Tribuna do Leitor

Como nos tempos de garoto


| Tempo de leitura: 3 min

Foi aos 10 anos que eu, pela primeira vez, coloquei os pés na sala do diretor. E a culpa era toda do Nando, diziam meus colegas que ali também estavam. Era verdade que daquela vez o garoto tinha passado dos limites, mas ter quebrado a cara dele pareceu-me não ser a melhor forma de dar-lhe uma boa lição. Nando era o tipo do garoto-problema, mas não havia ninguém que conseguisse apontar problemas em seu modo de agir. Nossa turma nunca gostou muito dele, mas não sei por que, ele estava sempre conosco. Lembro-me como se fosse ontem daquele campeonato de futebol, em que precisávamos de uniformes, e a única forma de Nando nos emprestar as camisetas era admitindo-o no time titular. Ele era atrapalhado com a bola e marcou um gol contra na fase eliminatória. É impossível esquecer que ele respondeu às nossas reclamações chamando-nos de interesseiros e falando que o colocamos no time só com o interesse de usar suas belas camisetas vermelhas. E nós, apesar de contrariados, acabamos dizendo que ele estava com a razão. Quando ficamos mais velhos, Nando foi o primeiro a comprar seu próprio carro. Era horrível ter que ir às festas com ele, mas era o único jeito de não irmos a pé. Antônio e Carlos, dois de meus amigos, eram ótimos dançarinos e faziam o maior sucesso nas noites de festa, e por isso nosso grupo estava sempre cercado de garotas. Era por causa delas que Nando estava sempre conosco e fazia questão de levar-nos aos lugares mais bem freqüentados da cidade. Essa foi uma época boa, até que uma noite Nando nos deixou só com a sola dos sapatos para voltar pra casa. Sem as garotas e sem a carona. Daquele dia em diante declaramos Nando nosso inimigo, mas ele já era muito popular e tinha amigos e belas amigas por toda a cidade. Algum tempo depois fiquei sabendo que Antônio e Carlos tinham voltado a sair com ele. Hoje, mais de 30 anos depois da última vez que conversei com Nando, ele, adivinhe só, é presidente do País. Já está no segundo mandato, depois de conseguir a reeleição. Eu também não tenho do que me queixar. Fui bem sucedido no ramo empresarial e mantenho negócios na Bolsa. Mas a verdade é que na minha vida ainda repercute a vida do Nando. Foram os meus interesses, e os interesses de outros como eu, que mantiveram Nando no comando do País durante esses mal vividos anos. Ele tem o poder. Não sei o que acontece, mas o meu sucesso parece depender dele, como nos tempos de garoto. Ele lança um plano econômico e eu apóio, porque é o meu dinheiro que está em jogo. Ele faz novos acordos internacionais e eu me dou mal, porque apoiei seus planos. E ele continua marcando gols contra e me deixando sem carona na porta da boate. Nando é persuasivo. E, um idiota. Tornei-me escravo por opção. E ainda continuo dizendo que ele está com a razão. (Rafael Guimarães Pedroso - Rafael Crivellari Saliba Schouery - Rodrigo Marques Zen - Alunos do CTI-Unesp-Bauru)

Comentários

Comentários