Um novo comportamento está sendo assimilado pelas empresas, a exemplo das grandes organizações que já enxergam em um especialista em terapia a saída para resolver seus conflitos internos.
Um dos mais renomados psiquiatras do País, Paulo Gaudêncio, afirma que “infelizmente, nem todas as organizações têm essa consciência e tratam seus profissionais como coisasâ€.
Em Bauru, essa tendência já está presente em algumas empresas. Uma agência de publicidade resolveu inovar e, além de fazer o trabalho de desenvolvimento humano que a maioria das empresas realiza, contratou um psicólogo que uma vez por semana fica à disposição dos funcionários para dar suporte e conversar.
A diretora administrativo-financeira da agência, Lauricy Simão, revela que os diretores da empresa resolveram adotar a medida para motivar seus colaboradores, que usam a criatividade como matéria-prima.
“O lado pessoal do ser humano é completamente vinculado ao profissional e a satisfação ou insatisfação estão intimamente ligadas. Optamos por um psicólogo para justamente trabalhar em nossos colaboradores esse conceito do todo e tentar fazer com que isso resulte num equilíbrio maior.â€
Por se tratar de uma empresa de pequeno porte, a diretora aponta que os relacionamentos nunca são puramente de amizade e companheirismo. Existe uma disputa, que considera saudável, mas a partir do momento em que se a situação se desequilibra, pode gerar intrigas e atitudes antiprofissionais.
“Queremos mostrar que se um lucrar, todos vão lucrar, desde que estejam todo unidos pelo mesmo ideal. Em princípio houve resistência, agora todos viram o nosso propósito e começaram a se soltar. Mas nós acreditamos muito no resultado desse trabalho a médio e longo prazo. É um investimentoâ€, avalia.
Amizade
O psicólogo que atua na agência, Romeu Mira de Assumpção revela que busca estabelecer na empresa uma integração sólida em nível de amizade, amor, trabalho e produtividade, descobrindo estratégias que possibilitem a renovação contínua dos homens e da organização, acreditando que tudo está em mudança.
Assumpção encara este processo como uma situação dinâmica. “As pessoas mudam a cada minuto e a empresa também. É preciso estar sempre renovando. Um funcionário satisfeito consigo mesmo, com certeza vai ser mais satisfeito e mais integrado na organização.â€
Entretanto, o consultor organizacional aponta que o comportamento do profissional só muda a partir do momento em que for visto como pessoa, e não como coisa, pelo empregador. Ele não pode ser encarado como funcionário, mas sim como colaborador.
“O ser humano é um todo, total e integrado. Neste sentido, não existe aquela história de estar com um problema e deixar a malinha fora do trabalho e fingir que nada aconteceu. Por exemplo, um colaborador que está passando por uma crise de um relacionamento afetivo não vai ter o mesmo desempenho, do colaborador que está integrado e super resolvido.â€
O método de atuação do psicólogo consiste numa entrevista com os proprietários, seguida de entrevistas individuais com cada colaborador tratando o perfil psicológico, os anseios, necessidades e queixas de cada um. Traçados estes perfis começa um trabalho de grupo, sem imposição.
“Mas para que uma empresa adote esta sistemática, precisa estar muito sensibilizada pelo fator humano e encarar os custos como investimento. Buscando o desenvolvimento econômico-financeiro através da valorização humana, criando um ambiente estimulador de idéias, sonhos e ações, bom para trabalhar e desenvolver a essência da empresa de forma integrada moderna e humanaâ€, comenta.
Para que o processo dê certo, o ideal é que nada seja imposto, pois a resistência dos colaboradores também é grande.
Segundo Assumpção, a maior angústia no trabalho hoje tanto do funcionário quanto do empregador é a melhoria da qualidade de vida e da busca da felicidade dentro da integração.
Dessa forma, o psicólogo aponta que é possível se ter amigos de verdade dentro do ambiente de trabalho, não apenas colegas-concorrentes. Mas o princípio desta amizade está no respeito à individualidade de cada um.
Recompensa
Em uma indústria de utilidades domésticas de Bauru, o trabalho de desenvolvimento de pessoal começou há três anos com treinamentos periódicos para os colaboradores.
Permanentemente existe o acompanhamento psicológico feito pela analista de recursos humanos da empresa, Débora Morales Massarente Bincoleto, formada em psicologia, que coordena o trabalho. “A empresa se preocupa com a saúde e a integridade física e mental de seus colaboradoresâ€, comenta.
Nesse sentido, apesar de não ter como realizar tratamento dentro da empresa é a psicóloga que faz os encaminhamentos e as orientações necessárias. Ela conta que o trabalho é extensivo aos filhos dos funcionários.
“Os colaboradores têm total liberdade e sabem que estamos aqui à disposição. Dessa forma, a gente percebe a gratidão e a confiança depositada na empresa. Ele não vem simplesmente fazer o trabalho dele e vai embora.â€
Débora revela, ainda, que os próprios companheiros ao perceberem um problema com alguém já manifestam a necessidade de ajuda e isso também ocorre não só com os problemas pessoais, mas com questões financeiras.
“Eles sabem que têm um porto seguro e, independente do que for, estamos prontos tentar a ajudar no que for possível. Em contrapartida, eles não vêm aqui apenas para bater cartão, trabalham com prazer.â€