Ser

Garoto de Ouro

Fabiana Teófilo
| Tempo de leitura: 9 min

Tricampeão brasileiro, o bauruense Sílvio D’Ávilla firma-se como um dos melhores do País no taekwondo. No último dia de competições dos Jogos Sul-Americanos, o jovem bauruense, que disputou com adultos, brilhou. Ele conquistou mais um título, a medalha de ouro na categoria bantam.

Nascido na Vila Independência, esse garoto de apenas 16 anos diz estar muito feliz por já ter conquistado vários títulos. Além de tricampeão brasileiro, D’Ávilla é campeão Panamericano e pentacampeão paulista.

Desde os 6 anos, ele é treinado pelo mestre Mauro Hideki, também de Bauru. O atleta agora se prepara para o Mundial, que será realizado na Grécia.

Uma das dificuldades enfrentadas pelo campeão é a falta de patrocínio, D’Ávilla ainda não tem uma ajuda de custo para suas viagens, para os jogos. Seu pai, mecânico, e sua mãe, digitadora, é quem são seus incentivadores. D’Ávilla também tem um irmão mais novo, o João, de 12 anos.

Na última quarta-feira, o garoto recebeu uma ótima notícia, a nutricionista bauruense Karina Massad se dispôs a ajudá-lo e orientá-lo para que tenha uma alimentação saudável e consiga manter o peso necessário para as competições. Ela atende numa clínica particular e estará auxiliando D’Ávilla sem interesse financeiro, apenas porque se sensibilizou com as dificuldades enfrentadas pelo garoto e quis ajudar.

O atleta já havia sido classificado para o Mundial em 2000, na Irlanda, mas não pôde ir por falta de patrocínio. Dessa vez, o garoto espera embarcar para a Grécia, em setembro, e trazer mais vitórias para o Brasil.

D’Ávilla chegou a Bauru na semana passada e conversou com o JC. Leia em seguida a entrevista com o campeão Silvinho, como é conhecido entre os mais íntimos:

Jornal da Cidade - Como foi conquistar o ouro nos Jogos Sul-Americanos?

D’Ávilla - É muito difícil até chegar nos jogos. Há três seletivas, incluindo os melhores do país e eu tenho 16 anos, sou juvenil, mas lá disputei só com adultos, pessoas com mais tempo de taekwondo, preparação física, mais experiência. Eu ganhei as seletivas. Antes de ir para o Rio de Janeiro para participar dos Jogos Sul-Americanos, eu fui para o Campeonato Brasileiro, uma semana antes, onde disputei na categoria juvenil. Para esta competição, eu tinha que pesar 63 quilos. Meu peso normal é 66,5 quilos. Consegui. Para o Sul-Americano, eu tinha que pesar 62 quilos, porque é o peso estipulado para a categoria adulto. Foi muito difícil conseguir esse peso, não podia comer, ficava muito fraco. Mas, quando tive que pesar, já estava com 62 quilos. Na primeira luta, contra o Equador, eu saí tremendo, estava fraco.

JC - Essa fraqueza de ficar sem comer acaba atrapalhando o seu desenvolvimento nas lutas. Como você nefrentou isso? D’Ávilla - Eu iria lutar no domingo. Sábado, às 8h30 eu pesei. A partir daí podia comer tudo o que queria, mas mesmo assim, não dá para recuperar. A fraqueza atrapalha sim. Nesse campeonato, por exemplo, eu não rendi o que posso render. Eu não lutei tudo o que eu sei. Fiz só o básico.

JC - Mas com o básico e ainda sendo o mais jovem entre os competidores, você trouxe o ouro... D’Ávilla - Foi, mas realmente eu sei muito mais que isso, poderia render muito mais.

JC - Na última luta você derrotou o argentino Jesus Figueroa. Ele também é um atleta de nível e a Argentina obtinha uma hegemonia nesses jogos desde 1978. Você sentiu algum receio antes da luta? D’Ávilla - Não. Eu sou muito sossegado e concentrado. A Argentina é rival nossa. Tudo que fazemos, eles gritam, cantam... Mas da mesma forma que enfrentei Figueroa, teria enfrentado qualquer outro. Não encaro como uma guerra, eu não luto para machucar, nem com vontade de vingança. Tem gente que luta como se fosse uma obrigação, tem que fazer bonito, tem que machucar alguém, dar nocaute. Eu não vejo assim. Se ganhar, ótimo. Esse é o objetivo, mas se não ganhar, está tudo bem.

JC - É mais prazeroso ganhar, quando sabe-se que a luta não será tão fácil? D’Ávilla - Sem dúvida. Você lutar com um cara ruim, sem técnica, é pior que lutar com um cara bom. Eu prefiro lutar com um cara bom, que me dê trabalho do que com um cara ruim porque com esse, você acaba se machucando muito.

JC - Quais são as dificuldades de um atleta para seguir em frente? D’Ávilla - Patrocínio, a falta de incentivo. Não há pessoas que queiram investir, ajudar o atleta. Qualquer empresa que quiser patrocinar um atleta, pode descontar esse auxíli no imposto de renda. Muita gente nem sabe disso. Eu fico triste com isso. É muito difícil conseguir ajuda. Um atleta iraquiano, por exemplo, quando ganha o ouro, ganha uma casa ou um carro. Ele ganha e o técnico dele também. Isso incentiva o atleta a sempre lutar pelo ouro. Até agora também tinha uma dificuldade muito grande para perder peso. Mas estarei, a partir de agora, recebendo o apoio da nutricionista Karina Massad. Ela estará me orientando, sem cobrar seu trabalho. Fico feliz por saber que há pessoas que notam a importância em incentivar o esporte. A Karina é uma delas.

JC - E você, o que ganhou com esse ouro? D’Ávilla - Eu ganhei vocês estarem aqui, me ajudando, alguns telefonemas me parabenizando. E dessa vez, ganhei algumas coisas da Olimpikus, como abrigo, tênis, mala. É a primeira vez que ganho alguma coisa.

JC - Como seus amigos de Bauru reagem com sua vitória? D’Ávilla - Me deram parabéns. Na escola, a diretora colou a reportagem do JC no pátio para que todos pudessem ver. Recebi muitos telefonemas de outras cidades também. Isso é bom, é muito bacana. Eu não gosto de falar muito. Tem muitos amigos meus que nem sabem que eu luto.

JC - Com quantos anos você começou a se dedicar ao esporte? D’Ávilla - Com 6 anos, com o mestre Mauro Hideki.

JC - Você sempre lutou taekwondo ou começou fazendo algum outro tipo de esporte? D’Ávilla - Eu assistia os desenhos japoneses de luta e eu quis fazer alguma coisa desse tipo e queria uma medalha. Aí eu comecei fazendo Karatê, mas não deu certo. Eu tinha 5 anos, só corria durante as aulas. Depois fui fazer taekwondo, que meu pai já conhecia e foi assim que comecei. Até hoje, nunca fiquei um mês sem treinar.

JC - Foi difícil começar a participar de competições nacionais? D’Ávilla - A primeira vez que saí de Bauru, fui competir em Paraguaçu Paulista, nos Jogos do Interior. Depois estive em Garça, Marília até que meu mestre disse para eu tentar o Campeonato Paulista, em 1998 e ganhei. Era o infantil. Em 1999 fui para o Campeonato Paulista de novo e para os Jogos Panamericanos em Buenos Aires, na Argentina. Também ganhei.

JC - Você é tricampeão brasileiro, conquistou o ouro nos Jogos Sul-Americanos, deste ano... Que título mais você possui? D’Ávilla - Eu sou pentacampeão Paulista, ganhei o Panamericano juvenil que é um título muito importante e aí vem outros, que são campeonatos menores.

JC - Quantas medalhas e troféus você tem? D’Ávilla - Eu não tenho muita certeza, mas acho que são 46.

JC - Como é seu treinamento? D’Ávilla - Eu treino duas horas e meia, seis vezes por semana, tendo ou não campeonato.

JC - É preciso muita dedicação? D’Ávilla - Sim. O esporte está crescendo cada vez mais. Então há muito mais atletas competitivos. É preciso treinar muito para manter. Chegar lá em cima não é mais difícil do que manter o que já foi conquistado.

JC - E a escola? Dá para ser um bom aluno, com tanta dedicação ao esporte? D’Ávilla - Meu pai sempre cobra isso de mim. Eu continuo levando a sério, mas sempre tenho que perder muitos dias de aula. Já conversei na escola e eles me ajudam muito. Me apóiam e entendem que quando tenho que ir para algum campeonato, preciso faltar. Quando volto reponho, estudo e faço as provas. Inclusive a escola La Salle, onde estudo é quem me ajuda. Eles me dão R$ 150,00 por mês. Me incentivam sempre. E fazem isso só porque acreditam em mim, sem nada em troca. Sou um bom aluno. Nunca fiquei de recuperação.

JC - Seu sonho é representar o Brasil nos Jogos Olímpicos? D’Ávilla - O que eu mais quero agora, de coração, é o Mundial, na Grécia. Eu tenho esse sonho faz muito tempo. Tenho muita vontade de representar o Brasil nos Jogos Olímpicos, mas o que quero de verdade, é o Mundial. Depois de, se Deus quiser, eu me dar bem no Mundial, aí vou pensar nas Olimpíadas.

JC - E o que é preciso para se dar bem no Mundial? D’Ávilla - Treinar umas quinze vezes mais do que estou treinando. Muita gente quer e só sai um, então eu tenho que ter algo a mais que os outros. Eu não sou um favorito para esse campeontao, mas acredito demais em mim. Lá, quem são os favoritos, são os coreanos. Eu nunca entro numa competição para perder. Vou sempre com muita, mas com muita vontade de ganhar. Se perder, perdeu, mas eu vou para ganhar.

JC - Como é o seu relacionamento com a família? Eles te acompanham nos jogos? D’Ávilla - Eles me apóiam, me incentivam e, quando podem, vão junto comigo. Dá muita saudade deles e de Bauru. Gosto daqui e não penso em me mudar.

JC - Que conselho você daria para quem está iniciando no taekwondo? D’Ávilla - O primeiro passo é acreditar que a pessoa pode conseguir. O segundo passo, é treinar muito para sonseguir. Mas o que vem mesmo em primeiro lugar, antes do primeiro passo, é ter muito fé. Eu falo tanto com o Homem lá de cima que ele deve ter me dado a vitória só para eu parar e perturbar.

JC - Qual foi a maior lição que você aprendeu com o seu mestre Mauro Hideki? D’Ávilla - Ser sempre humilde, ter os pés no chão. Saber que você não é melhor do que ninguém. Meu pai fala que sempre tem um melhor e sempre tem mesmo, né. Nem sempre a gente ganha.

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