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Sentimento ativado pelo toque do 193

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Não é só o fogo, a água das enchentes ou os fortes ventos que fazem com que os bombeiros lutem. A cada ocorrência além do tempo, os sentimentos de cada um estão envolvidos no processo de salvamento, que muitas vezes chega a frustrar o profissional, quando não consegue obter êxito em determinada ocorrência

O capitão do Corpo de Bombeiros Jovelino Barbosa Lima Filho que tem 23 anos de corporação e 19 nos bombeiros e o cabo Ernesto Villares com 12 anos de corporação e cinco nos bombeiros contam como é enfrentar o inesperado a cada toque do 193 e afirmam que o trabalho dos bombeiros só é reconhecido, por se tratarem de “seres humanos que formam realmente um corpo.”

Jornal da Cidade - O trabalho de vocês tem uma linha muito tênue. Vocês nunca sabem para onde vão e o que irão encontrar... Capitão Jovelino Barbosa Lima Filho – O que a gente sempre fala é estou indo para o plantão. Voltar, não sei se volto. Já fiquei um dia e meio em uma ocorrência de incêndio, pois não deu para resolver em quatro ou cinco horas. Às vezes, existem alguns riscos que a gente corre e isso começa a preocupar. Às vezes o volume de ocorrências não é muito grande, ainda bem que desgraças não acontecem todos os dias, mas quando ocorrem nos colocam em risco maior ainda. Já tivemos situações de combater um incêndio e estar jogando o fogo e a água em direção a uma caldeira prestes a explodir. Se explode, mata pelo menos umas seis pessoas. Há três anos tivemos uma ocorrência aparentemente simples de socorro, mas apareceu um ônibus e colheu todo mundo. A gente tem que se preparar para isso.

JC – E como é essa preparação? Qual a reação que vocês têm ao toque do 193? O telefone tocou já ocorre uma descarga de adrenalina ou vocês já estão acostumados? Capitão Barbosa – O brasileiro, por uma questão de educação, usa mal o serviço. A gente cita o caso da saúde quando, no ano passado, mais de 100 mil pessoas procuraram o pronto-socorro. É quase a metade da população da cidade. Será que metade da população esteve doente? Ou passou várias vezes e engrossou as estatísticas. Com o 193 acontece a mesma coisa, mas todo um procedimento é feito pelo telefonista para detectar trote. Ele pergunta pontos de referência e detalhes, mas até pelo próprio timbre de voz podemos ter indícios da veracidade da informação. O telefonista anota o endereço e o telefone e investiga a natureza da ocorrência. Neste espaço, ele já aciona a viatura e checa as informações. Geralmente, quando é verdade outras ligações ocorrem. Mas muitas vezes, a população reclama que o bombeiro demorou a chegar, mas em alguns casos o que acontece é que as pessoas demoram a nos comunicar. A chamada tem que ser imediata. Não adianta tentar resolver, seja numa casa de madeira que tem o material altamente combustível ou numa empresa com brigada de incêndio. Como você falou, é uma linha tênue. A gente chega para ajudar de maneira boa ou não, pois às vezes o tempo nos vence e a gente se sente impotente por ter pouco a fazer. O que mais frustra a gente também é tentar socorrer alguém, levar até 40 minutos para tirar uma pessoa de um carro, mas chegar no hospital e deixá-la no chão por falta de vaga. Não é qualquer hospital que pode atender o politraumatizado e a região é carente. A nossa guarnição chega a entrar em conflito com a área médica por isso. A gente passou horas na ribanceira sob chuva, arriscou viatura, pessoal, fez de tudo para tirar a vítima com chances de sobrevida e o sistema médico não absorve. Isso é uma das maiores frustrações.

JC – Existe um acompanhamento para essas frustrações? Num dia vocês fazem um parto no outro têm um incêndio com centenas de pessoas presas num galpão... Capitão Barbosa – Tem dia que não acontece nada e tem ocorrência de fogo em mato.

JC – Como vocês lidam com isso? A velocidade e o barulho da unidade de resgate já deixam qualquer um em estado de alerta, como vocês se portam? O trajeto é o tempo de raciocinar quais medidas serão tomadas? Cabo Ernesto Villares – Quando você sai do quartel você tem a sua imagem de ocorrência por aquilo que a pessoa passou pelo 193. Um exemplo pode ser uma colisão entre dois veículos no trevo da Vila São Paulo, tem bastante gente ferida. Só que ele não falou se era um ônibus, dois carros de passeio. Ainda acontece de sermos informados que são dois ônibus, mas não citam que estão apenas os motoristas. Nós saímos do quartel formando o quadro da ocorrência, para chegando lá confirmarmos o tipo de apoio que vamos precisar, quais os outros recursos para socorrer bem, mas muitas vezes não é nada. Quando nós estamos nos deslocando o motorista está atento no trânsito, mas ele também está em entrosamento com o comandante da guarnição e com quem está no apoio. Se for no resgate, tem mais uma pessoa, se for um incêndio ou salvamento, mais de uma. Tudo isso está na nossa cabeça. Mas quem está no comando precisa estar focado na ocorrência, analisando os materiais e a situação, convocando os rodoviários ou o pessoal do trânsito para o apoio. Tudo isso passa pela cabeça e faz com que a gente adquira bagagem para as próximas ocorrência. É lei para a gente, que não existe ocorrência igual, existem ocorrências semelhantes, igual nunca. Mas no caminho cada caso serve para projetarmos as soluções e o trabalho que possivelmente será feito. Como já foi dito, quem passa informação tem que passar o maior número de detalhes possível, pois a viatura de resgate é rápida, vence o trânsito fácil por ser de pequeno porte, mas se ao chegar no local constato que não será suficiente só aí vamos poder deslocar um caminhão ou o apoio necessário.

JC – Esse é o tipo de ocorrência mais estressante? Capitão Barbosa – Uma ocorrência bastante estressante para o nosso pessoal é o resgate de corpo de afogamento. É uma ocorrência difícil, cujos entes queridos querem ver e velar o corpo. E já aconteceu uma série de casos em que a família passou a noite no rio ou onde aconteceu o fato. O bombeiro por uma questão de segurança até do próprio mergulhador, evita mergulhos para pesquisa de cadáver noturna. Isso nos dá um grau de estresse muito grande, porque a gente vive toda aquela angústia. Enquanto não se acha o corpo, fica esse ponto de interrogação. Uma coisa que nos frustrou muito no ano passado foi até hoje não termos encontrado o corpo de uma senhora que rodou na enchente. Nós vasculhamos toda a área que o corpo poderia ter enroscado e até hoje não conseguimos achar. Fizemos todos os procedimentos possíveis e imagináveis, fomos além das possibilidades, indo até o Tietê para tentar localizar, mas infelizmente não tivemos êxito.

JC – Nesse sentido, é mais fácil vencer o fogo do que a água? Capitão Barbosa – A peculiaridade é diferente, mas tem muitos companheiros que acham a água pior. Pois nas enchentes, as corredeiras que se formam são uma coisa rápida, passageira e violenta. Não existe ocorrência mais fácil que a outra, existem algumas condições mais favoráveis do que outras. Algumas demandam esforço físico muito grande, como incêndio em floresta ou em mato que exigem muito vigor físico. Já outros casos são mais fáceis fisicamente, mas emocionalmente são muito mais desgastantes como a retirada de vítimas presas em ferragens. Às vezes você não tem a ferramenta adequada, precisa ficar esperando o apoio chegar e todo aquele quadro da vítima, o desespero das testemunhas que querem socorrer rápido. Só com o resgate agora é que as pessoas estão mudando a cultura de que socorrer bem não é socorrer rápido. Não é sempre que isso ocorrer, mas às vezes é preciso esperar mais um pouco.

Cabo Villares – Parafraseando, no meio do resgate a gente sempre se lembra de que socorrer é diferente de só-correr.

JC – E para dominar este estresse? Capitão Barbosa – A gente resolve isso de maneira empírica. Mas eu acredito que a maior fonte de liberar esse estresse é o próprio condicionamento físico apurado, que o trabalho exige até para suportar essa carga emocional. Um segundo fator que eu creio que é um bom antídoto para o estresse muito forte é o treinamento do pessoal, que nos prepara para ter segurança intrínseca e combater o estresse forte. Isso nos garante a segurança e a confiança no companheiro e dele em mim. Essa sinergia entre as guarnições dá segurança à população e à vítima. Isso nos deu a credibilidade ao longo desses 100 anos e suplanta até nossa falta de equipamentos.

JC – Falando em falta de equipamentos, existe um conjunto mínimo de características pessoais para ser admitido numa corporação? Cabo Villares – Tem sim. Você pode ingressar no Corpo de Bombeiros diretamente onde você vai ter todo um processo seletivo e no decorrer do curso de formação da escola de bombeiros você vai estar verificando se esse profissional se adequou ou não. Você pode vir oriundo de outras partes da Infantaria, da Polícia Militar, mas para isso vai passar por uma bateria de testes como altura, natação e condicionamento físico. Às vezes, a gente vê companheiros que não têm o sangue de bombeiro nas veias. Aí orientamos a pessoa e até ela acaba buscando um outro destino. Na prática, quando você está em cima de uma vítima procurando tirá-la de um encarceramento, ou está fazendo a busca no meio fogo ou da água, se você tem um bombeiro por perto, tem um amigo para qualquer situação. Os dois podem morrer juntos, mas um não vai abandonar o outro.

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