Polícia

DDM registra abuso contra crianças

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) registrou ontem o quarto caso de abuso sexual contra criança, nesta semana. Este tipo de crime é um dos mais difíceis de serem esclarecidos, especialmente porque a vítima não se expressa bem, pela pouca idade. A mãe, principal testemunha, nem sempre coopera com a polícia.

Os quatro casos registrados envolveram meninas de 2 a 12 anos e pessoas estranhas à família. “As mães saem para trabalhar e deixam as crianças com vizinhos ou conhecidos. Confiam demais em estranhos facilitando a ação do abusador”, alerta a delegada titular da DDM, Rejane Borro Tiritan.

O caso mais recente, registrado no fim da tarde de quarta-feira, uma menor de 12 anos que mora com uma tia teria sido abusada por um estranho que foi acolhido na casa temporariamente.

Segundo a delegada, os abusos sexuais são crimes difíceis de serem esclarecidos. A falta de provas é um dos maiores obstáculos encontrados pela investigação, especialmente porque a criança em geral não tem noção do que está acontecendo. “Em um dos casos, a menina tinha 2 anos e mal sabe se expressar.”

Algumas crianças, segundo a delegada, são levadas a pensar que trata-se de uma brincadeira. “A criança não vê maldade naquele ato”, explica.

O abuso sexual nem sempre deixa marcas e a coleta de provas é muito mais através de testemunhas, sendo a principal delas a mãe. “Percebemos que algumas mulheres fingem não ver o que está acontecendo dentro de sua casa, para não ter que tomar uma atitude com o marido ou companheiro.”

Jogo de Sedução

O jogo de sedução é um artíficio bastante usado pelo abusador, frisa a delegada. De acordo com ela, antes do abuso sexual o autor argumenta com a vítima. “Eles alegam que é uma brincaderinha e que se ela concordar poderá ganhar presentinhos. A criança não sabe ao certo o que está acontecendo com ela e pode até aceitar.”

O artifício do segredinho, bastante usual, leva a criança a não contar para um adulto o que está acontecendo com ela. “A criança vive no mundo de fantasias, ilusões. Se confia naquele adulto, pode até concordar com a “brincadeira” e encarar como um segredo entre eles. Acaba não contando para os pais.”

Muitas crianças passam anos sendo abusadas pelos pais ou companheiros da mãe. “Há casos que são revelados após muitos anos. Na época em que o crime é cometido, às vezes a vítima não tem consciência. Com o passar do tempo, ela se sente desencorajada a contar. Se sente culpada. Se o abusador for o pai ou padrasto, a menina fica com medo de perder o amor da mãe.”

Conhecendo as dificuldades que a polícia tem para esclarecer este tipo de crime, os abusadores procuram vítimas crianças. O que eles não sabem é que a DDM instaura o inquérito. “Entendo que na pior das hipóteses o abusador vai perceber que a polícia acreditou naquela vítima, mesmo sem provas. Ele vai ficar atento.”

A delegada lembra que os abusadores de crianças, na maioria dos casos, voltam a cometer o mesmo crime. “Temos casos de homens que conseguiram se livrar de uma acusação, mas depois de cinco anos cometeu o mesmo crime e foi pego.”

O estupro e o atentado violento ao pudor são crimes hediondos, ou seja, pela legislação brasileira são considerados graves. Os autores desses crimes não têm benefícios durante o cumprimento da pena e podem ficar presos de seis a dez anos. â€œÉ a pena básica. Se tiver agravantes, ela aumenta.”

Abuso masculino

De acordo com uma pesquisa da DDM realizada no ano de 2001, só 4% dos abusos sexuais registrados pela polícia tiveram meninos como vítimas. Nos 94% restante, as meninas figuram como vítimas.

Segundo a delegada, o abuso sexual masculino envolve um estigma, o que desistimula a vítima a contar. “Os abusos contra adolescentes do sexo masculino são raros. Mesmo que eles sofram algum abuso, não revelam porque temem ser tachados de homossexual.”

Estatística

Aproximadamente 4% das ocorrências registradas na Delegacia de Defesa da Mulher são abusos sexuais. A delegada esclarece que nesse total estão os crimes de autoria conhecida e desconhecida. “Apenas 23% são de autoria desconhecida, 45% são de autores conhecidos, entre eles, amigo, vizinho e 8% algum familiar.”

Os pais e padrastos concentram 23%, sendo que o índice de crimes cometidos pelos pais totalizam 11% e os padrastos, 13%. “A maioria dos casos ocorre no interior da residência entre as 13 e 19h, horário em que as mulheres estão trabalhando e as crianças estão acordadas e sob cuidados dos homens.”

Rejane Tiritan orienta as mães para supervisionar as crianças. “Na maioria dos casos, a mãe não está presente. Mesmo assim, ela deve procurar manter um diálogo aberto com a criança para que ela relate tudo o que aconteceu durante sua ausência. A criança precisa ser orientada sobre e onde pode ser tocada.”

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Final de tarde

No final da tarde de quarta-feira, uma menina de 12 anos, acompanhada de seus responsáveis, procurou a polícia para registrar o abuso sexual sofrido por ela. Um homem de 31 anos, de nome não revelado pela polícia, teria esfregado seu órgão sexual nas pernas dela.

O crime teria ocorrido no interior da casa da tia da menor. Ela trocava de roupas quando o conhecido da família entrou no quarto e a despiu, praticando o abuso sexual.

Uma testemunha que chegou na casa teria interrompido o abuso e testemunhado. Na delegacia, o acusado disse que só abraçou e beijou a menina.

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