Política

Agostinho: ‘Futuro da Terra é trágico’

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 4 min

O conselhereiro do Instituto Ambiental Vidágua, Rodrigo Agostinho, prevê um futuro sombrio para o planeta após o fracasso da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável - a Rio+10. Ele participou do evento como observador do governo brasileiro.

O encontro mundial, encerrado há dez dias em Johanesburgo (África do Sul), não conseguiu firmar acordos para diminuir a emissão de gases tóxicos e muito menos colocar no papel a garantia de financiamento para diminuir a pobreza no planeta.

“As expectativas da comunidade científica de todo o mundo são trágicas”, alerta Agostinho. A constatação está no relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, documento avalizado por 2,5 mil cientistas de todo o mundo.

“O mundo vai sofrer nos próximos 50 anos profundas mudanças climáticas em decorrência do padrão atual de consumo e produção”, alerta.

O ambientalista conta que a atmosfera vai continuar acumulando cerca de sete bilhões de toneladas de gases por ano, principal causa do efeito estufa. “Os índices são muito trágicos”, reforça.

Ele conta que um outro relatório, assinado pelo World Wildlife Fund (WWF), aponta que nos próximos dez anos um quarto das espécies vivas da Terra correm o risco de desaparecer.

“Estamos assistindo a uma extinção em massa de espécies; acompanhamos o empobrecimento do mundo porque a concentração de riquezas está cada vez mais intensa. O quadro não é nada promissor. É muito desfavorável”, diz.

Expectativa

Agostinho relata que a sociedade civil alimentou expectativas positivas em relação à cúpula. “Esperávamos que ao final do encontro os chefes de Estado chegassem a um acordo.”

O conselhereiro do Vidágua destaca a participação maciça de representantes de Organizações-Não Governamentais (ONGs) no encontro. “Isso garantiu que os princípios acordados em 1992 fossem mantidos. Havia proposta dos Estados Unidos e de outros países para rever esses acordos firmados na Rio-92”, diz.

Ele enumera que esses países tentaram rever os princípios da prevenção e precaução e o da responsabilidade comum, mas diferenciada.

“O princípio da responsabilidade comum impõe que todos os países têm responsabilidade com o planeta. Mas ela é diferenciada no sentido de que aqueles que emitem mais poluentes têm de reduzir mais as suas emissões”, explica.

Esse acordo também garante que as nações mais ricas são obrigadas a contribuir mais para a recuperação de áreas degradadas e diminuição da pobreza.

“Esses princípios foram colocados em jogo. Mas conseguimos, ao final das negociações, garantir a manutenção deles. O que não é um avanço e mostra que o mundo caminha a passos muito lentos”, avalia.

Investimentos

Os números repassados aos chefes de Estado pela Organização das Nações Unidas (ONU), organizadora da cúpula, mostram o interesse belicista da comunidade mundial.

“As nações mais ricas gastam, hoje, cerca de US$ 780 bilhões por ano com armamentos. Um orçamento em torno de US$ 20 bilhões resolveria, em parte, o problema com a epidemia da aids”, calcula Agostinho.

O ambientalista garante, ainda, que algo em torno de US$ 30 bilhões poderia resolver a questão das mudanças climáticas. “Só o orçamento do Estados Unidos para uma possível guerra contra o Iraque está estimado em US$ 40 bilhões.”

Opep derrota proposta do Brasil para energia limpa

O Brasil encabeçou uma proposta de geração de energia limpa e renovável durante a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável - a Rio+10 -, mas foi derrotado pelo forte lobby da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).

O conselheiro do Instituto Vidágua, Rodrigo Agostinho, diz que o Brasil propôs aumentar em 10% a geração de energia limpa em todo o mundo. “A maior parte dos países achou muito”, comenta.

Ele explica que para que esse percentual fosse cumprido os países teriam que investir em desenvolvimento de tecnologia.

“E isso poderia provocar o barateamento da produção de energia, mudando a matriz hoje utilizada, que é a base de carvão, petróleo e gás, em matriz renovável a base de energia solar, hidrogênio, eólica e das marés.”

O ambientalista relata que os Estados Unidos, mais alguns países europeus e membros da Opep, derrubaram a proposta brasileira.

“Mas foi interessante porque o Brasil ocupou uma posição de destaque na conferência. A vice-presidente da cúpula foi a embaixadora brasileira Maria Luiza Viotti”, destaca.

Agostinho avalia que o País, antes da realização da conferência mundial, fez sua lição de casa. “O Brasil ratificou o protocolo de Kioto e criou uma parque do tamanho da Bélgica, que fica na Serra de Tucumaque, no Amapá.”

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