Há meses acompanho, por intermédio da imprensa, as manifestações do sr. Hélio Bicudo, vice-prefeito da cidade de São Paulo, ora por entrevistas ora por artigos, nas quais condena a polícia de São Paulo no confronto com o PCC em Sorocaba, quando faleceram 12 marginais. Em suas palavras, que encontraram eco nos mesmos rábulas de ocasião, pude pinçar algumas pérolas que foram usadas para descrever, de forma açodada, a atuação da polícia. Os termos “emboscadaâ€, “chacinaâ€, “homicídio†e expressões como “fuzilá-losâ€, “nenhum policial ficou ferido ou foi mortoâ€, além de ofensas generalizadas a todas as instituições policiais do país, foram constantemente utilizados por ele.
Não, senhor vice-prefeito, não. A polícia não quer matar. A polícia não queria matar, mas teve e tem o dever jurídico de agir sempre que houver necessidade de reprimir o crime, assim como qualquer cidadão tem a permissão legal para agir em sua legítima defesa, matando, se for necessário, para não ser morto. Como sabemos, o trabalho policial é único e essencial na sociedade. E a sociedade espera que o policial seja um guardião da paz, da lei e da ordem, sendo sua missão proteger a vida, a propriedade e a liberdade, e, por isso, são lhe conferidos poderes, autoridade e prerrogativas que devem ser usados em favor da própria sociedade.
A polícia não foi criada para matar, e não se deve enaltecer quando isso acontece. No caso de Sorocaba, a Polícia Militar agiu e agiu bem. A polícia não planejou um confronto armado, mas, muito profissionalmente, preparou-se para a eventualidade de ele ocorrer. Não há qualquer interesse da polícia em matar, mas se um bandido abre fogo em direção a um policial, ele assume o risco desse policial, que está mais bem treinado e preparado para o confronto, sair-se melhor. E é assim que o desejamos, ou não?
Absolutamente ilógica a premissa e conclusão de que em um confronto entre bandidos e policiais deve haver proporcional número de baixas em ambos os lados. Absolutamente não!
Confrontos, senhor vice-prefeito, não se calculam matematicamente, e chega a ser risível senão preconceituosa questionar a não morte de policiais. Investe-se em treinamento e equipamentos exatamente para que, em um eventual confronto, as baixas, se necessárias, possam ser somente do lado dos bandidos. Precisamente, o que se busca é que o bandido tenha consciência de que confrontar a polícia não é uma saída razoável. Como seria bom se não houvesse bandidos, senhor vice-prefeito, mas não sendo essa situação possível, o que se busca na prática é, ao menos, que o bandido saiba que a repressão existe e funciona e que, no confronto com a polícia, ele, bandido, sempre vai “levar a piorâ€.
A nossa polícia ainda não é a ideal, mas afirmo que, apesar de todos os problemas que nós sofremos há anos, jamais a polícia esteve tão estimulada a trabalhar como agora, sob a corajosa batuta do novo secretário da segurança pública, dr. Saulo de Castro Abreu Filho.
Não deixe, sr. vice-prefeito, que do alto de seus 79 anos de idade, rancorosos sentimentos pretéritos, cunhados pelo período de exceção, induzam V. Sa. a apregoar que toda repressão é fascista, indo na contra-mão dos modernos anseios da sociedade. Não existe sociedade sem repressão, e é anseio de toda a sociedade que as ações marginais sejam neutralizadas. Não queremos policiais mortos e a polícia não é orientada a matar bandidos, mas mata e morre, para preservar a vida em sociedade, na qual V. Sa. e seus familiares também se incluem. Ora, sr. vice-prefeito, não seja bicudo com a polícia. Vamos trabalhar! O senhor na administração do município, que foi tão abandonado por incompetentes do passado, e nós, profissionais da polícia, naquilo que mais entendemos. Sermos policiais. (Mauro Marcelo de Lima e Silva é delegado de polícia, especialista em crimes pela Internet, formado pelo F.B.I., pelas Polícias de Miami, Nova York e Tóquio e graduado em Justiça Criminal pela Universidade de Virgínia-EUA)