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Família emperra atendimento a adolescente

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 5 min

“Se não tenho para quem provar que estou recuperado, qual é o estímulo que recebo para me tornar outra pessoa?” O questionamento levantado por um adolescente de 17 anos, internado há um ano e meio na Gilgal é o mesmo que preocupa instituições que trabalham na recuperação de menores, além de entidades como o Conselho Tutelar, a Polícia Militar (PM), a Delegacia e a Vara da Infância e Juventude.

Para discutir o assunto, foi realizada na sexta-feira, uma reunião entre os órgãos citados, que buscam aperfeiçoar o encaminhamento dispensado aos menores flagrados cometendo atos infracionais.

O encontro foi convocado pela diretoria da Gilgal, que tem enfrentado dificuldades ao abrigar todo o tipo de adolescentes problemáticos, inclusive aqueles que não sofrem com a dependência química. A entidade trabalha especificamente com adolescentes viciados em entorpecentes.

“Recebemos garotos aqui que não precisam de internação, mas que acabam recebendo nossa assistência porque a família não o aceita mais em casa”, explica o presidente da entidade, Edmundo Muniz Chaves.

Segundo ele, estes jovens recusam qualquer tipo de auxílio e acabam provocando problemas tanto para a Gilgal quanto para sua vizinhança. Portanto, para ele, o encaminhamento deveria ser outro. A família deveria ser localizada e acionada, defende Chaves.

“Sabemos que os menores mentem muito, não dizem o nome correto nem o endereço de casa, mas a PM ou o Conselho Tutelar deveriam tomar outras providências, ao invés de trazê-los aqui. Por mês, recebemos cerca de 20 jovens”, informa.

Uma outra preocupação de Chaves diz respeito à rejeição sofrida pelos menores. “Embora os jovens tenham um laço afetivo frágil com suas famílias, a rejeição emperra a recuperação dos garotos. Esse é um problema que não vamos resolver apenas com reuniões”, ressalta.

Abandono de menores

Ciente do impasse, o juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, aproveitou a reunião para reforçar sua orientação à PM e ao Conselho Tutelar de identificar os responsáveis pelos adolescentes flagrados cometendo ato infracional. Caso o menor seja rejeitado, seus pais podem ser enquadrados em crime de abandono de menores.

“Se cada entidade fizer o encaminhamento adequado, o problema estará em parte resolvido. Claro que teremos de estudar caso a caso. Em algumas circunstâncias, os garotos serão encaminhados à Cadeia Pública ou à Delegacia da Infância e Juventude, quando ela estiver funcionando”, informa Maintinguer.

De acordo com o juiz, a grande maioria dos jovens que apresentam problemas de comportamento vem de famílias desestruturadas e, por essa razão, acaba recorrendo a atividades ilícitas.

Outras prioridades

Também demonstrando interesse em resolver a questão, o capitão Nelson Garcia Filho, da 4.ª Companhia da Polícia Militar, participou do encontrou e apresentou as conclusões do debate ao capitão da 1.ª Companhia, Roberto Benedito Meira.

Entretanto, embora Meira reconheça a gravidade do problema, garante que não é atribuição da PM localizar a família dos menores que cometem ato infracional.

“Em alguns casos específicos podemos até procurar o pai de um ou de outro, contudo essa não é nossa função. Temos outras prioridades. Órgãos como o Conselho Tutelar, por exemplo, deveriam atuar neste sentido. Não sabemos se a entidade tem estrutura para isso, mas é a função que lhe cabe”, finaliza.

O JC tentou contato com a presidente do Conselho Tutelar e com o delegado responsável pela Delegacia da Infância e Juventude, mas eles não retornaram às ligações. A Delegacia Seccional de Polícia de Bauru informou que só neste ano, até agosto, foram registrados 469 atos infracionais (veja o quadro acima).

Abandono dificulta recuperação

Fruto de uma família desestruturada, um garoto de 17 anos está na Gilgal há um ano e meio porque sua avó não o aceita de volta. Ele é filho de um traficante preso e órfão de mãe, que morreu após infectar-se com o HIV.

“A família do meu pai sempre viveu em torno das drogas. Cresci neste meio. Depois fiquei viciado em crack, cocaína e maconha. Agora estou me recuperando, mas sinto uma dor lá no fundo do peito quando penso que não vão voltar para casa nunca mais. É tudo o que mais quero”, conta com a voz embargada.

Segundo ele, a avó, que conseguiu sua guarda, o considera a ovelha negra da família e não o aceita de volta. “Se não tenho para quem provar que estou recuperado, qual é o estímulo que recebo para me tornar outra pessoa? Me desespero ao lembra que não posso estar próximo da minha irmã, que também tem o vírus do HIV?”, questiona amargurado.

O rapaz diz ficar tão revoltado com a situação, que as vezes pensa em desistir da recuperação e cometer outras loucuras.

Desatinos

Devido à desestrutura familiar, à falta de perspectivas ou à inexistência de medidas corretivas, adolescentes acabam cometendo insanidades para fugir da Gilgal. Muitos desanimam ao percorrer o sofrido caminho da desintoxicação das drogas e acabam cometendo desatinos que prejudicam a diretoria da Gilgal e sua vizinhança.

Segundo o presidente da entidade, Edmundo Muniz Chaves, uma vez, ao dar entrada na entidade, um garoto ao ser atendido por ele o comunicou sobre fuga alegando que um carregamento de entorpecente estava para chegar na cidade. “Chegamos a esse absurdo”, comenta.

Mas as circunstâncias inusitadas não param por aí. Antonia Rodrigues, vizinha da entidade há anos, conta com os garotos freqüentemente jogam fezes em saquinhos no quintal de sua casa.

“Acabei até me acostumando com isso. A gente se habitua com as coisas boas e com as ruins também. Eles ainda andam pelo telhado de casa e quebram minhas telhas. Uma vez, três estavam no meu quintal. Apenas numa ocasião um garoto entrou dentro de casa, mas nunca levaram nada”, relata.

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