A avalanche de músicas estrangeiras que, desde longos anos, invade o mercado das partituras brasileiras, sufoca a nossa cultura artística, pois assume as vagas que, normalmente, deveriam sobrar para as produções dos nossos autores. É realmente fora de série o uso de todos os ritmos estrangeiros pela fabulosa massa de cantores e instrumentistas patrícios, pois, não só adultos como crianças, de ambos os sexos, os aproveitam nas suas apresentações em “shows†nas escolas, nos palcos, no rádio, na televisão, no cinema e em todas as demais oportunidades que se lhes apareçam a qualquer hora, de manhã, à tarde, à noite e até de madrugada. Não têm mãos a medir no setor, parecendo seduzidos pelos sons que embalam os outros povos. E vão além, mostrando crianças, que mal sabem falar a nossa língua, entoando a plenos pulmões músicas com letras de inglês, francês, italiano e, pasme-se, até japonês. Em consequência, pouco tempo, relativamente, fica livre para os nossos diversos ritmos, os quais, no entanto, modéstia à parte, são elogiados inclusive por outras gentes esparramadas pelo mundo. Mesmo os que são divulgados por nossos grandes astros pouco espaço têm nas preferências da nossa maioria, exatamente porque são obscurecidos pela avalanche dos externos. Lembrem-se, por exemplo, dos belos motivos cantados por Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Agnaldo Raiol, Daniel, Leonardo e outras vozes bonitas e afinadas do nosso cancioneiro e os coloquem na balança das aferições mundanas. A conclusão é que o peso será bem ínfimo a favor dos nosso, haja vista a existência de sambas, valsas, canções, marchas, chorinhos, baladas etc, expressamente lindos e que, paradoxalmente, quase nenhuma divulgação têm, passando-se, então, para o esquecimento ou para as cinzas das coisas que só merecem as labaredas da vida. Seja por isso que as gravadoras estão cada vez mais gananciosas no terreno econômico-financeiro, gravando para cada 20 grupos de discos estrangeiros apenas um, unicamente, de todo o manancial brasileiro.
Haveria solução para o problema? Presumivelmente ela estaria no restabelecimento dos festivais de músicas populares a que o País assistiu, durante algum tempo, a partir da década de 60, quando nossas músicas eram profusamente entoadas em programas especiais nas radio-emissoras e nos palcos quase todo dia ou de noite, arrebatando a todos genericamente, inclusive, prendiam as populações em seus lares, livrando-as das violências urbanas que, naquela época, felizmente pouco aconteciam, pois não tinham entrado na moda que hoje impera. Consideramos uma boa pedida o retorno dos saudosos festivais, seja para proveito dos ouvidos da gente, seja com a finalidade de revitalizar o cancioneiro patrício, reduzindo as invasões advenas. É a nossa opinião. E seria, igualmente, a dos leitores? (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)