Pesca & Lazer

História de Pescador: Devolve-se carretilha prateada


| Tempo de leitura: 2 min

“Eu sempre gostei de pescar à noite. Colocava o gasômetro acesso, voltado para trás, em direção ao mato... espantava qualquer tipo de bicho que se aproximasse. Assim peguei belos bagres nos rios da região.

Gosto muito de bagre ensopado, feito pela minha cozinheira Regina, que chamo somente de Rê. O molho que ela prepara e serve com polenta é uma delícia.

Numa noite escura, estava eu pescando próximo à ponte de Clavinote, quando estacionou próximo dali um carro. Desceu um senhor, que aproximou-se dizendo:

- Boa noite...

- Boa noite, respondi.

- Desculpe-me amolá-lo, é que eu nunca pesquei antes, mas ganhei de um irmão que viajou para os Estados Unidos esta bela carretilha prateada e, para experimentá-la, resolvi chegar até a beira do rio. Dizem que pescar acalma a gente.

- Estou mesmo precisando, meus negócios dão muita dor de cabeça... a pescaria faz esquecê-los, acrescentou.

- De fato. Faz muitos anos que venho pescar e gosto porque distrai, respondi.

- Sabe, eu nunca pesquei antes e não gostaria de pescar sozinho. Posso ficar aqui, com o senhor?

- Pode, respondi.

Antes de jogar o anzol nágua o visitante perguntou-me:

- Dizem que neste local sempre vem um pescador que morreu há muito tempo. Ele vem sempre pescar aqui. É verdade?

- É... dizem isso mesmo!

- O senhor pesca há muito tempo por aqui? Nunca o viu?

- Já faz um bom tempo que pesco à noite aqui, respondi.

- Mas o senhou não tem medo de ficar aqui sozinho?

- Olha, antes de morrer eu tinha medo!

O novo pescador, sem que eu esperasse, saiu em debelada carreira e ligou o carro, saindo rapidamente do local, com os pneus do veículo rangendo de agonia. Foi então que eu percebi que a minha brincadeira havia sido levada a sério, e o pior, o pescador esquecera a sua carretilha prateada que ganharada de presente de seu irmão.

É para reparar esse erro que escrevo. Embora estivesse escuro, lembro muito vagamente da fisionomia do dono da carretilha prateada. Se alguém tiver conhecimento desse pescador ou ele quiser ligar para mim, meu telefone é 223-5129. Eu a devolverei. Ou venha até a minha casa, assim ele aproveita para comer um bagre ensopado e polenta, “um prato do outro mundo”, feito pela Rê.” (Altair Costa Azevedo é pescador, artista plástico e contador de histórias)

Comentários

Comentários