O Brasil precisa mudar de rumo para afastar-se da situação de vulnerabilidade em que se encontra por causa da atual política econômica. Precisa retomar o caminho do desenvolvimento, da distribuição da renda e da justiça social. Não é fácil realizar tudo isso. Mas a condição primeira para se conseguir é um Presidente da República comprometido com tais objetivos.
O Brasil tem o dever de resgatar a dívida social que contraiu com a comunidade negra e com quase 15 milhões de portadores de deficiências; com a grande maioria de nossas crianças e adolescentes, hoje privados de futuro; com os aposentados, homens e mulheres que trabalharam 35, 40 ou 50 anos e foram esquecidos.
O Brasil é um dos países mais injustos do mundo, porque sua economia só incorporou 20% da população. O 1% mais rico de seus habitantes é dono de 13,1% da renda nacional, quase o mesmo que os 14% distribuídos entre os 50% mais pobres. Dos seus pouco mais de 170 milhões de habitantes, cerca de 44 milhões sobrevivem abaixo da linha de pobreza definida pelas Nações Unidas. No setor agrário brasileiro, 1% dos proprietários possui quase a metade das terras do setor privado. O salário mínimo atual equivale a menos de US$ 60 e com essa mísera quantia subsistem quase 30 milhões de brasileiros, entre aposentados e trabalhadores da ativa. O Brasil está entre os países onde são maiores os índices de lepra, malária e aids.
Num quadro semelhante, o desafio econômico não pode ser enfrentado deixando de lado o desafio social. Não devemos repetir o erro do atual governo do presidente Fernando Henrique, que, segundo o credo neoliberal, imaginou que a aplicação de seu programa econômico solucionaria em sua esteira os problemas sociais, e fracassou nos dois planos. Para nós, o econômico e o social constituem duas dimensões inseparáveis e igualmente prioritárias do desenvolvimento brasileiro. O desempenho econômico durante os oito anos deste governo foi medíocre, já que o produto interno bruto (PIB) cresceu à média anual de 2,3%, um dos mais baixos de nossa história.
O Brasil precisa duplicar, no mínimo, esse ritmo de crescimento para gerar os recursos que tornem possível a criação de milhões de novos empregos nos próximos quatro anos. Isto é indispensável, não só porque temos mais de 11 milhões de desempregados, mas, também, porque a cada ano 1,5 milhão de jovens entram no mercado de trabalho. Com a incorporação à economia de grande parte da população que até hoje está excluída, uma nova fronteira do crescimento se abrirá, oferecendo novas oportunidades para a juventude e as empresas, que buscam mercados para aumentar a produção.
Todos os países desenvolvidos tiveram e têm um projeto nacional. Sobre essa base se integram ao resto do mundo, tanto em nível regional quanto mundial. É claro que devemos aproveitar os espaços abertos pela globalização. Mas, ao mesmo tempo, temos o dever de proteger nosso país dos riscos globais. A execução de nosso programa de governo refutará com fatos a propaganda conservadora que afirma que não existe uma alternativa ao neoliberalismo. Bem sabemos que é possível outra globalização na qual os interesses do capital estrangeiro estejam subordinados aos interesses da sociedade. (Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à Presidência da República pela coalizão Lula Presidente, liderada pelo Partido dos Trabalhadores