Polícia

Para polícia, intolerância só cresce

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

Bauru tem uma frota de 135 mil veículos. Mas há dez anos este número era praticamente a metade: 67 mil. Com a mesma velocidade do aumento do número de carros veio a evolução do número de acidentes e de respostas intolerantes.

Segundo o capitão Nelson Garcia da 4.ª Cia. de Policiamento, isto é um reflexo da própria velocidade com que as coisas são exigidas às pessoas. “O mundo está mais ansioso. Você tem que entregar um trabalho até tal hora, mas no meio do caminho tem uma série de inconvenientes: a quantidade de veículos nas ruas, um acidente ou outro, a temperatura, problemas pessoais. Isso tudo incomoda e influencia no comportamento de quem está dirigindo”, avalia.

Para Garcia, o condutor precisa estar equilibrado para se manter atento e não se envolver em confusões. “Caso isso não aconteça, e se ele estiver armado, mesmo que com uma arma branca, pode acabar provocando uma tragédia como a da Tainá e a da Praça da Bíblia, no domingo, aqui em Bauru.”

Responsável pelo Trânsito, o tenente Jorge Luís Dias aponta que são poucos os casos locais. Mas as ocorrências, inclusive na região, crescem e começam a preocupar as autoridades.

“Ao se envolver num acidente, a medida é anotar a placa do veículo e ir à polícia. Jamais tentar resolver o problema por si mesmo, tirar satisfação para não levar desaforo para casa. A pessoa do outro lado pode estar armada e muitas vezes, a arma faz com que a postura seja descontrolada. Tem gente que acha que a arma pode resolver tudo”, comenta revelando que até um policial da capital quis resolver uma briga de trânsito e matou uma pessoa.

A regra é nunca andar armado. Por isso, aumentam as operações periódicas de desarmamento rodoviário, bem como para avaliar a condição emocional do condutor. Todas as armas encontradas são apreendidas. No caso de armas brancas, o tamanho máximo permitido é 10 centímetros, mas dependendo da postura do condutor até as menores são confiscadas. No caso de armas de fogo sem registro ou porte, o portador é enquadrado criminalmente.

Os policiais também alertam para a transferência de documentos dos veículos. No caso de domingo, em Bauru, a caminhonete envolvida está em nome de Hildo Monteiro, mas a polícia investiga se foi ele quem estava com o veículo na hora do crime.

“Muitas vezes o carro é vendido em rolos e não se preocupam com a documentação e isso pode acabar trazendo dor de cabeça”, comenta o soldado André Lacerda. “O empréstimo de veículos também é uma prática desaconselhável. Outras pessoas podem se envolver em acidentes ou incidentes com um carro que é seu e você terá que se explicar durante o processo.”

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FALA POVO

Estresse do dia a dia

Motoristas em Bauru afirmam que sofrem todos os dias com o trânsito cada vez mais nervoso. Para se ter uma idéia, enquanto a reportagem do JC abordava um condutor num semáforo no centro da cidade, o sinal nem se abriu e já havia motorista estressado buzinando e gritando. Pela gravação, pelo menos cinco veículos dispararam. Todos os motoristas tinham visão suficiente de que a equipe (repórter e fotógrafo) estava trabalhando. Confira as opiniões de quem dirige na cidade e tenta, a cada momento, fugir de confusões.

“Não compro briga no trânsito. Mas o povo anda cada dia mais nervoso e a gente tem que relevar. Basta ter alguém um pouco mais devagar para quem está atrás começar a xingar, dar jogo de luz, buzinar, e parece que está piorando, ficando generalizado.” (Edson, 36 anos, comerciante)

“Depende do estado de espírito. Para nós que carregamos carga, não é todo lugar que tem área reservada para carga e descarga, muito menos desocupada, é complicado... Mas tem gente que não respeita a gente de jeito nenhum. Xinga, manda ir não sei aonde. Motorista também não respeita motoqueiro. Tem muitos motoqueiros que realmente abusam, mas tem aqueles que trabalham e são discriminados. Graças a Deus nunca briguei no trânsito. Já fui fechado muitas vezes, mas procuro não criar confusão. (Daniel Escóscio de Souza, 29 anos, motorista)

“Procuro andar certo e fazer minha parte, mas muitas vezes já perdi a paciência com motorista que insiste em me fechar. Eu xingo e normalmente na mão em que estou tem uma parada logo à frente. Nessa hora chamo a atenção para que o cara faça a coisa certa. Não é por aí. Tento explicar, mas confesso que já fiquei nervoso. Alguns entendem e até pedem desculpas, outros têm a mesma reação e gera bate-boca. Eu passo o dia inteiro andando pela cidade e vejo que nas maiores avenidas todo dia tem briga. Você sai de manhã e logo cedo alguém te fecha, o humor fica abalado o dia inteiro.” (Waldir de Camargo, 34 anos, mototaxista)

“As pessoas estão muito nervosas no trânsito, como estão incoerentes. De repente, elas cortam, jogam o carro, fazem a gente brecar seco com passageiro dentro. Isso dá um estado de nervos. O passageiro reclama. A gente leva a culpa. Uma vez discuti com um cara e precisei ir embora. Quando ele desceu do carro, percebi que tinha dois metros de altura, acelerei e consegui escapar.” (Júlio César Pedro, 31 anos, motorista de táxi)

“Eu sou muito calmo e nunca briguei no trânsito. Mas as pessoas andam muito estressadas e mal-educadas. A falta de educação é o principal problema. Ela motiva a não respeitar as regras do trânsito.” (Willian Righetti, 27 anos, professor de educação física)

“Você tem que dirigir por você e pelos outros. Qualquer coisinha errada pode se transformar em confusão e sair até morte. Infelizmente, não tem explicação. É fútil brigar ao volante. Todo mundo é ser humano, pode brecar em hora errada, trocar uma marcha em falso, mas ninguém sabe perdoar.” (Rosimeire, empresária)

“Eu nunca comprei briga no trânsito. Muita gente já me fechou, xingou, mas a gente já está até acostumada e aprendeu a relevar. Não tem alternativa: se formos brigar, vamos brigar a todo momento. A mulher também tem sua parcela de culpa, é mais encrenqueira e não cede para outra.” (Téia, 23 anos, estudante)

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