Sou moradora do Rio de Janeiro. Não sou carioca e até pouco tempo Cidade de Deus nada mais era do que uma placa verde em uma avenida no sentido Jacarepaguá.
Não entendo a malandragem. Sou atriz e jornalista, supostamente um ser humano intelectualmente bem formado e mesmo assim, o Rio assusta-me. E agora, após o brutal longa de Fernando Meirelles, assusta ainda mais.
Talvez minhas impressões sobre o filme não sejam as mais aguçadas ou excepcionais mas minha vontade ao sair do cinema e voltar para casa, ao passar pelo morro do Vidigal, era gritar: “Ok, vocês venceram!†Decidi fazer exatamente isso, só que de forma mais segura...
O modo como Meirelles desnuda aquele mundo, a empatia dolorosa criada entre platéia e bandidagem justificando a injustificável violência, atinge como uma bala perdida. Saí do cinema impregnada de violência, sentindo me lady Macbeth com as mãos sujas de sangue.
Sofri com a humanidade das personagens, com a banalidade do traficante matando por (entre outras coisas) não ter namorada e sofri, acima de tudo, por saber ser tudo real e estar terrivelmente perto. Sofri ao pensar que ao longo da Orla, o cartão postal carioca, existem infinitos Zés Pequenos tão ou mais implacáveis que o vivido magistralmente por Leandro Firmino da Hora.
Isso é o chocante em “Cidade de Deusâ€, a dura percepção de que o criminoso é tão humano quanto você embora muito mais bem armado. Nada inédito, nada que a própria co-diretora de Meirelles, Kátia Lund, já não tivesse exposto cirurgicamente no documentário “Notícias de uma Guerra Particularâ€, este co-dirigido por João Moreira Salles.
Mas ver no filme um menino de seis anos de idade levar um tiro “pra deixar de ser besta†é estranhamente mais impactante que ver um de doze desfilando para uma equipe de filmagem em pleno dia de sol no morro Dona Marta com uma metralhadora semi-automática em punho. É tamanho o poder da ficção que sempre consegue ser mais cruel que a mais crua realidade.
“Cidade de Deus†poderia ser um clichê, poderia ser só um bom filme de ação ou puramente um retrato frio e distante de uma realidade que nos é distante, mas é muito mais. É um corte seco e fundo na realidade com doses perfeitas de ficção, é um filme capaz de provocar o riso do absurdo ao ver um motim causado por franco atiradores de oito anos de idade e torcer por eles. É perceber que realmente chegamos ao fundo do poço.
* Janaina Fainer é atriz e jornalista