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Início foi em 1927, com discriminação

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

De acordo com Nivaldo Mercúrio, 75 anos, um dos moradores que permanecem no Instituto Lauro de Souza Lima, a história do abrigo começou em 1927. Naquela época, a hanseníase era uma peste contagiosa, da qual todos queriam distância. Incomodados com a presença dos doentes, membros da sociedade se juntaram para afastá-los da cidade.

Eles compraram parte de uma fazenda, longe da área urbana, e “despejaram” lá todos os que apareciam com a patologia. “A internação era compulsória, bastava alguém receber um resultado positivo para a hanseníase que a polícia vinha logo buscar”, conta Nivaldo Mercúrio. Ele viu isso acontecer com a mãe, em 1935, e com ele, em 1945.

Na casa onde a pessoa morava, funcionários do Departamento de Profilaxia - Lepra (DPL) jogavam gasolina e ateavam fogo, com tudo o que houvesse dentro. Eles diziam que era preciso acabar com peste. Sem escolha, os internos foram construindo uma cidade particular, com ruas, praça, teatro, coreto e igreja. Comunidades como esta foram criadas em várias regiões do País.

“Em 1934, o Governo do Estado decidiu intervir nestes abrigos. Investiu na estrutura e criou os asilos-colônia. Havia cinco destes em São Paulo: Itu, Guarulhos, Casa Branca, Mogi das Cruzes e Bauru. O de Bauru foi chamado Asilo-Colônia Aimorés”, conta o diretor técnico do instituto, Marcos Virmond.

Mesmo assim, a internação compulsória foi mantida. Quando chegou ao asilo, em 1945, Nivaldo encontrou cerca de 1,9 mil doentes morando ali. Algum tempo depois, o lugar passou a ser chamado de Sanatório Aimorés.

“Na década de 50, depois que apareceu o primeiro remédio contra a hanseníase, nós recebemos uma carteirinha que nos permitia ir até a cidade em dias e horários determinados. Mas o vínculo com a família já estava perdido e a discriminação era muito grande”, conta Mercúrio.

Instituto

Virmond conta que, no início da década de 70, o governo acabou com os asilos-colônia. Ele deu a liberdade aos internos e transformou Aimorés em um hospital, que recebeu o nome de Lauro de Souza Lima. A hanseníase já tinha cura e os pacientes podiam voltar a viver na cidade tão logo estivessem melhor.

No final da década de 80, o lugar ganhou o título de instituto, porque, além de hospital, tornou-se pólo de estudos e pesquisas sobre a doença. Hoje, a Organização Mundial de Saúde considera o Instituto Lauro de Souza Lima uma referência mundial no combate à hanseníase.

“Mas eu não fui embora, porque comecei a trabalhar aqui aos 17 anos, quando cheguei. Preferi ficar. Sabia que seria difícil encontrar serviço, porque se o patrão soubesse que a gente tinha hanseníase, mandava embora. Hoje, faz 58 anos que moro aqui. É um lugar bonito, temos tudo o que precisamos, conheço todo mundo e trabalho para o instituto. Quando quero, pego o ônibus e vou para Bauru. e de vez em quando posso viajar para ver meus irmãos”, completa Mercúrio.

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