Provocam constrangimento das descortesias com que muitas donas de casa tratam suas empregadas domésticas. Poder-se-ia tentar justificar o problema com a certeza de que umas, as madamas, se consideram donas de “status†sociais e deles se aproveitam insanamente, enquanto as outras - coitadinhas! - não dispõem desse privilégio, pois não tiveram a ventura de cursar escolas e porque procedem, quase sempre, dos conglomerados mais humildes das periferias ou mesmo das zonas rurais, de um sítio pobre lá longe, onde só conseguem permanecer enquanto não começam a pensar em casamento ou amizade com alguém do sexo oposto, surgindo-lhes então a necessidade de arranjarem emprego e namorado na cidade. Mas, opinam os especialistas, os “status†não poderiam ser utilizados como razão bastante para a diferença preconceituosa que as empregadoras mantêm sobre as que se lhes oferecem, pelo pagamento de apenas alguns poucos reais mensais, para conservarem os “habitatsâ€, todos os dias, limpinhos e perfumados, como as madamas se esforçam para exibir aos maridos, filhos e visitantes. Principalmente porque, quando precisam mudar de servidora, não têm as “chefas†dificuldades maiores, uma vez que, nestes tempos de desmedido desemprego profissional, os oferecimentos batem nos domicílios numa média de 20 a 30, e, então, as donas podem desentender-se sem maiores preocupações com suas funcionárias, eis que num abrir e fechar de olhos contratarão outras. Conjecturam os analistas que as animosidades que mais acontecem entre a dupla resultam de problemas de educação de uma e outra, os quais arrasta estas e aquelas a momentos de vexatória malcriação e até desrespeito. E, rotineiramente, quem leva a pior nessas turbulências? Fácil é adivinhar, pois não? Acontece, porém, que a maioria das caseiras não logra aceitar a situação e, por isso, julgam-se desconsideradas e mesmo colocadas “à margem da vidaâ€, ainda que conheçam, como nós conhecemos também, tantos exemplos de patroas que tratam suas criadas como se fossem suas filhas, cercando-as invariavelmente de gestos de carinho e de apoio, inclusive financeiro, quando necessário. Não se referem às meninas como “a minha empregada†e, sim, pelo nome que realmente tenham. Em uma foto que temos em mãos, vemos uma patroa (loirinha) de mãos dadas com a sua servidora (escurinha). Em outro, ambas estão abraçadas alegremente. Mas, para as deseducadas até parece que as domésticas não foram batizadas e estão sem nome. Por isso, dizem as garotas ter vergonha de contar que são faxineiras, cozinheiras etc, como se tais profissões sejam desdouro, o que não são, sendo tão dignas como as que mais o sejam. A questão é só de referência. Hoje, a coisa melhorou, porém reclama mais melhoria, para que as meninas, moças e senhoras, de ambas as cores, que zelam, sem imposição de cursos e concursos, pelo bom funcionamento das moradias e pela alimentação de seus moradores, não se sintam inferiorizadas por ninguém. Considerem-se iguais todas, pois foram postas no mundo iguaizinhas a todos. Para sua defesa fundaram-se no País inúmeras associações específicas. Muito bem! É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)
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