A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) registrou ontem o quarto caso de abuso sexual contra criança, nesta semana. Este tipo de crime é um dos mais difíceis de serem esclarecidos, especialmente porque a vítima não se expressa bem, pela pouca idade. A mãe, principal testemunha, nem sempre coopera com a polícia.
Os quatro casos registrados envolveram meninas de 2 a 12 anos e pessoas estranhas à família. “As mães saem para trabalhar e deixam as crianças com vizinhos ou conhecidos. Confiam demais em estranhos facilitando a ação do abusadorâ€, alerta a delegada titular da DDM, Rejane Borro Tiritan.
O caso mais recente, registrado no fim da tarde de quarta-feira, uma menor de 12 anos que mora com uma tia teria sido abusada por um estranho que foi acolhido na casa temporariamente.
Segundo a delegada, os abusos sexuais são crimes difíceis de serem esclarecidos. A falta de provas é um dos maiores obstáculos encontrados pela investigação, especialmente porque a criança em geral não tem noção do que está acontecendo. “Em um dos casos, a menina tinha 2 anos e mal sabe se expressar.â€
Algumas crianças, segundo a delegada, são levadas a pensar que trata-se de uma brincadeira. “A criança não vê maldade naquele atoâ€, explica.
O abuso sexual nem sempre deixa marcas e a coleta de provas é muito mais através de testemunhas, sendo a principal delas a mãe. “Percebemos que algumas mulheres fingem não ver o que está acontecendo dentro de sua casa, para não ter que tomar uma atitude com o marido ou companheiro.â€
Jogo de Sedução
O jogo de sedução é um artíficio bastante usado pelo abusador, frisa a delegada. De acordo com ela, antes do abuso sexual o autor argumenta com a vítima. “Eles alegam que é uma brincaderinha e que se ela concordar poderá ganhar presentinhos. A criança não sabe ao certo o que está acontecendo com ela e pode até aceitar.â€
O artifício do segredinho, bastante usual, leva a criança a não contar para um adulto o que está acontecendo com ela. “A criança vive no mundo de fantasias, ilusões. Se confia naquele adulto, pode até concordar com a “brincadeira†e encarar como um segredo entre eles. Acaba não contando para os pais.â€
Muitas crianças passam anos sendo abusadas pelos pais ou companheiros da mãe. “Há casos que são revelados após muitos anos. Na época em que o crime é cometido, às vezes a vítima não tem consciência. Com o passar do tempo, ela se sente desencorajada a contar. Se sente culpada. Se o abusador for o pai ou padrasto, a menina fica com medo de perder o amor da mãe.â€
Conhecendo as dificuldades que a polícia tem para esclarecer este tipo de crime, os abusadores procuram vítimas crianças. O que eles não sabem é que a DDM instaura o inquérito. “Entendo que na pior das hipóteses o abusador vai perceber que a polícia acreditou naquela vítima, mesmo sem provas. Ele vai ficar atento.â€
A delegada lembra que os abusadores de crianças, na maioria dos casos, voltam a cometer o mesmo crime. “Temos casos de homens que conseguiram se livrar de uma acusação, mas depois de cinco anos cometeu o mesmo crime e foi pego.â€
O estupro e o atentado violento ao pudor são crimes hediondos, ou seja, pela legislação brasileira são considerados graves. Os autores desses crimes não têm benefícios durante o cumprimento da pena e podem ficar presos de seis a dez anos. â€œÉ a pena básica. Se tiver agravantes, ela aumenta.â€
Abuso masculino
De acordo com uma pesquisa da DDM realizada no ano de 2001, só 4% dos abusos sexuais registrados pela polícia tiveram meninos como vítimas. Nos 94% restante, as meninas figuram como vítimas.
Segundo a delegada, o abuso sexual masculino envolve um estigma, o que desistimula a vítima a contar. “Os abusos contra adolescentes do sexo masculino são raros. Mesmo que eles sofram algum abuso, não revelam porque temem ser tachados de homossexual.â€
Estatística
Aproximadamente 4% das ocorrências registradas na Delegacia de Defesa da Mulher são abusos sexuais. A delegada esclarece que nesse total estão os crimes de autoria conhecida e desconhecida. “Apenas 23% são de autoria desconhecida, 45% são de autores conhecidos, entre eles, amigo, vizinho e 8% algum familiar.â€
Os pais e padrastos concentram 23%, sendo que o índice de crimes cometidos pelos pais totalizam 11% e os padrastos, 13%. “A maioria dos casos ocorre no interior da residência entre as 13 e 19h, horário em que as mulheres estão trabalhando e as crianças estão acordadas e sob cuidados dos homens.â€
Rejane Tiritan orienta as mães para supervisionar as crianças. “Na maioria dos casos, a mãe não está presente. Mesmo assim, ela deve procurar manter um diálogo aberto com a criança para que ela relate tudo o que aconteceu durante sua ausência. A criança precisa ser orientada sobre e onde pode ser tocada.â€
____________________
Final de tarde
No final da tarde de quarta-feira, uma menina de 12 anos, acompanhada de seus responsáveis, procurou a polícia para registrar o abuso sexual sofrido por ela. Um homem de 31 anos, de nome não revelado pela polícia, teria esfregado seu órgão sexual nas pernas dela.
O crime teria ocorrido no interior da casa da tia da menor. Ela trocava de roupas quando o conhecido da família entrou no quarto e a despiu, praticando o abuso sexual.
Uma testemunha que chegou na casa teria interrompido o abuso e testemunhado. Na delegacia, o acusado disse que só abraçou e beijou a menina.