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As esposas


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No terceiro ato da peça de Ibsen Casa de Bonecas, marido e mulher têm um encontro para colocar a situação em pratos limpos. E ele diz: “Antes de qualquer coisa, você é esposa e mãe”. Ela responde: “Eu não acredito mais nisso. Acredito que, antes de tudo, sou um ser humano igual a você... ou então devo tentar ser como você, a qualquer preço”. Quando a peça estreou em 1879 na Dinamarca, foi um escândalo. A idéia de que uma mulher respeitável devia renunciar a seu papel de esposa e mãe, deixar marido e filhos e trilhar o seu próprio caminho foi vista como um insulto à maioria dos valores perpetuados pela sociedade. Ibsen sofreu tantas pressões que teve que mudar o final da peça: a mulher decide ficar, apesar de tudo o que sofreu com o marido e a sua perda de identidade porque “seria um pecado contra mim mesma deixar os meus filhos”. Ainda hoje a maioria da sociedade ainda acha que o papel da mulher é a de dar e parir. Na minha leitura esse conceito aflora até hoje. Ciro disse que o papel de Patrícia na campanha foi a de “dormir com o candidato”. Lula, ou os seus marqueteiros de TV, para conquistar o eleitorado feminino fazem descer de uma colina dezenas de mulheres grávidas simbolizando as mudanças que sonhamos para o futuro dos nossos filhos. Desde o Velho Testamento as mulheres são vistas como vivíparas obedientes, geradoras de braços para o trabalho.

A escritora americana Marilyn Yalom escreveu um livro interessante (já que estamos falando de grávidas) sob o título “A história da esposa” (Ediouro), no qual percorre três mil anos de história. O patriarcado não era lá essas coisas na Atenas clássica. A mulher tinha direito ao divórcio. Bastava mandar um recado ao marido. Em Lysistrata, apresentada pela primeira vez em 411 a.C., Aristófanes apresenta as mulheres em greve de sexo para protestar contra o machismo dos seus esposos. Há comoção na sociedade grega. Pelo menos neste momento, o poder da cama provou ser mais forte que o poder da espada. A peça parece tão atual quanto o slogan dos anos 1960 “faça amor, não faça a guerra”. O grande orador e estadista Cícero (106-43 a.C) e a esposa Terência divorciaram-se porque ela cansou-se de lhe emprestar dinheiro da sua própria fortuna para suas campanhas eleitorais.

Na Idade Média houve retrocesso - as mulheres eram tratadas como cães, apanhavam todos os dias, eram submetidas ao cinto de castidade e a Igreja ainda as aconselhava a “serem humildes e alegres o tempo todo, mesmo quando os maridos lhe fazem uma provocação injusta”. A megera domada de Shakespeare é um bom exemplo da tentativa de uma mulher de subverter a ordem e da tentativa de um homem de restaurá-la. Petruchio acredita que bons casamentos são baseados na total submissão da esposa ao marido. Mulheres resmungonas eram amarradas em cadeiras e mergulhadas na água fria. As coisas melhoraram na Europa protestante quando Martinho Lutero casou-se com a freira Katherina von Bora, sempre tratada com amor desde que limpasse o cocô que a criançada fazia pela casa. Em 1832 George Sand chocou os seus contemporâneos com a historia da fuga de uma esposa de seu marido violento. Uma geração depois Flaubert transformou Madame Bovary na maior das adúlteras, mais para que sentissem pena dela do que propriamente a condenassem diante da sua recusa de manter-se fiel a um monótono marido interiorano. Tolstoi criou uma verdadeira e heróica adúltera em Anna Karenina. Tanto Anna como Bovary cometeram o suicídio. Tolstoi e Flaubert não puderam deixar o adultério feminino sem uma punição exemplar. Nesta pós-modernidade às vezes as coisas são diferentes. A história de Hillary e Bill Clinton tem seus lances de novela das oito – uma saga dramática feita de ambições profissionais, casamento, infidelidade, perdão e amor. Os danos à reputação de Clinton não atingiram a sua esposa. Conservou-se digna apesar de Monica Lewinsky. Tanto é que se elegeu senadora com os pés nas costas. Os norte-americanos contam a história do dia em que Hillary e Clinton pararam num posto de gasolina e a primeira dama foi tratada com intimidade pelo frentista. “Quem é esse cara?” - rosnou Clinton. “Foi meu primeiro namorado”. Com um riso sarcástico Clinton quis humilhar: “Você não está contente de estar casada com um presidente em vez de com um frentista? Ela responde: “Se eu tivesse me casado com ele, ele teria sido o presidente”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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