Saúde

Longevidade permite evolução de doenças

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

O aumento da expectativa de vida do ser humano, no último século, permitiu que as doenças degenerativas se manifestassem completamente, ou seja, com todas as suas complicações. Algumas nem chegaram a ser conhecidas no passado, quando as pessoas não passavam dos 60 anos de idade.

O melhor exemplo disso é o Mal de Alzheimer, cuja incidência parece aumentar ano após ano. Na verdade, é uma doença que só se manifesta, em média, depois dos 65 anos. No entanto, de acordo com o geriatra Júlio Rodrigues Horta Filho, estima-se que 20% a 50% dos idosos com mais de 80 anos apresentem a patologia.

O primeiro registro da doença ocorreu em 1907 (há 95 anos), quando o médico alemão Alois Alzheimer descobriu anomalias no cérebro de uma senhora morta aos 55 anos. Durante a necrópsia, ele percebeu que as células nervosas (neurônios) da mulher estavam atrofiadas e que havia fibras dentro destas células.

As pesquisas continuaram, mas a incidência da patologia era tão rara, que ela só chegou aos ouvidos do povo em meados dos anos 90, quando foi diagnosticada numa personalidade mundial: o ex-presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. Só então o nome “Mal de Alzheimer” passou a ser dito fora dos meios acadêmicos.

A doença de Alzheimer é uma patologia degenerativa que vai atrofiando uma área muito importante do cérebro - o córtex, que coordena a concentração, memória, raciocínio e inteligência do ser humano.

Aos poucos, a pessoa começa a apresentar esquecimentos estranhos. Ela está habituada a guardar uma coisa sempre no mesmo lugar e de repente não se lembra mais aonde. Ou simplesmente esquece o nome de pessoas cujo convívio é diário. Ou não recorda o que comeu no almoço duas horas antes.

Com o tempo, ela perde a noção de tempo e espaço, perde a coordenação motora e vai tornando-se cada vez mais dependente de outras pessoas, até ter sua autonomia totalmente prejudicada.

“O Mal de Alzheimer corresponde a 50% dos casos das chamadas síndromes demenciais. Com o aumento da expectativa de vida, temos tido mais contato com essa patologia e estamos acompanhando os estágios mais avançados desta e de outras doenças - o que não conseguíamos até há algum tempo”, completa o geriatra Luciano Humberto Soares Camargo.

Segundo os médicos, não existe cura para o Mal de Alzheimer, mas a medicina já dispõe de medicamentos que permitem amenizar suas manifestações.

Demências vasculares

Outro tipo de alteração demencial são as doenças resultantes de deficiências vasculares, ou seja, aquelas que aparecem devido às falhas de circulação sangüínea. O sangue é responsável pelo transporte de oxigênio e nutrientes para cada uma das inúmeras células do organismo. Quando ele não chega adequadamente a todas estas células, o corpo sofre perdas.

É o que acontece, por exemplo, com pessoas que sofreram um acidente vascular cerebral (AVC ou derrame). Ou com aquelas que tiveram isquemia (falta de sangue momentânea em determinado ponto do cérebro). As falhas de circulação podem “matar” os neurônios e deixar seqüelas.

As conseqüências mais comuns são parecidas com os sintomas de Alzheimer, como perda de memória, confusão mental, “apagões” repentinos e dificuldade de coordenação motora.

Parkinson

Outra disfunção associada ao envelhecimento é o Mal de Parkinson - a doença do tremor. A patologia é caracterizada por uma falha na produção de uma substância chamada dopamina. Trata-se de um neurotransmissor, ou seja, um “veículo” que transfere as ordens cerebrais de uma célula à outra.

A deficiência de dopamina afeta o sistema nervoso central e faz com que a pessoa vá perdendo, lenta e progressivamente, a capacidade de controlar seus movimentos de maneira normal. A medicina não descobriu por que algumas pessoas não produzem dopamina adequadamente, mas sabe que a doença atinge uma em cada mil pessoas acima dos 50 anos. Calcula-se que a incidência seja de 2% a partir dos 65 anos.

O tremor conseqüente do Mal de Parkinson pode atingir não só as mãos, mas também os pés e a mandíbula (queixo). Simultaneamente, a pessoa apresenta uma rigidez muscular, que torna os movimentos desencontrados e lentos (ela não balança os braços alternadamente quando anda, por exemplo). Com o tempo, pode perder também o equilíbrio.

Da mesma forma que o Mal de Alzheimer, não existe cura. Mas o tratamento precoce permite um bom controle dos sintomas e melhores condições de vida.

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Doenças da meia idade

Outras patologias que também podem comprometer o envelhecimento são aquelas que se manifestam ainda na “meia idade” e que vão acompanhar o indivíduo por toda a vida. É o caso da hipertensão e do diabetes, por exemplo.

A pressão arterial é medida comparando-se a força que o coração precisa para bombear o sangue e a resistência que as artérias oferecem a esse impulso. Quando essas artérias ficam “apertadas”, a pressão aumenta e a circulação sangüínea fica mais difícil.

Tendo sua passagem dificultada, o sangue acaba causando lesões nas paredes das artérias. Com o tempo, elas podem romper (causando hemorragias/derrames) ou acumular gordura (que podem obstruir totalmente a passagem do sangue, causando o infarto).

Paralelamente, o coração tem que trabalhar mais. Como qualquer músculo quando faz ginástica, ele pode “crescer”. Então, a quantidade de sangue que ele recebe torna-se insuficiente para chegar a todas as células, deixando-as “desnutridas” e com falta de oxigênio. Como efeito dominó, outros órgãos podem sofrer também.

Diabetes

Estimativas mostram que cerca de 8% da população brasileira entre 30 e 69 anos sofre de diabetes. A doença acontece quando, por razões ainda desconhecidas, o pâncreas deixa de produzir insulina suficiente para eliminar o açúcar do sangue.

Sem o controle adequado da doença (feito com medicamentos, dieta e exercícios), o acúmulo de glicose “engrossa” o sangue, dificultando a circulação. Sendo o sangue o “entregador” de nutrientes e oxigênio para as células, quando ele não chega a determinado órgão do corpo, este pode apresentar sérias complicações.

A retinopatia é uma delas. Sem a irrigação adequada, a retina ocular torna-se frágil e pode apresentar lesões. Quando isso acontece, o diabético perde sua capacidade visual e pode ficar cego. Atualmente, a doença é a primeira causa de cegueira do mundo.

Outra complicação é a nefropatia, que debilita os rins. Conforme a gravidade do problema, o paciente pode precisar de hemodiálises e transplante renal. O portador de diabetes tem cerca de 17 vezes mais chances de sofrer insuficiência renal crônica.

Perder a sensibilidade de partes do corpo é outra conseqüência importante do diabetes. Neste caso, o principal prejudicado é o pé. Sem a circulação adequada, a pessoa não sente o peso do corpo e pode sobrecarregar pontos específicos do pé.

O resultado pode começar com calosidades e evoluir para lesões, gangrenas e até amputação. Segundo os dados, o diabético sofre 40 vezes mais amputações em membros inferiores que pessoas sadias.

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Automedicação

O geriatra Luciano Camargo chama atenção para o hábito que muitos idosos têm de tomar medicamentos sem consultar o médico. â€œÉ o famoso bom para o vizinho, ou aquele que o farmacêutico indicou. A automedicação é uma situação complicada. Mais ainda nessa idade, quando eles já costumam tomar uma quantidade grande de medicamentos”, alerta.

O médico salienta que misturar remédios indicados para um tratamento específico com outros que “alguém” recomendou pode ser prejudicial ao paciente. São as chamadas interações medicamentosas, em que um produto altera o efeito do outro.

Em alguns casos, uma substância pode anular os benefícios de outra. Em outros, pode aumentar seu efeito para além do esperado. Um medicamento para hipertensão poderia, neste caso, baixar demais a pressão arterial.

Além disso, muitos remédios com nomes diferentes são feitos com o mesmo princípio ativo. Tomar dois deles ao mesmo tempo pode causar superdosagem. Em alguns casos, o paciente pode ficar intoxicado ou pode até sofrer uma parada cardiorrespiratória.

O geriatra Júlio Horta salienta que é muito comum o paciente idoso chegar ao consultório com polipatologias, ou seja, com diversas doenças diferentes ao mesmo tempo. Neste caso, é fundamental investigar quantos e quais remédios ele usa para cada problema.

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