Uma das primeiras condições para garantir que uma informação seja adequadamente memorizada é que ela tenha um significado ao ser humano. Ela tem que ser útil ou, pelo menos, estar inserida num contexto funcional para que o cérebro considere a necessidade de armazená-la.
Na opinião da neuropsicóloga Maria de Lourdes Merighi Tabaquim, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC-Bauru), a memória tem uma relação direta com a aprendizagem e, portanto, com as vivências de cada um.
“A memorização é um registro destas experiências e quanto mais significativas elas são, maior é a possibilidade de retomada posteriormente. Mas se você não estabelece uma relação de significado, o cérebro não tem um trajeto para acessar aquele dado”, explica.
Tabaquim salienta que existem, basicamente, dois tipos de memória. A implícita é composta por registros inconscientes. “Se eu lhe der uma lista de palavras - vestido, camisa, jaqueta, paletó, blusa - e perguntar o que é manga, você imediatamente estabelece uma relação desta palavra com uma parte do vestuário”, exemplifica.
A explícita é aquela em que a pessoa estoca a informação porque sabe que vai precisar dela depois. Guardar a data de vencimento de uma conta, o lugar onde deixou a chave do carro, o número de telefone do namorado, o horário da missa são situações rotineiras neste sentido.
“Temos também a memória emocional, que ainda não é muito pesquisada e conhecida. São as evocações que acontecem sem você ter tido um registro. De repente, você se lembra de alguma coisa, isso desencadeia uma alteração de comportamento e você nem sabe porquê”, informa Tabaquim.
O medo é o melhor exemplo disso. Geralmente, a pessoa não se lembra de ter tido uma experiência ruim antes, mas só de imaginar a situação, o corpo todo reage. Ela nunca foi agredida por um cão, mas transpira e tem os batimentos cardíacos acelerados ao pensar no animal. É a evocação de um registro que não tem uma origem estabelecida.
“Então, o poder sobre essa capacidade de memorização vem das experiências que o sujeito tem. Ele pode recorrer a algumas estratégias e técnicas que direcionam melhor esses registros, mas vai estar sempre trabalhando com um potencial que ele já tem”, comenta a neuropsicóloga.
Segundo ela, o treinamento ajuda a pessoa a organizar o registro das informações. Assim, ela adquire uma habilidade que permite a evocação mais rápida daquele dado. Não significa que ela fica mais inteligente, apenas adquire algumas ferramentas que facilitam o processo.
Diversidade
A capacidade de memorização também está relacionada, de acordo com Tabaquim, com a diversidade de experiências de cada pessoa. Uma criança que tenha acesso a várias atividades intercaladas terá mais vivências e, portanto, estímulos. Isso vai exigir mais do cérebro e conforme ele trabalha, mais facilmente ele registra.
“A criança exposta a atividades ecléticas desenvolve mais habilidades. Se ela aprende música, não significa que ela será uma grande instrumentista, mas ela está assimilando conhecimentos. Uma criança carente culturalmente, privada de oportunidades diversificadas, terá mais dificuldade para se comunicar e se adaptar”, observa Tabaquim.
Ela destaca que tudo isso deve considerar as limitações individuais. Uma pessoa que tenha deficiência cerebral, por exemplo, não responderá integralmente mesmo que receba estímulos em dobro. Portadores do Mal de Alzheimer, que sofrem uma perda neuronal evolutiva, devem ser estimulados, mas não terão resultados ótimos.
“Por outro lado, numa patologia como o autismo, por exemplo, o sujeito decora uma infinidade de números, uma lista telefônica inteira em tempo recorde. Mas ele vai fazer o que com aquilo? Não é prático. Então, é preferível que ela tenha menos recursos, mas que saiba adaptar isso ao seu contexto e às suas necessidades”, completa.