O dirigente de Ensino Jair Sanches Vieira não autorizou a realização do plebiscito sobre a adesão do Brasil à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) nas escolas estaduais de Bauru. A medida vai dificultar a participação dos jovens na votação de abrangência nacional, que será realizada até amanhã.
Para justificar sua atitude, Sanches Vieira alega que a Secretaria de Estado da Educação não encaminhou orientações sobre o assunto. Também diz não ter recebido com antecedência um comunicado dos organizadores locais do plebiscito referente à atividade nas escolas.
Contudo, sua resistência ao plebiscito não se restringe ao aspecto burocrático. “Não considero a votação legítima porque ela é direcionada. A campanha, por exemplo, é bandeira política do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Além disso, ninguém tem controle dos votantes, a mesma pessoa pode votar quantas vezes quiser. Portanto, a consulta não é válidaâ€, explica.
A decisão do dirigente tomou de surpresa os professores que, por meses, desenvolveram trabalhos sobre a Alca com seus alunos. É o caso da professora, diretora e conselheira do Sindicato dos Professores (Apeoesp), Luzia Conceição Quinezi.
Segundo ela, a própria Secretaria de Estado da Educação cobra a formação crítica dos alunos. “O curioso é que quando estamos para concluir um trabalho, todo o esforço é desmobilizado. Além disso, protocolamos informe sobre o plebiscito uma semana antes dele ser iniciadoâ€, explica.
Para ela e para o colega Duílio Duka de Souza, também conselheiro da Apeoesp, a decisão é autoritária, uma vez que a campanha da Alca envolve vários partidos, sindicatos, entidades, além da Igreja Católica. “O Jair tem o direito de pensar como pensa, mas não tem o direito de fazer com que os outros pensem como ele. Não temos culpa se um partido tomou o plebiscito como bandeiraâ€, defende Duka.
Na opinião dele, Sanches Vieira atrapalhou o processo porque é orgânico do PSDB. Compartilham do mesmo pensamento professores da escola Stela Machado que, com medo de represálias, pediram para não ter o nome divulgado. Nesta escola, as urnas e cédulas foram impedidas de entrar. “A consulta popular é apartidáriaâ€, ressalta um deles.
Como o dirigente não se manifestou oficialmente até ontem, em várias escolas a votação está sendo realizada normalmente. Entretanto, naquelas em que o plebiscito for proibido, a votação será realizada em frente à instituição.
A medida paliativa encontrada pelos organizadores da votação pela Alca agradou alguns alunos do Stela Machado, que se preparam para votar.
“Nós fizemos vários trabalhos sobre o assunto. Só de geografia, dois. Assistimos palestras etc. Agora eu quero votar, mesmo que seja fora da escola. Até a minha mãe quer participar do plebiscitoâ€, conta Cibele Moreira Pessoa, 16 anos, aluna do primeiro colegial.
Patrícia Rosa Araújo, 18 anos, do segundo colegial, também disse fazer qualquer esforço para votar. “Todo mundo fala que a gente tem que fazer alguma coisa pelo Brasil, quando esta oportunidade chega, nos é arrancadaâ€, critica.