O presidente Fernando Henrique Cardoso não deixa de ter razão quando dispara contra o fluxo de capitais: “Não é possível deixar que a exuberância irracional do mercado financeiro e a volatilidade do capital internacional limitem as nossas possibilidades de avançoâ€, afirmou na semana passada a empresários do varejo. Como agir, entretanto, quando os investimentos externos secam e o real passa a valer menos que o peso argentino, a despeito de todo o esforço do governo em cuidar da higidez dos fundamentos da economia? Como atuar quando a expectativa de uma recessão com inflação volta a ocupar espaço no imaginário do mercado?
O presidente, no mesmo pronunciamento, declarou que “seria um quase-suicídio pensar em fechar a economia outra vez e que haja algum setor protegido no Brasil. Protegido para quê? Para enriquecer o dono da empresa e empobrecer o trabalhador, que vai ter que comprar o produto mais caro e de pior qualidade. Esse tipo de desenvolvimento eu não quero para o Brasil.â€
De fato, o Brasil moderno não quer reserva de mercado, mas anseia pela remoção das barreiras dos países desenvolvidos e pela verdadeira reforma tributária que desonere a produção e os serviços – e não apenas os produtos exportáveis, aumentando a taxação dos demais, como o governo fez com o PIS e a Cofins. Uma verdadeira reforma tributária elevará a eficiência da economia para produzir mais bens com os mesmos recursos.
O Brasil moderno não deseja uma política para enriquecer empresários e empobrecer trabalhadores, mas sim uma recuperação da renda das famílias, que tanto caiu nos últimos anos, e sua melhor distribuição pela sociedade. O país quer crescimento com uma eficiente defesa da concorrência, para que famílias e empresas adquiram produtos e insumos bons e baratos.
O Brasil moderno quer elevar a produção e o consumo para aumentar a arrecadação e poder dispor de mais recursos públicos. Assim, o Estado vai proporcionar qualidade na educação e na saúde, ampliar o saneamento básico, diminuir o déficit habitacional e conter a violência.
O Brasil moderno está cansado de só fazer as vontades dos investidores externos e autorizar que as concessionárias privadas aumentem as tarifas dos serviços públicos, pressionando os orçamentos domésticos e os custos das empresas, enquanto os setores competitivos são forçados a demitir por causa da crise, aumentando a exclusão.
Vamos chegar lá com a persistência de uma política de juros altos, aumento de impostos e um corte ainda mais acentuado dos investimentos de governo? Ou será que este é sim o momento de imaginar um novo modelo econômico, dentro do qual, sem reserva de mercado, a interlocução com a classe empresarial seja um componente obrigatório? (Artur Quaresma Filho é presidente do SindusCon-SP – Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo e coordenador da Comissão da Indústria da Construção da Fiesp)