Bairros

Falta de ônibus desestimula estudantes

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 3 min

Há um mês, alunos do ensino médio que estudam em escolas públicas de Bauru estão sem transporte gratuito para ir ao colégio. Depois que a Prefeitura Municipal derrubou uma liminar que a obrigava a levar os estudantes à escola, os jovens estão tendo que se virar como podem para chegar até a sala de aula.

A Diretoria Regional de Ensino ainda não terminou o levantamento que vai apontar quantos adolescentes estão nessa situação. No próximo dia 18, o órgão deverá apresentar esse dado ao promotor da Vara da Infância e da Juventude de Bauru, Lucas Pimentel de Oliveira. “Essa é a data limite para resolvermos esse problema de forma consensual”, afirma o promotor.

Na região do Parque Santa Terezinha, aproximadamente 90 jovens perderam o direito ao transporte gratuito. Eles estudam na Escola Estadual Walter Barreto Melchert, localizada no Núcleo Octávio Rasi, e precisam caminhar, dependendo do caso, 8 quilômetro para chegar à escola. â€œÉ uma situação absurda. O governo fala tanto que dá todo o apoio à educação, mas deixa os adolescentes sem condução para ir até o colégio”, destaca a presidente da Associação de Moradores do Parque Industrial Manchester, Claudia dos Santos Tavares.

Ela conseguiu junto à escola uma lista com o número de alunos que ficaram sem o transporte depois da queda da liminar. Entre eles está Anderson Cristiano dos Santos, filho mais velho dela. “Ele está no final do terceiro colegial e eu tenho medo que ele perca o ano”, ressalta.

Da lista constam alunos que moram também no Vale do Igapó e no Aimorés, distantes quase 9 quilômetros da escola. “O problema é que grande parte desse pessoal estuda à noite e volta para casa muito tarde”, salienta Claudia.

A estudante Ana Paula Félix da Silva, 19 anos, diz que o marido vai levá-la e buscá-la todas as noites, a pé, na escola. “Ele fica preocupado com o trajeto, pois a gente tem que passar no meio do mato”, salienta.

Os alunos se organizam em grupo para enfrentar a distância entre o bairro onde moram e a escola. “O problema é que, se um faltar, os outros ficam em casa também, pois não gostam de ir sozinhos”, relata Cristiane de Oliveira, 16 anos, moradora do Jardim Manchester.

Revoltada com a situação, ela conta que os estudantes chegam desanimados à sala de aula. “Quando o professor começa a falar, dá até sono. A gente fica muito cansado e não tem vontade de estudar”, salienta.

Para agravar ainda mais a situação, a maioria dos estudantes trabalha e levanta cedo todos os dias. “Eu chego em casa meia noite e vou direto para a cama, pois tenho que trabalhar no dia seguinte”, ressalta Tânia de Jesus Santana, 17 anos.

Todos os dias os estudantes caminham pelo menos 40 minutos para chegar ao estabelecimento de ensino. Eles precisam atravessar um trecho de estrada de terra, mato alto e a rodovia Bauru-Jaú, que tem pista dupla e nenhuma passarela por perto. â€œÉ super perigoso. Minha mãe fica preocupada em casa”, destaca Ana Gilda Felix da Silva, 17 anos, moradora do Parque Santa Terezinha.

Desânimo

Sem estímulo para ir para a escola, muitos alunos estão abandonando os estudos. Ana Paula conta que, dos 44 estudantes da sua sala, cerca de dez já desistiram de ir. “Eles acham que não vale a pena tanto sacrifício”, diz.

Ela pensa diferente. A estudante acredita que o diploma do ensino médio poderá lhe abrir as portas do mercado de trabalho. “Em todos os empregos eles pedem diploma de segundo grau. Já pensou parar agora que só falta três meses?”, questiona.

Moradora do Parque Santa Terezinha, a estudante Leide Cristina Vieira, 18 anos, arrumou uma maneira mais rápida para chegar até a escola, no Núcleo Octávio Rasi. Ela vai de bicicleta todas as noites.

Apesar de chegar antes de seus colegas, ela reclama da solidão do caminho. “Eu fico com medo, pois acabo indo sozinha”, salienta.

Na volta, ela sempre pede para que um familiar vá buscá-la de bicicleta. “Eu não vejo a hora desse ano acabar para eu me formar logo. Se já é difícil para fazer o colegial, imagine só se eu quiser entrar na faculdade”, destaca a estudante.

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