Recorro a Jung, já que Freud não explica o fenômeno Lula. Segundo o sábio suíço, o inconsciente coletivo é marcado pelo o que ele chama de “conteúdos arquétiposâ€. A gente já nasce com eles. Em qualquer cultura, por exemplo, as pessoas torcem pelo mais franco, sonham com a ascensão social e mesmo que isso seja difícil acabamos nos realizando com o sucesso dos outros. As novelas têm sucesso por carregar esses conteúdos. Isso explicaria porquê milhões de eleitores escolheram o Lula. Certamente viram no ex-operário, no ex-pau-de-arara nordestino, no ex-sapo barbudo admirador de Fidel Castro e Hugo Chávez uma projeção do sonho não realizado de ser presidente ou de vestir ternos de grife. Nada a ver com desejos de mudança ou desgosto com a política econômica de FHC.
A Oriana Curitiba, paradoxalmente paulista e torcedora do Palmeiras, uma devoradora de livros, demonstra que eu estou no autor certo, mas na teoria errada. O que explicaria o sucesso de Lula é o princípio da enantiodromia de Jung. O homem em direção a um estado de consciência superior tem que superar a tal enantiodromia que significa “correr na direção opostaâ€. Esse mecanismo do inconsciente faz com que certas pessoas ao lerem uma tabuleta onde se diz “não pise na grama†se sintam na irresistível obsessão de contrariá-la. De tanto alardear que o Serra é o mais capaz, o mais preparado e em melhores condições de governar que o seu adversário, o povo decidiu contrariar a propaganda. Se o Brasil se transformar numa Argentina, dançaremos tango. Oriana, com suas luzes junguianas assegura que Lula é o sujeito que personifica com seu discurso inarticulado o poderoso impulso em direção à grama.
Serra não deverá se conformar facilmente de perder para o Lula. Logo para quem? Não que sejam inimigos. Pelo contrário. Eram tão amigos a ponto do candidato do PT indicá-lo para ser ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco. Quem vetou foi o então senador Fernando Henrique Cardoso. Quando Roseana Sarney despontava como possível adversária de Lula no segundo turno, Serra confidenciou que subiria ao palanque de Lula. A campanha nunca teve baixarias inomináveis. Serra, é verdade, tinha que inventar algum defeito no adversário e propagou o seu despreparo. O Lulinha paz e amor desarticulou a estratégia. De nada adiantou passar a imagem do candidato da continuidade que se opunha ao continuísmo. Ninguém entendeu. Quando passou a disputar o título de candidato da mudança e das esquerdas Lula já havia ocupado esse lugar. Claro que Serra é um político competente, sério, honesto e ético. Continuará sendo um bom nome, mas terá que aguardar outra oportunidade. A exemplo de Lula, três vezes derrotado.
Torço para que a eleição de Lula neste domingo tenha resultados positivos no contexto internacional. Será uma demonstração da estabilidade democrática de um País que enfrentou uma seqüência de golpes e insurreições desde a proclamação da República. Apenas três presidentes eleitos passaram o cargo ao seu sucessor. O Brasil está dando um exemplo de democracia para o mundo, pelo momento histórico, pela mudança política sem sobressaltos, pela participação do eleitorado, pela informatização do pleito. Amanhã será assunto de capa em todos os grandes jornais do mundo. A democracia é para o bem e para o mal, o regime da maioria silenciosa. Cumpre respeitar a sua vontade, por mais que nos julguemos iluminados por uma outra verdade. Se der vontade, pise na grama. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)