Pesca & Lazer

Museu de pesca divulga pesquisas

Da Redação
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O esqueleto de uma baleia e animais empalhados – que os biólogos estranhamente qualificam como “taxidermizados” – podem parecer contrários à idéia de preservação da vida. Puro engano. Eles são peças do Museu de Pesca, que funciona como vitrine das pesquisas e tecnologias elaboradas pelo Instituto de Pesca nas áreas de pesca e aqüicultura. A intenção é abordar a ecologia marinha e orientar a comunidade nos moldes da educação ambiental, ressaltando as relações dos seres vivos entre si e com o meio ambiente, por meio de conceitos de interligação do nosso dia a dia.

Diante do esqueleto de uma baleia de 23 metros de comprimento e quase três metros de altura, impossível não lembrar de Gepeto, o pai do Pinóquio das histórias infantis, que passou não sei quanto tempo na barriga de uma delas... “A baleia do Museu de Pesca faz parte das fantasias infantis de todos os santistas”, comenta o prefeito de Santos, Beto Mansur.

A peça é o marco da Sala dos Grandes Mamíferos Marinhos, cuja temática aborda a situação atual de baleias, leões-marinhos, lobos-marinhos, lontras-marinhas, golfinhos e focas. Crânios e esqueletos de mamíferos marinhos mostram a semelhança com a estrutura óssea dos humanos, evidenciada na coluna vertebral e nas nadadeiras, que até parecem mãos. A área também apresenta o trabalho do Cema-Centro de Estudos sobre Encalhe de Mamíferos Marinhos.

Na verdade, o próprio museu começou quando foi incorporado ao gabinete de História Natural do instituto o esqueleto dessa baleia, encalhada morta em Peruíbe, em 1941. Em plena época da Segunda Guerra Mundial, o cetáceo assustou os moradores ao ser confundido com um submarino da Alemanha, país que costumava ‘visitar’ o litoral brasileiro com seus navios.

Depois de solucionado o mistério, foi um custo levar a ossada até a praia. A tarefa contou com a ajuda da maré e de cordas amarradas nos chifres de dois bois. Como o animal já começara a ser descarnado pelos peixes, sabe-se que o cheiro durou meses, o que causou protestos da população.

Consumidora primária, a baleia nutre-se de plâncton e não é predadora, ao contrário do tubarão. Este ocupa o ápice da pirâmide da cadeia alimentar porque come peixes e tartarugas, que se nutrem de outros peixes e crustáceos, que comem moluscos, que se alimentam de algas, que se nutrem de plâncton. Para subsistir, o plâncton realiza a fotossíntese, usando a energia do sol para a produção de alimento. Daí o cuidado do museu em conscientizar crianças e adultos sobre o perigo de jogar lixo na praia, em ruas e canais, já que os resíduos podem acabar no fundo do mar, sendo ingeridos pelos animais e prejudicando o equilíbrio da cadeia alimentar.

Essa dinâmica é representada pela Sala de Peixes Cartilaginosos, animais cujo esqueleto não é formado por ossos, e sim por um tecido elástico semelhante ao da orelha humana. A sala expõe raias ao lado de tubarões anequim, raposa, baía, tigre, touro, mangona, lixa e anão. De tão pequeno, este último mais parece uma sardinha.

Uma rêmola presa ao corpo de um tubarão ressalta as associações ecológicas, já que a rêmola é nutrida pelas sobras que caem da boca do temido peixe. Temor que se deve, em grande parte, ao filme Tubarão, que criou uma onda de terrorismo em torno do animal, embora apenas cinco, das 370 espécies existentes, sejam perigosas.

Mesmo assim, os entendidos no assunto sintetizam a diferença entre cação e tubarão: “quando você come o tubarão, ele é cação; quando o bicho te come ele é tubarão”, brinca Eduardo Sanches, diretor do museu. Ele lembra que existe toda uma indústria voltada para o animal, do qual se aproveitam a carne, o couro na confecção de calçados, carteiras e cintos, o óleo para fins farmacêuticos e alimentícios, e a cartilagem contra osteosporose.

O mesmo ocorria com a baleia e a tartaruga. Acontece que, de tão procuradas pela indústria, agora elas correm o risco de extinção. No Hall das Tartarugas, quatro delas ilustram, ao lado de painéis, o Projeto Tamar, programa nacional de preservação dessa espécie.

E é justamente para evitar o desaparecimento das espécies que o museu indica a aqüicultura – criação de animais e plantas aquáticas - como o caminho certo para o futuro da pesca. Expostas em painéis, criações de mexilhões e algas em Ubatuba, de rãs-touros e camarões-da-malásia em Pindamonhangaba, e de tilápias em Votuporanga, dão idéia do processo. Além de evitar o desequilíbrio causado pela pesca desordenada e predatória, a aqüicultura tem a vantagem de produzir um estoque pesqueiro muito utilizado ultimamente na nutrição humana e em atrações como o pesque e pague.

A pesca artesanal também é valorizada pelo instituto, já que não interfere na ecologia marinha. Armadilhas como o manzuá, o cerco flutuante e o cerco vivo, confeccionados com rede e bambu ou madeira, ao lado de uma canoa de tronco cavado são técnicas caiçaras registradas no museu. “No nosso litoral existem peixes ótimos mas pouco conhecidos, como a sororoca, o carapau, a espada e a sarda. Mas em vez de comprar peixe fresquinho do pescador, as pessoas preferem consumir peixe congelado, importado de outros países pelos grandes frigoríficos”, lamenta Raquel Gonçalves, estudante de Ciências Biológicas e monitora do museu. A estagiária ressalta que a pesca artesanal exemplifica a interação entre os seres da natureza, inclusive o homem. Ela colabora com o mercado interno, mantendo a comunidade e a cultura caiçaras, que se acham em extinção no Estado de São Paulo.

Paraíso da meninada

Areias e conchas representam o marketing das praias, pois estão no inconsciente coletivo do conceito sobre praias. Finas ou grossas, claras ou escuras, areias de todos os estados do Brasil e de vários países do mundo estão expostas em mais de 850 frascos, tendo como companhia conchas de diversos formatos e cores.

Consideradas jóias pela beleza e originalidade construtiva, estas são formadas por um molusco, animal de corpo mole que segrega material calcário para se proteger e que acaba por se constituir no seu esqueleto. Algumas, como as cypraea monetas, eram usadas como moedas em regiões da Ásia e da África, onde 500 conchas valiam uma cabra e 50 equivaliam a uma galinha.

Disputando com conchas e areia a atenção da garotada, a Ala Lúdica Petrobrás apresenta três espaços temáticos: a Sala do Mar, a Sala do Barco e a Cabina do Capitão. Na primeira são simulados os ecossitemas que englobam o mar - manguezal, praia arenosa, fundo arenoso e costão rochoso – e a interação entre eles.

Grande área entre-marés ocupada por vegetais especializados em viver em solo instável (lama), o manguezal é irmão da praia, fruto da mesma união entre terra e mar. Muitos seres que vivem no mar tiveram como berçário esse lodo. Outros o freqüentam em ciclos de vida diversos, como alguns crustáceos, que ali habitam quando jovens. Daí a necessidade de esclarecer a população sobre o valor dessa área, já que o forte odor que o mangue exala faz com que as pessoas pensem que se trata de zona poluída e o utilizem como depósito de lixo.

Os outros três ambientes podem ser observados através de vidros no solo e no porão desse laboratório de educação ambiental, habitado por animais e plantas de resina. É um engano imaginar que a praia arenosa abrigue pouca vida. Com mais ou menos areia à mostra, dependendo da maré, ela é freqüentada por banhistas dos quais tatuís, corruptos e moluscos se protegem, enterrando-se na areia.

Preenchido por areia fina, o fundo marinho compreende espaços de rocha e lama onde alguns seres nadam, outros se enterram ou apenas repousam. Reino de lulas, raias, tubarões, baleias e de grande parte dos animais marinhos, o fundo arenosos é um campo de maravilhas para o mergulhador curioso.

O costão rochoso hospeda uma profusão de vida. Algas, estrelas, anêmonas, moluscos e peixes acomodam-se em reentrâncias, tocas e cavernas. É ponto de resistência ao movimento das marés, que nesse espaço têm dois, e não apenas um pico por dia.

A Sala do Mar é seguida pela Sala do Barco. Ali a sensação na proa de um barco à vela é simulada ao se manusear um timão antigo, que move uma plataforma e altera o curso registrado na bússola.

Após uma sucessão de escaladas tão ao gosto das crianças, chega-se à Cabina do Capitão, onde se destacam cama, baú, estante de livros, bitácula e faróis de guia. Segundo Eduardo Sanches, a intenção não foi recriar uma cabina autêntica, mas despertar a atenção da meninada para os grandes navegadores do mar, como Vasco da Gama, Américo Vespúcio, Álvares Cabral e Amyr Klink, no contexto humano, e de baleias, tartarugas e aves como o albatroz, no âmbito animal.

Inaugurado em 1909, para instalação da Escola de Aprendizes de Marinheiro, o prédio do Museu de Pesca foi erguido em terreno que anteriormente fora área do Forte Augusto, que cruzava fogo com a Fortaleza da Barra. Em 1931, a antiga escola cedeu lugar à Escola de Pesca do Instituto de Pesca, cujo gabinete de História Natural acabou se transformando em Museu de Pesca, com a chegada do esqueleto da baleia. Fechado em 1987 por causa das más condições do edifício, foi reinaugurado em 29 de junho de 1998, Dia de São Pedro, padroeiro dos pescadores.

As obras de restauro valorizaram a arquitetura eclética. O edifício tem janelas de arco pleno no térreo e arco abatido no andar superior. O bloco central – destacado com sacada e portas duplas centrais, arrematadas por arco e cornija curva – apresenta frontão triangular ladeado por grifos (animais fantásticos). O caráter militar do prédio é marcado pelas ameias e platibandas.

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