O conselhereiro do Instituto Ambiental Vidágua, Rodrigo Agostinho, prevê um futuro sombrio para o planeta após o fracasso da Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável - a Rio+10. Ele participou do evento como observador do governo brasileiro.
O encontro mundial, encerrado há dez dias em Johanesburgo (África do Sul), não conseguiu firmar acordos para diminuir a emissão de gases tóxicos e muito menos colocar no papel a garantia de financiamento para diminuir a pobreza no planeta.
“As expectativas da comunidade científica de todo o mundo são trágicasâ€, alerta Agostinho. A constatação está no relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, documento avalizado por 2,5 mil cientistas de todo o mundo.
“O mundo vai sofrer nos próximos 50 anos profundas mudanças climáticas em decorrência do padrão atual de consumo e produçãoâ€, alerta.
O ambientalista conta que a atmosfera vai continuar acumulando cerca de sete bilhões de toneladas de gases por ano, principal causa do efeito estufa. “Os índices são muito trágicosâ€, reforça.
Ele conta que um outro relatório, assinado pelo World Wildlife Fund (WWF), aponta que nos próximos dez anos um quarto das espécies vivas da Terra correm o risco de desaparecer.
“Estamos assistindo a uma extinção em massa de espécies; acompanhamos o empobrecimento do mundo porque a concentração de riquezas está cada vez mais intensa. O quadro não é nada promissor. É muito desfavorávelâ€, diz.
Expectativa
Agostinho relata que a sociedade civil alimentou expectativas positivas em relação à cúpula. “Esperávamos que ao final do encontro os chefes de Estado chegassem a um acordo.â€
O conselhereiro do Vidágua destaca a participação maciça de representantes de Organizações-Não Governamentais (ONGs) no encontro. “Isso garantiu que os princípios acordados em 1992 fossem mantidos. Havia proposta dos Estados Unidos e de outros países para rever esses acordos firmados na Rio-92â€, diz.
Ele enumera que esses países tentaram rever os princípios da prevenção e precaução e o da responsabilidade comum, mas diferenciada.
“O princípio da responsabilidade comum impõe que todos os países têm responsabilidade com o planeta. Mas ela é diferenciada no sentido de que aqueles que emitem mais poluentes têm de reduzir mais as suas emissõesâ€, explica.
Esse acordo também garante que as nações mais ricas são obrigadas a contribuir mais para a recuperação de áreas degradadas e diminuição da pobreza.
“Esses princípios foram colocados em jogo. Mas conseguimos, ao final das negociações, garantir a manutenção deles. O que não é um avanço e mostra que o mundo caminha a passos muito lentosâ€, avalia.
Investimentos
Os números repassados aos chefes de Estado pela Organização das Nações Unidas (ONU), organizadora da cúpula, mostram o interesse belicista da comunidade mundial.
“As nações mais ricas gastam, hoje, cerca de US$ 780 bilhões por ano com armamentos. Um orçamento em torno de US$ 20 bilhões resolveria, em parte, o problema com a epidemia da aidsâ€, calcula Agostinho.
O ambientalista garante, ainda, que algo em torno de US$ 30 bilhões poderia resolver a questão das mudanças climáticas. “Só o orçamento do Estados Unidos para uma possível guerra contra o Iraque está estimado em US$ 40 bilhões.â€
Opep derrota proposta do Brasil para energia limpa
O Brasil encabeçou uma proposta de geração de energia limpa e renovável durante a Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável - a Rio+10 -, mas foi derrotado pelo forte lobby da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
O conselheiro do Instituto Vidágua, Rodrigo Agostinho, diz que o Brasil propôs aumentar em 10% a geração de energia limpa em todo o mundo. “A maior parte dos países achou muitoâ€, comenta.
Ele explica que para que esse percentual fosse cumprido os países teriam que investir em desenvolvimento de tecnologia.
“E isso poderia provocar o barateamento da produção de energia, mudando a matriz hoje utilizada, que é a base de carvão, petróleo e gás, em matriz renovável a base de energia solar, hidrogênio, eólica e das marés.â€
O ambientalista relata que os Estados Unidos, mais alguns países europeus e membros da Opep, derrubaram a proposta brasileira.
“Mas foi interessante porque o Brasil ocupou uma posição de destaque na conferência. A vice-presidente da cúpula foi a embaixadora brasileira Maria Luiza Viottiâ€, destaca.
Agostinho avalia que o País, antes da realização da conferência mundial, fez sua lição de casa. “O Brasil ratificou o protocolo de Kioto e criou uma parque do tamanho da Bélgica, que fica na Serra de Tucumaque, no Amapá.â€