Auto Mercado

Automóveis do futuro?

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Você já imaginou chegar em um posto e pedir ao frentista para encher o tanque com álcool, gasolina ou gasolina misturada com álcool em qualquer proporção e ainda sair rodando sem que isso cause problemas mecânicos em seu automóvel?

Pois essa tecnologia, denominada de “flex fuel”, ou combustível flexível, já existe e poderá tornar-se uma realidade no mercado automobilístico. Mas quando isso ocorrerá é uma pergunta ainda sem resposta.

Entre as montadoras nacionais, a Ford parece ser a que se encontra em estágio mais avançado de desenvolvimento. Tanto que a marca apresentou este ano, durante o lançamento do novo Fiesta, no complexo industrial de Camaçari, na Bahia, protótipos do modelo com motores 1.6 “flexíveis”.

Um deles é equipado para utilizar álcool hidratado, gasolina pura ou qualquer mistura de álcool e gasolina (o popular “rabo de galo”, abordado em matéria recente no AutoMercado&Cia). Com potência de 105 cv, esse motor tem custo de produção maior pelo tratamento necessário no tanque, linha e bomba de combustível, sistema de injeção, galerias e outros itens para resistir à agressividade química do etanol hidratado.

O segundo conceito é um veículo bicombustível feito para funcionar com álcool hidratado ou a gás natural veicular (GNV). Para mudar o combustível utilizado, basta acionar um botão no painel. Ele dispõe também de um sistema que troca automaticamente a alimentação a gás, quando este termina, para o álcool.

Esse motor, que a exemplo do primeiro protótipo tem como base o modelo a álcool, desenvolve 109 cv com etanol puro hidratado e 97 cv com o gás. Outra vantagem dessa combinação é eliminar a necessidade do sistema de partida a frio: o motor pode ser acionado pelo gás.

Produção em série?

Apesar do elevado grau de desenvolvimento da tecnologia “flex fuel”, a Ford, ainda, não pretende massificá-la. “Não temos, neste momento, previsão de produção regular desses veículos no País, mas estamos preparados para qualquer eventual alteração no perfil das fontes energéticas no nosso mercado”, diz Luc de Ferran, vice-presidente da Ford Motor Company Brasil.

Já para o diretor de Assuntos Corporativos e Comunicação da empresa, Rogelio Golfarb, seria possível trabalhar em duas direções, dependendo da política que o Brasil seguirá na área. “Utilizar os veículos já desenvolvidos nos países onde os combustíveis alternativos são uma realidade ou avaliar a aplicação da tecnologia atual utilizando os combustíveis já disponíveis no mercado, com uma readaptação dos produtos existentes”, afirma.

Segundo Golfarb, a utilização de veículos a combustível flexível implicaria também na revisão do status tecnológico atual a fim de se criar uma solução brasileira que ofereça, ao mesmo tempo, flexibilidade para o cliente e respeito ao meio ambiente.

Para o diretor, o sucesso de tais aplicações está diretamente ligado à capacidade de satisfazer às necessidades dos consumidores, preenchendo os requisitos de desempenho, autonomia, confiabilidade, custo e disponibilidade do combustível.

Golfarb acrescenta que, no caso dos protótipos apresentados, os três primeiros pontos já foram equacionados. “Quanto aos demais, dependem de medidas de alcance mais amplo, que incluem a própria modelagem da matriz energética e programas de incentivo governamentais”, ressalta ele.

A importância do preço também é lembrada pelo diretor da Ford. “Sem oferecer algum atrativo para o consumidor nesse aspecto, as chances de popularização são praticamente nulas, a não ser que se parta para outro tipo de estratégia, a da imposição legal, que embute o risco de gerar distorções no mercado”, considera Golfarb.

Volks, GM e Fiat

Nas outras três principais montadoras do País - Volks, General Motors (GM) e Fiat -, a adoção do “flex fuel” também é uma incógnita. “A Volkswagen ainda não tomou decisão sobre a utilização do sistema. Tudo indica que as empresas forncedoras estão praticamente prontas e, caso a VW o adote, o tempo para implementação duraria de 18 a 24 meses”, explica Sérgio Ayarroio, da assessoria de imprensa da montadora.

A GM revelou que está desenvolvendo a tecnologia “flex fuel”, mas afirmou, através de sua assessoria de comunicação, que não faria comentários sobre o assunto neste momento. A Fiat não se pronunciou.

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Combustíveis alternativos

Algumas das tecnologias hoje já disponíveis existiam, há poucos anos, apenas na imaginação. Outras têm sido objeto de um trabalho intenso de desenvolvimento, com progressos consideráveis que permitirão, em breve, sua disponibilidade no mercado.

Uma das mais promissoras é a das células de combustível, que convertem água em eletricidade e esta em hidrogênio. Uma garrafa de um litro de água, por exemplo, contém aproximadamente 120 gramas de hidrogênio, energia suficiente para mover um carro médio a uma distância de aproximadamente 14 quilômetros.

A Ford, segundo sua assessoria de imprensa, produziu seu primeiro veículo movido a célula de combustível em 1998. Em 2001, lançou o Focus FCV, que torna muito próximo, em termos de conteúdo e desempenho, o início de um programa de baixa produção desse tipo de carro, que deverá chegar às ruas por volta de 2004.

Ao mesmo tempo, encontra-se em pesquisa um automóvel com motor de combustão interna direta de hidrogênio, que poderá servir de ponte entre os motores a gasolina de hoje e a tecnologia de células de combustível do futuro.

A Ford, ainda conforme sua assessoria, também tem feito pesquisas na produção de veículos híbridos elétricos (HEV). Um de seus planos é colocar o Ford Escape HEV nas ruas em 2003. O segredo por trás desse veículo é o PowerSmart, novo sistema de acionamento que garante potência, desempenho e economia de combustível superior em relação aos veículos híbridos existentes atualmente. (Da Redação)

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Experiências externas

Enquanto no Brasil os motores “flexíveis” ainda engatinham, em alguns países eles já integraram a realidade do mercado automotivo. A Ford, por exemplo, já comercializa nos Estados Unidos linhas de veículos bicombustíveis. As picapes Ranger e os sedãs Taurus com motores 3.0 foram os primeiros a oferecer os sistemas. Hoje, os modelos Explorer e Sportrac também dispõem da mesma flexibilidade.

A mesma montadora também já oferece produtos a gás natural na América do Norte e na Europa. Eles incluem uma versão do sedã Crown Victoria, da picape Série F Light Duty e da van Econoline para frotas de serviços de entregas. A Duty também é disponível com um sistema bicombustível, que opera com gasolina ou gás natural.

Na Europa, a Ford introduziu versões bicombustível da van Transit (a gás) e os modelos do Mondeo e do Focus. Desde 2001, uma versão “flex fuel” do Focus também é disponível na Suécia. (Da Redação)

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