Perto de uma casa de campo havia um velho poço. Sua água era algo de diferente, sempre fria e pura, muito gostosa de se beber. Mas o particular do poço era que ele nunca secava. Mesmo nos dias de verão, nos quais os raios do sol tornavam a terra muito seca, o poço permanecia fiel e oferecia água cristalina.
O tempo passou e a modernidade chegou na região. As casas começaram a receber água encanada e o poço perdeu sua função. Então acabaram lacrando-o. Muito tempo depois, o morador da casa de campo resolveu dar uma olhada no poço e ver se ele ainda tinha água. Ao abri-lo, sua surpresa foi muito grande, o poço havia secado.
Então o morador ficou curioso e resolveu descobrir porque o poço não possuía mais água. Depois de pesquisar o solo foi constatado que o poço era abastecido por inúmeros e pequenos veios de água. Mas, estes permanecem abertos somente se a água do poço é sempre retirada. Se o poço não é mais utilizado os veios acabam se fechando.
O exercício da política é semelhante à história do poço. Em um sentido amplo, política significa todo jogo de influências dentro das relações humanas. Ao vivermos em sociedade somos influenciados por determinadas pessoas e exercemos influências sobre elas. Este jogo é inevitável e se desenvolve, na maioria das vezes, de forma inconsciente.
Foi neste sentido que Aristóteles definiu o homem como um ser essencialmente político. O simples fato de existir em um determinado grupo provoca a transformação do mesmo, pois minha presença, independentemente de minha vontade, o influencia de alguma forma. Em um segundo nível, política constitui-se no exercício “consciente” deste jogo de influências.
Neste nível, procuramos alcançar determinados objetivos e para isso traçamos estratégias procurando convencer nossos semelhantes da importância do que desejamos. Esta forma de política pode ser exercida em nosso microcosmo, como família, grupo de amigos ou bairro, como também em nosso macrocosmo, ou seja, em nossa sociedade.
Dependendo da forma como influenciamos no macrocosmo, possuímos um determinado regime político. Em nosso caso, podemos participar de forma livre nos jogos de influência da nossa sociedade, o que significa que vivemos em uma Democracia. Para Abraham Lincoln “Democracy is government of the people, by the people, for the people”.
Democracia é, primeiramente, o poder do “povo” de se autogovernar (of the people). Mas, quem é na verdade o povo? Em uma democracia o povo é sinônimo de maioria. As decisões da maioria determinam os rumos da organização de uma sociedade e as minorias devem se adequar a estas. Democracia, porém, não deve ser uma ditadura da maioria.
Portanto, é necessário que ela tenha tolerância deixando que as minorias exerçam o direito de divulgar suas idéias e talvez algum dia terem a chance de se tornarem maioria. Este aspecto nos leva à outra dimensão da democracia: o poder em uma democracia é exercido para o povo (for the people), ou seja, para o Bem Comum de todos.
Os representantes do povo devem criar condições para que todo ser humano possa se desenvolver como pessoa, independentemente de suas crenças, ideologias, sexo, religião ou opções políticas.
Isso só é concretizado a partir do momento que vivenciamos o último aspecto da democracia: a democracia é exercida pelo povo (by the people). Exercer este poder não significa simplesmente participar de uma eleição, mas a partir dela, acompanhar os trabalhos de seus representantes.
Tanto a maioria como as minorias devem procurar saber “o que” e “como” os políticos realizam seus serviços tanto no Executivo como no Legislativo. O povo deve ter a consciência de que as realizações destes homens e mulheres não serão “presentes” ou “concessões” à população, mas sim obrigações que possuem diante delas.
Neste país, os políticos são muito bem pagos para trabalhar com eficiência por uma sociedade que deve, com urgência, tornar-se cada vez mais humana e mais justa, uma sociedade que tenha uma saúde preventiva, um ótimo sistema educacional, professores bem pagos, policiais bem pagos e bem equipados, ruas limpas e sem buracos, praças que possam ser freqüentadas sem medo.
Infelizmente, estamos ainda um pouco longe para que a nossa democracia se torne um governo do povo, com o povo e para o povo. O que temos no Brasil é uma maioria despreparada devido à miséria, a um péssimo sistema educacional, pouca democratização dos meios de comunicação, etc. A democracia brasileira muitas vezes se apresenta de cabeça para baixo, minorias que influenciam a grande maioria.
O exercício da democracia é, porém, uma questão de prática. Neste caso, o poço só continuará produzindo água cristalina, á medida que a água for retirada e movimentada. Somente com mais participação, movimentação popular, fiscalização de nossos políticos e incansáveis debates sobre nossa realidade atingiremos uma consciência verdadeiramente democrática e nos libertaremos de uma oligarquia camuflada.
“A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente” (Soren Kierkegaard).