Polícia

Crime de 1986 chega a julgamento

Rita de C. Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O Tribunal do Júri de Bauru estará reunido na próxima quinta-feira para o julgamento de Paulo de Tarso Tolin Cesário, acusado de ter matado com várias facadas a cartorária Donizetti Maria Artioli. O crime que abalou a cidade na década de 80 está sendo levado a júri mais de 15 anos depois, tempo em que o acusado ficou foragido.

Zeti, como era conhecida entre os amigos do Forum onde trabalhava, foi morta no dia 15 de março de 1986, três dias antes do seu aniversário, na casa onde morava na rua Prudente de Morais, quadra três, Vila Falcão.

Consta da acusação, que ela e seu namorado, Paulo Cesário, tinham ido a um casamento e quando retornaram para a residência, começaram a discutir, por volta das 23h.

De acordo com a família dela, as brigas entre os dois eram constantes, uma vez que ela não aceitava o suposto comportamento agressivo do companheiro. “Ele andava armado e ela não aceitava isso,” lembram as irmãs Maria Nazareth Artioli e Maria Cristina Artioli.

A discussão entre o casal acontecia no quarto da frente da casa, enquanto os dois filhos da cartorária ocupavam um quarto dos fundos, na companhia da empregada.

Em determinado momento, quando a discussão estava no auge, o acusado teria abandonado o quarto e se dirigido à cozinha, onde teria se apoderado de uma faca.

Com a arma, ele teria desferido vários golpes contra sua então namorada. Dois deles atingiram o abdome. “Ela estava tentando terminar com o relacionamento e ele não aceitava.”

Após a morte de Zeti, Cesário fugiu e não foi localizado pela polícia. Mais de 10 anos depois, ele foi detido no Rio Grande do Sul. A irmã de Zeti, Maria Nazareth Artioli lembra que no ano de 1999 recebeu um telefonema da cidade de Cachoerinha/Rio Grande do Sul.

A pessoa que ligou dizia que estava sendo ameaçada por Cesário. “Era uma mulher. Ela disse que sua irmã estava se relacionando com ele. Como ela e a mãe não aceitavam o relacionamento, ele teria ameaçado matar a namorada, como já havia feito com uma mulher de Bauru”, contou.

A irmã, apavorada, teria localizado a família de Zeti em Bauru para se certificar se ele era mesmo acusado de matar uma mulher na cidade. Através desse telefonema é que a família de Zeti teria conseguido localizar o acusado e comunicado à polícia.

Pesadelo

A morte violenta de Zeti mudou o rumo da família Artioli. A mãe dela nunca teria se conformado com a forma como a filha foi morta. Morreu com tumor no cérebro.

Os dois filhos de Zeti, um com 6 e outro com 4 anos, na época, hoje com 22 e 20 anos, contam que viveram um pesadelo, superado há pouco tempo. Thiago e Théo enfrentaram uma série de dificuldades, sem a mãe. “O que a gente não se conforma é que ele sabia que ela tinha dois filhos pequenos e mesmo assim foi matá-la.”

Thiago teria sido o mais prejudicado psicologicamente. “Durante anos não conseguia dormir. Tinha pesadelos. Sentia medo do Paulo voltar para matar a gente. Tive medo do escuro e precisei de tratamento psicológico para superar as seqüelas”, disse.

Théo não se lembra da mãe. “Minha vida começou depois da morte dela. Acho que tive um bloqueio psicológico para me livrar do sofrimento”.

Os irmãos frisam que, a vida toda, o pai teve que exercer os dois papéis. “Meu pai foi mãe, também. Durante muitos anos sentimos na pele o que é viver sem mãe.”

Eles lembram que, quando crianças, não entendiam por que eles tinham que viver sem mãe. “Todos os nossos amiguinhos tinham mães, nós não. No dia das Mães, tínhamos que entregar rosas ou presentes para o meu pai. Isso afetou a nossa infância.”

Os irmãos dizem esperar que a Justiça seja feita. “Ele teve tempo para pensar no que estava fazendo. Foi até a cozinha pegar a faca e matar minha mãe. Durante anos esperamos por esse julgamento. Queremos que os julgadores não esqueçam do sofrimento da nossa família.”

Defesa

O advogado de defesa de Paulo Tarso Cesário, Milton Martins, foi procurado durante toda a tarde de sexta-feira para falar sobre o julgamento. Segundo sua secretária, ele estava reunido com outros advogados e não podia ser interrompido.

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