Cultura

Opinião: Fundo do Poço

Por Janaina Fainer * | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 2 min

Sou moradora do Rio de Janeiro. Não sou carioca e até pouco tempo Cidade de Deus nada mais era do que uma placa verde em uma avenida no sentido Jacarepaguá.

Não entendo a malandragem. Sou atriz e jornalista, supostamente um ser humano intelectualmente bem formado e mesmo assim, o Rio assusta-me. E agora, após o brutal longa de Fernando Meirelles, assusta ainda mais.

Talvez minhas impressões sobre o filme não sejam as mais aguçadas ou excepcionais mas minha vontade ao sair do cinema e voltar para casa, ao passar pelo morro do Vidigal, era gritar: “Ok, vocês venceram!” Decidi fazer exatamente isso, só que de forma mais segura...

O modo como Meirelles desnuda aquele mundo, a empatia dolorosa criada entre platéia e bandidagem justificando a injustificável violência, atinge como uma bala perdida. Saí do cinema impregnada de violência, sentindo me lady Macbeth com as mãos sujas de sangue.

Sofri com a humanidade das personagens, com a banalidade do traficante matando por (entre outras coisas) não ter namorada e sofri, acima de tudo, por saber ser tudo real e estar terrivelmente perto. Sofri ao pensar que ao longo da Orla, o cartão postal carioca, existem infinitos Zés Pequenos tão ou mais implacáveis que o vivido magistralmente por Leandro Firmino da Hora.

Isso é o chocante em “Cidade de Deus”, a dura percepção de que o criminoso é tão humano quanto você embora muito mais bem armado. Nada inédito, nada que a própria co-diretora de Meirelles, Kátia Lund, já não tivesse exposto cirurgicamente no documentário “Notícias de uma Guerra Particular”, este co-dirigido por João Moreira Salles.

Mas ver no filme um menino de seis anos de idade levar um tiro “pra deixar de ser besta” é estranhamente mais impactante que ver um de doze desfilando para uma equipe de filmagem em pleno dia de sol no morro Dona Marta com uma metralhadora semi-automática em punho. É tamanho o poder da ficção que sempre consegue ser mais cruel que a mais crua realidade.

“Cidade de Deus” poderia ser um clichê, poderia ser só um bom filme de ação ou puramente um retrato frio e distante de uma realidade que nos é distante, mas é muito mais. É um corte seco e fundo na realidade com doses perfeitas de ficção, é um filme capaz de provocar o riso do absurdo ao ver um motim causado por franco atiradores de oito anos de idade e torcer por eles. É perceber que realmente chegamos ao fundo do poço.

* Janaina Fainer é atriz e jornalista

Comentários

Comentários