Geral

Banda hexa conta o segredo do sucesso

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 7 min

Manter uma agremiação musical por mais de 60 anos em um País onde poucos têm acesso à cultura é o desafio enfrentado diariamente pela professora Maria Lúcia Ranieri Previdello, que herdou o comando da Banda do Liceu Noroeste de seu pai, o professor José Ranieri.

Apaixonado por música e acreditando que através dela o homem se tornaria mais sensível e humano, ele fundou a fanfarra em 1939, com 16 músicos, transformada posteriormente em banda. Hexacampeã estadual, a agremiação coleciona prêmios e é antes de tudo uma escola de vida que transforma meninos e meninas em homens capazes de fazer do sonho uma realidade.

O segredo do sucesso é o assunto que o JC vai abordar na entrevista a seguir com a diretora da banda.

Jornal da Cidade - Qual foi a filosofia que impulsiou o professor a fundar a fanfarra do Liceu?

Maria Lúcia R. Previdello - Ele acreditava que através da música o homem poderia ser educado. Ela faria aflorar a sensibilidade do homem tornando-o mais capaz de construir uma sociedade mais humana.

JC - José Ranieri era músico?

Maria Lúcia - Ele conhecia música mas não era professor de música. Tinha muita sensibilidade. Tocava violino.

JC - Há registros da fanfarra desde o seu início?

Maria Lúcia - Temos fotos de 1939, ano da fundação. Através delas notamos que a fanfarra começou com 16 integrantes. Não era banda e sim fanfarra. A diferença é instrumental. Na banda marcial usam-se instrumentos de sopro, principalmente. O mesmo não ocorre com a fanfarra.

JC - Quando a fanfarra passou a ser banda marcial?

Maria Lúcia - A partir de 1968 quando começamos a comprar os instrumentos de banda. Desde esta época começamos a participar dos concursos de bandas. Quando ainda era fanfarra, eles também participavam.

JC - Há quanto tempo você está à frente da banda?

Maria Lúcia - Meu pai morreu em 1961 e seus filhos assumiram a escola e a banda. O meu irmão Túlio se dedicou muito à banda. Neste período eu só acompanhava nas viagens. Há pouco mais de 20 anos, assumi o comando sozinha.

JC - Quais os primeiros concursos que a banda participou?

Maria Lúcia - Antigamente havia um concurso da TV Record que era o mais famoso do Brasil. Era feito em São Paulo, na avenida São João. As melhores bandas do Brasil participavam desse concurso. A nossa foi bicampeã. Na época era o prêmio mais importante em matéria de banda do País. O concurso acabou quando o organizador morreu.

JC - Surgiram outros concursos?

Maria Lúcia - Surgiram concursos paralelos, organizados pelas prefeituras. A nossa banda sempre participou e conquistou, sempre, colocações muito boas. Dentre eles destaco: São Bernardo do Campo, Arujá, Guarujá, Catanduva, Mairiporã onde conquistou o título de pentacampeã. Depois, paramos de ir porque o transporte ficou caro. Fomos também para Guarulhos, Tatuí, Franca, Itaquaquecetuba, Santa Rita do Passo Quatro e Franco da Rocha.

JC - Outros concursos?

Maria Lúcia - Participamos anualmente dos concursos estaduais. Em alguns anos, a secretaria não organizou o campeonato. Houve alguns dos quais não participamos e este ano conquistamos o título de hexacampeão do 14.º Campeonato Estadual de Bandas Marciais, categoria juvenil, disputado na cidade paulista de São João da Boa Vista. A competição foi organizada pela Secretaria da Juventude, Esporte e Lazer do Estado de São Paulo.Este é o único campeonato oficial.

JC - Os títulos garantiram a presença em outros tipos de eventos?

Maria Lúcia - Por três vezes a nossa banda se apresentou em Brasília/DF, a convite do governo federal. Participamos do encerramento da 8ª Mostra da Ciranda da Ciência, no Sesc Pompéia, Capital, onde as maiores autoridades do mundo científico e também da política brasileira compareceram.

JC - A banda já se apresentou fora do País?

Maria Lúcia - Há sete anos participamos do Festival Internacional de Bandas e Fanfarras, organizado pela cidade de Melipilla/Chile. Segundo os próprios organizadores, o evento é o mais importante realizado naquele país. A banda do Liceu Noroeste é a única banda brasileira que já participou dos sete festivais.

JC - Este ano você vão participar?

Maria Lúcia - Infelizmente não iremos participar em função da alta do dólar. Mesmo com todos os esforços dos pais e integrantes da banda, que durante todo o ano ajudaram nos eventos realizados com a função de levantar recursos para a viagem, não vamos participar. O preço das passagens torna a viagem e a nossa participação inviáveis.

JC - Além das apresentações em solo chileno, a banda fez outras participações internacionais?

Maria Lúcia - Fizemos apresentações na Argentina, em Mendonza, a convite do governo do estado de Mendonza. Nos apresentamos no palácio do governo e desfilamos pelas avenidas da cidade. Recebemos convite para fazer uma apresentação nos Estados Unidos, mas por motivos financeiros não pudemos ir.

JC - A banda coleciona prêmios importantes, destaque alguns?

Maria Lúcia - Nós recebemos algumas premiações importantes. Por duas vezes recebemos o prêmio Destaque do Ano da Revista Atenção. Recebemos o prêmio medalha Cívica da Juventude, outorgada pela Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo.

JC - Qual foi o prêmio mais significativo?

Maria Lúcia - colecionamos mais de 400 troféus, todos importantes. Mas um dos mais significativos foi a chave da cidade de Melipilla/Chile, que recebemos no ano passado, durante as festividades do aniversário de 259 anos daquela cidade. Pela primeira vez na história do município, através de um decreto municipal, com aprovação unanime de todos os vereadores foi outorgado esse prêmio. A chave da cidade foi outorgada à banda pela contribuição à cultura.

JC - Dentre as inúmeras apresentações da banda, qual a que mais te emocionou?

Maria Lúcia - Quando representamos o Brasil em uma missa dedicada a todos os imigrantes que saíram de seus países para fixar residência no Chile. A missa foi em Santiago do Chile na catedral Metropolitana no ano de 2000. Foi um momento maravilhoso. Outra participação importante foi, por dois anos consecutivos, no Festival de Inverno de Campos do Jordão, maior evento da música erudita do Brasil.

JC - O repertório da banda é um misto de vários tipos de música?

Maria Lúcia - Sim. Tocamos música clássica, música popular, temas de filmes infantis.

JC - A banda do Liceu tem um CD?

Maria Lúcia - No ano de 1999 lançamos um CD- Uma obra de Sucesso. Temos pretensão de gravar mais, não a curto prazo, mas temos a intenção.

JC - Qual é a maior dificuldade que a banda enfrenta?

Maria Lúcia - O maior problema é o financeiro. As despesas com com transportes mais especificamente. Quando somos convidados para nos apresentar em um aniversário de cidade, o convidado oferece transporte e alimentação. Nesses casos a gente não tem despesa nenhuma. Agora, quando se trata de um concurso, as despesas de transportes são por nossa conta.

JC - O mesmo acontece nas viagens internacionais?

Maria Lúcia - O país que convida oferece estada e transporte interno, mas as passagens de ida e volta são por nossa conta. Por conta das famílias. São as famílias dos alunos que colaboram. Participam junto com seus filhos dos eventos.

JC - A banda tem algum patrocínio?

Maria Lúcia - Não temos ajuda municipal, estadual ou federal. Procuramos patrocínio, mas as empresas não se interessam. Se tivéssemos um patrocinador poderíamos participar de inúmeros eventos.

JC - Por que vocês são considerados os mensageiros da cultura?

Maria Lúcia - Porque levamos a nossa cultura para os locais que nos apresentamos. Nas apresentações não é o nome do colégio que aparece e sim da cidade. Levamos o nome de Bauru para o Chile, Argentina e para todo o nosso País.

JC - Vocês nunca contaram com a ajuda de empresas privadas?

Maria Lúcia - A única empresa que nos ajudou foi o Expresso de Prata. No ano passado eles transportaram a banda de Bauru para Guarulhos para viajar para o Chile. Fizemos uma parceria. Nessa viagem para o campeonato estadual, eles novamente, cooperaram com a gente, transportando a banda até a cidade de São João da Boa Vista.

JC - Na sua opinião o que é que atrai o jovem para a banda marcial?

Maria Lúcia - A atração principal acontece quando o jovem assiste a uma apresentação nossa. Eles se entusiasmam. O jovem que gosta de música ou que já vem de família de músicos se aproxima. A nossa banda é composta de jovens a partir de 10 anos. Hoje eles somam 70, entre meninos e meninas.

JC - Os pais participam das atividades da banda?

Maria Lúcia - Sempre. Desde o início, quando a criança se propõe a entrar para a banda, os pais participam.

Comentários

Comentários