A Área de Livre Comércio das Américas (Alca) significa, na prática, para os países latino-americanos, o Acordo para Legalizar a Colonização das Américas. Essa é a avaliação do professor da Universidade Bandeirantes (Uniban), José Welmocki, membro da Liga Internacional dos Trabalhadores (Lite), doutorando da Unicamp e integrante do diretório nacional do PSTU. Ele fez palestra no seminário sobre Reforma Agrária e Alca, ontem, no teatro Guilhermão da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O seminário contou com 132 inscritos e 157 participantes. Leia a entrevista onde Welmocki fala sobre a Alca:
Jornal da Cidade - Qual sua visão sobre a área de livre comércio e a possível inserção do Brasil? José Welmocki - A Alca é uma grande política dos EUA para legalizar a colonização das américas. Como muito bem definiu uma pessoa do movimento social, é o Acordo para Legalizar a Colonização das Américas. Os próprios linguistas americanos publicam que os EUA estão com uma política para transformar a América Latina inteira em uma colônia econômica. E a Alca seria exatamente a configuração jurídica desse movimento. Os EUA passariam a tomar conta das fontes de energia, comercial, do intercâmbio com total hegemonia americana. Infelizmente os governos da América Latina até agora só fizeram pequenos reparos a esse programa.
JC - O senhor diz que a América Latina está discutindo superficialmente o perigo da Alca para o continente? Welmocki - Sim, os governos tomam exemplos reais mais menores como os subsídios que os americanos dão ao ação e a área agrícola. É verdade que esses subsídios devem ser combatidos. Mas o problema é muito mais profundo. A Alca significaria a entrega de todas as riquezas da América Latina com uma perda de empregos muito mais brutal para os problemas que enfrentamos, mesmo para o Brasil que ainda tem uma indústria com certo peso. E esse programa também significa integrar a nossa soberania à Alca. Não é uma simples indicação de entrega de nossa moeda para um mercado comum onde existe um imperador. Já existem movimentos continentais onde empresas americanas podem processar governos por causas como a poluição. Isso aconteceu no México e no Canadá onde uma empresa americana ganhou em um tribunal da Alca. E não seria diferente com o Brasil. O país cede sua soberania em troca de migalhas do mercado americano.
JC - Com a América Latina em crise econômica e política, com o Mercosul retalhado. Como seria possível gritar contra a Alca sem amparo e sem força? Welmocki - Os países da América Latina estão nessa crise exatamente porque aplicaram essa política neoliberal. O Brasil não está fora não, apesar do remendo financeiro que foi feito em nossas contas nessa semana. É uma política de abertura comercial que tornaria uma América Latina inteira uma grande Argentina, um país que abriu todas as suas fronteiras comerciais e está pagando muito caro por isso. Seria se submeter a esse modelo. A única forma é romper com a Alca, gritar, dizer não. Não podemos aceitar esse modelo de anexação comercial no estilo colônia, onde um estabelece as regras. O Brasil é um país chave para a Alca porque é a segunda economia neste continente, embora muito inferior aos EUA. Mas ainda é o único país tem alguma estrutura e condições de gritar. E o papel do Brasil seria chamar os nossos vizinhos em crise para gritarmos juntos. Ruim com a crise atual, muito pior será com a Alca. É a única resposta que podemos dar e isso depende do nosso governo.
JC - A dependência econômica dos países do Mercosul pressiona ainda mais pela aceitação da Alca? Welmocki - Por isso é que só a vontade política pode endurecer essa relação. O Brasil está com uma fratura exposta na economia. Se colocar uma atadura e não cuidar a fratura não se resolve, piora com o tempo. É o nosso caso. É claro que os EUA têm poder de pressão, mas eles dependem que a gente aceita. Sempre disseram nos últimos anos que o país perderia muito se deixasse de pagar a dívida externa. Na verdade nós estamos perdendo e muito pagando a dívida. Porque o Brasil mandou em 2001 US$ 50 bilhões para pagar suas contas e os juros da dívida e entrou muito menos em dólar aqui. É uma sangria enorme que se repete a cada ano. O dinheiro que o FMI anunciou nesta semana aqui é para salvar apenas o lucro dos bancos americanos. Os bancos americanos instalados no Brasil tiveram aumento na cotação da Bolsa de Valores anteontem por causa da ajuda do FMI ao Brasil. Eles não estão salvando o futuro do Brasil. Estão fazendo uma atadura para salvar seus lucros previstos e depois a conta fica com o Brasil. Esse é o caminho do buraco e a grande imprensa faz de conta que tudo está resolvido com o empréstimo e nossas contas.
JC - O senhor acha que a pesquisa popular é um bom termometro sobre a Alca? Welmocki - É claro. Nossa força vem de nosso povo. Imagine se o plebiscito sobre a Alca é encampado por todas as forças políticas brasileiras em pleno período eleitoral. Imagine se 50 milhões de brasileiros disserem não à esse modelo da Alca, que está sendo imposto pelos EUA sem discussão.
JC - O discurso dos quatro principais candidatos a presidente sobre a Alca é superficial até agora. Por que? Welmocki - Infelizmente já era de se esperar do Serra, que é candidato do governo, do Ciro que não representa a classe trabalhadora e até mesmo do Garotinho um discurso brando. Infelizmente esse discurso está sendo apropriado até pelo Lula que tem um passado ligado ao movimento sindical. Todos os candidatos estão dizendo a Alca sim, mas desde que nosso país seja protegido. Esse é o discurso superficial do FHC. Ele pega as medidas de proteção americana ao aço e as medidas anti dupimg artificiais dos EUA e criticam. isso é colocado como condição mas não é o ponto principal. É uma posição muito tímida que, no fundo, aceita a Alca. O discurso deveria ser afirmativo: não Alca. Esse acordo significa a colonização comercial da América Latina.