capitalismo e na credibilidade empresarial.
Numerosos analistas temem, agora, que a ampla base de apoio constituída pelos pequenos investidores, que ajudou a alimentar a embriaguez dos anos 90, possa desaparecer. Muitos que ainda sustentam a bolsa vazia também afundarão e com eles outros, cujos negócios dependem daqueles.
Quaisquer que sejam suas crises e excessos, o capitalismo mantém um inegável dinamismo devido à sua habilidade para utilizar o próprio lucro para criar riqueza. Porém, sua virtude também é um vício, pois quando o interesse próprio fica desenfreado converte-se em avassaladora cobiça que devora a própria fonte de sua vitalidade. Apenas um capitalismo que recompense os que criam a riqueza - empregados comuns e suas comunidades, não menos que os executivos e acionistas - sobreviverá à crise em que se encontra. E somente um capitalismo com substancial cota de consciência e compaixão é digno de sobreviver. (O autor, Mark Sommer, é um colunista norte-americano que dirige o programa semanal de rádio “A World of Possibilitiesâ€)