As altas temperaturas com médias acima de 30ºC obrigam a população a usar pouca roupa, de preferência as confeccionadas em tecidos leves e claros. Entretanto, alguns profissionais não gozam desse privilégio e enfrentam o forte calor sob trajes pesados, sufocantes. Os ternos usados até hoje são uma herança da alfaiataria inglesa, com pequenas influências de outros países europeus.
Os profissionais da advocacia são um bom exemplo de que não é fácil viver num país tropical e ter que usar trajes idealizados para o clima europeu.
O presidente da subsecção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Edson Reis, diz que é sufocante e causa até mal estar. “No Fórum não há ar-condicionado, só nas salas de audiência. Os advogados sofrem porque o calor está insuportável e os elevadores nem sempre estão disponíveis.â€
Ele explica que o traje é obrigatório para os profissionais do sexo masculino. “As mulheres advogadas sofrem menos porque podem usar vestidos de tecidos mais leves.â€
Segundo Reis, no fórum trabalhista o uso do paletó já foi abolido. “Usa-se camisa com gravata, mas o paletó não é obrigatórioâ€. O mesmo não foi adotado no fórum civel. “Só nas salas de audiência tem ar-condicionadoâ€, reclama.
O advogado ressalta, no entanto, que a indústria têxtil já avançou em benefício dos advogados. “As indústrias estão desenvolvendo tecidos mais leves que amenizam o calor. Os ternos ficaram mais levesâ€, admite.
Hábitos
Os hábitos das religiosas já foram adaptados para o clima do Brasil, conta a irmã Suzana de Jesus Fadel, professora do ensino médio da Universidade do Sagrado Coração (USC). “Nos países europeus os hábitos são longos, até os pés.â€
De acordo com ela, as religiosas usam dois tipos de trajes, um para o inverno e outro para as altas temperaturas. “No inverno usamos o traje escuro. No calor, o branco que é mais leve.â€
Os sapatos e as meias mais grossas do inverno dão lugar para sandálias e meias finas do verão. “Usamos meias cor da pele no calor. Deixamos os sapatos para usar as sandálias.â€
O peso e o tipo de roupa não atrapalha e nem sufoca, como muitos pensam. “Para nós é natural. Foi uma opção de vida que fizemos. Faz parte da nossa vida. Nunca discutimos outro traje.â€
Para as religiosas, de acordo com a irmã, o hábito é um sinal para a aproximação de pessoas. “Somos diferenciadas pelo hábito. A população reconhece a gente pelo traje.â€
Farda
O uniforme dos policiais militares composto de farda, botas e meia também não é muito adequado para o clima brasileiro. Os PMs que trabalham no litoral usam bermudas com tênis e camiseta, explica o comandante do CPI/4, coronel Hélder Pereira.
Ele admite que o fardamento antigo, de cor mais clara, era mais adequado para o clima bauruense. “A camisa cinza usada atualmente retém mais calor. Porém, não há estudos para mudanças.â€
O comandante do policiamento ciclístico, tenente Fabiano de Almeida Serpa, estuda um novo uniforme para o pelotão. “Para a atividade de policiamento ciclístico a calça já foi abolida, porque enrosca na catraca da bicicleta. A bermuda de elanca pode ser uma opção.â€
De acordo com ele, há um estudo sendo desenvolvido para adequar o traje para o policiamento ciclístico. “Ainda não concluímos, mas pensamos em manter as cores e mudar os tecidos porque os policiais rodam cerca de 15 a 20 quilômetros/dia sob forte calor.â€
Moda sem alteração
A moda social masculina não sofre alterações substanciais em sua estrutura há mais de 150 anos. Estilistas contemporâneos já tentaram mudar, mas a falta de adesão dos usuários obrigou-os a retornar no tempo e produzir aquilo que o público quer, ou seja, manter o traje sizudo, sério.
O coordenador da área de moda, professor do Senac, Odil Zepper, foi buscar na história a explicação para o uso de trajes não adpatados ao nosso clima. Ele explica que os ternos, por exemplo foram herdados da alfaiataria inglesa. “As golas vieram com os espanhóis, colonizadores que usavam as golas fechadas e o jabô, aquele pentilho de renda.â€
Zepper frisa que o homem chique de 1800 vestia roupas inglesas. “As roupas eram lavadas na Inglaterra. O homem dessa época tinha muitas roupas e as exibia para mostrar sua riqueza e seu poder. Eles usavam até cinco costumes (ternos) por dia, um em cada período.â€
A moda masculina brasileira sofreu uma reviravolta em 1960, conforme diz o professor. “Passou a adquirir identidade própria. O uso do jeans e da camiseta de malha quebram alguns tabus. O profissional informal tem opções de trajes mais tropicais.â€
Já nos anos 80, o conforto passa a ser prioridade na moda masculina e as mangas longas dobradas e as roupas mais folgadas passam a ser adotadas. Dez anos depois, o individualismos impera e cada um faz o seu estilo.