Articulistas

Divisor das águas


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Sossegue o improvável leitor: não sou candidato a nada, jamais serei. Logo, suas chances de me encontrar na televisão fazendo promessas, arrotando soluções para isso e aquilo e pedindo votos inexistem. Feita a indispensável ressalva, aproveito para lançar a plataforma de uma candidatura que, reitero, jamais existirá. Mas quem sabe ela poderá servir como um divisor de águas da história do marketing eleitoral. Já que todos os candidatos falam as mesmas coisas, já que ninguém acredita no que eles dizem, por que não inovar? Vamos, portanto, a ela, à plataforma: “Meus amigos e minhas amigas, disponho de pouco tempo – o que me obriga a ir direto ao assunto. Preciso do seu voto. Sem ele, não serei eleito e, portanto, continuarei na mesma situação de penúria em que me encontro desde que nasci, há quase 46 anos. Ao longo da vida, trabalhei muito e não cheguei a lugar algum. Tudo o que ganhei foi suficiente para sustentar os filhos. E só. Chegou a hora de juntar um dinheirinho, comprar uma casa de campo, tomar um banho de mar. Se Deus for generoso, terei tempo e dinheiro para levar os futuros netos ao zoológico e a patroa à Disneylândia, em sinal de gratidão ao carinho que dispensou ao longo dos anos ao pateta acima-assinado.

Não vou mentir para vocês. Não sou a salvação da lavoura, se é que a lavoura tem salvação. Vou lutar pela educação, saúde, segurança, geração de empregos e distribuição de renda. Muito embora desconfie de que nada vai mudar...

Sou contra empregar parentes e incompetentes no gabinete. Mas não acredito que, no caso de vitória, possa resistir às pressões. Não é que todos os parentes sejam incompetentes. São apenas abusados. Por serem parentes, costumam dar palpites sem que sejam solicitados, acreditam que já fazem muito em ir ao banco para sacar o salário e se sentem uns eternos injustiçados. Quem não serve para nada acaba virando cabo eleitoral – e haja paciência para agüentá-los por quatro anos, com suas idéias quase sempre inúteis e dispendiosas.

Quero lhes dizer ainda que estou nesse partido por estar. Ninguém leva muito a sério o seu programa - uma mera formalidade exigida pela legislação eleitoral. Se eu me bandear para outra legenda, não os estarei traindo. Estarei apenas fazendo o que me é mais conveniente naquele momento. Como já disse, trocando em miúdos, todos os programas prometem aos eleitores o céu na terra. Mas só os parvos acreditam, ou fingem quê.

Por fim, não vou lhes negar o óbvio: eu tenho, como qualquer sujeito normal, meus vícios, manias e idiossincrasias. E estou velho para mudar. Se quiserem votar em mim, votem. Se não quiserem, não votem. O problema é de vocês. Mas nunca me acusem de lhes ter, em qualquer momento, tapeado. Paz, saúde e prosperidade a todos”. (O autor, Orlando Silveira é jornalista)

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