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Ninguém segura o Mauricio

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 10 min

O desenhista Mauricio de Sousa é um senhor de respeito. Aos 67 anos, com aparência de 45 e jeito de menino, é pai de mais de 200 personagens que já fazem parte da vida de pelo menos três gerações.

Incansável, Mauricio é capaz de dormir apenas duas horas e meia por noite, mas passar mais de seis horas dando autógrafos e fazendo desenhos da Mônica, Cebolinha, Bidu, Cascão, Chico Bento e cia. a pedido do leitor. (Ele leva 13 segundos para desenhar o Cebolinha e 15 para a Mônica).

O homem que transformou seus sonhos em profissão e que alimenta o imaginário de milhões de pessoas, não pára. Comanda milhares de pessoas com jeito de pai e não se deixa levar pela condição de mito. Quer desenhar até os 90 anos, mas antes disso sonha em ajudar o Brasil na alfabetização de crianças, com personagens e histórias que nasceram do seu traço e sentimento.

Jornal da Cidade - Você começou a desenhar na infância e continuou. Mas teve um momento ou um desenho em que você parou e disse: - Agora vou fazer isso, desenhar? Mauricio de Sousa – Foi quando eu fiz a primeira série de tiras do Bidu para jornal, na Folha de São Paulo. Até aquele momento eu era repórter policial, fazia charges e ilustrava algumas matérias da Folha da Tarde. Mas era uma coisa meio vaga. Quando vim para São Paulo, eu queria ser desenhista, mas não tinha condições. Fui repórter por três anos e enquanto isso, desenvolvi um pouco mais a técnica. Um dia, fui para casa e produzi a minha primeira série de tirinhas e decidi que ali era o começo de tudo. Eles aprovaram a série para publicação, eu pedi demissão e virei desenhista.

JC - Você resolveu arriscar viver da arte? Mauricio – Resolvi e descobri que fazer uma tira diária para o jornal rendia um salário e eu já tinha mulher e duas filhas. Precisava então de duas tiras. Da história do Bidu, eu tirei o Cebolinha fiz a segunda tira. Descobri que estava devendo por conta. Foi aí que surgiu o Piteco. Tinha três tiras diárias e a vida virou uma loucura. Estava ficando louco com ter que criar, desenhar e cumprir os horários do jornal. Foi aí que pensei em alterar o processo e ter alguém que me ajudasse a fazer o trabalho mecânico. Marcava com um xis onde tinha que passar tinta preta e a pessoa passava. Esboçava os balões e a pessoa desenhava. Mas eu trabalhava na redação e não podia contratar ninguém. Foi então que me mudei para Bauru, em 1960.

JC - Foi boa a sua vida em Bauru? Mauricio – Eu tinha parentes aí e achava que iria ter cobertura. Comecei a trabalhar em Bauru e produzir para mandar para São Paulo. Foi em Bauru que nasceu a minha filha Mônica, que deu origem ao personagem e em Bauru também criei o Horácio. Mas a cidade ficou muito longe e eu andava de trem. Passei dois anos em Bauru e resolvi ir para Mogi (das Cruzes). Lá nasceu a Magali e lá começou todo o processo e o sonho de montar alguma coisa em São Paulo. Mogi também acabou ficando longe, o telefone não funcionava... e acabei vindo para São Paulo, onde comecei a saga.

JC - E qual o tamanho desta história hoje? Mauricio – São 200 personagens, 100 em linha e 300 pessoas envolvidas diretamente. Mas indiretamente, são 160 empresas ligadas ao nosso trabalho. Então, posso dizer que existem milhares de pessoas trabalhando comigo. Temos 12 publicações mensais entre revistas em quadrinhos e de atividades. As tiras de jornal precisam ser reavaliadas, mas estão em cerca de 40 jornais no Brasil. Em mais de 20 só nos Estados Unidos. No Jornal da Cidade estamos desde o primeiro exemplar há 36 anos.

JC - Há alguns anos, numa entrevista ao Jim Davis, criador do Garfield, ele comentou ser apaixonado pelo seu traço e pela Mônica. Como você avalia seu trabalho no mundo? Mauricio – O Jim Davis gosta muito de mim e eu também gosto dele, é recíproco. Mas ele queria que eu desenhasse a revista dele e eu não tive tempo de fazer. O Jimi Henson também me propôs a mesma coisa. Mas nos dois casos abortamos os projetos e ficamos na amizade.

JC - Como você lida com o fato de saber que milhões de pessoas lêem suas histórias, amam seus desenhos e se identificam não só com os personagens, mas com você, que é um ídolo? Mauricio – Ídolo é um negócio meio mito. Mas para eu não ficar muito metido e nem com os louros ao redor da minha cabeça. Eu apago tudo isso. Eu fecho a grande angular e focalizo a pessoa que está falando comigo, a pessoa que está pedindo um desenho, o leitor que está naquele momento na minha frente. Eu dou uma esquecida do em torno e me dedico àquela pessoa. Com isso, eu fico um pouco mais tranqüilo, pois é como trabalho no meu processo, sempre como se estivesse falando com um amigo ou filho, que a gente acredita e gosta de estar junto com ele.

JC - Mesmo com uma multidão à sua espera? Mauricio – Eu acredito que as pessoas que estão ali vão dar um jeito para que eu possa atendê-los de um em um. De um em um, você consegue fazer qualquer coisa. Isso vale para a vida, para a guerra ou a batalha. Você tem que se concentrar em atender ou enfrentar sempre de um em um.

JC - Já que entrou na guerra, com o bombardeio da mídia eletrônica como ficaram os gibis? Eles perderam território? Quais as suas armas nesta batalha? Mauricio – Hoje o artista ou o criativo tem que estar de alguma maneira administrando as relações com o público. Não é uma iniciativa de oportunismo e sim de adular o sucesso, fazendo com que ele vá para frente, sem espernear e sem dormir. Para isso é preciso trabalhar muito, ler muito e estar sempre bem informado sobre as coisas que acontecem no mundo.

JC - Mas você tem tempo para fazer isso? Tem tempo para ver o trabalho de um desenhista que você goste? Mauricio – Eu tenho que fazer isso. Gostaria de fazer mais. Muitas vezes eu passo na banca, compro umas publicações e deixo no criado-mudo. Vejo também as tiras de jornal. Eu sou um desenhista de tiras de jornal é o que gosto de fazer, tenho hoje uma facilidade incrível e ainda quero ter tempo para voltar a fazê-las. Eu ainda sou capaz de fazer mais e melhor do que qualquer desenhista da minha turma. Isso me permite não fazer e orientar o pessoal para fazer bem feito.

JC - Todo mundo que trabalha com você tem aquela coisa de trabalhar com “o Mauricio”? Mauricio – Tem sim. Mas sou muito participativo. Mando e-mail, dou sugestões e quando não aprovo alguma coisa e recebo um “mas por quê?” como resposta, sento ao lado e desenho, mostrando como se tem que fazer. A porta da minha sala é aberta. A sala de reunião ao lado também tem porta aberta e seja em qualquer reunião com qualquer pessoa, qualquer desenhista está autorizado a usar a porta aberta e me fazer uma consulta. Eu faço isso e o único problema que tenho é com as secretárias profissionais que contrato que acham isso um desaforo (risos). Mas me permito falar mais e melhor com o máximo de gente possível.

JC - Quantas horas por dia você trabalha? Mauricio – Ah! Enquanto eu estou acordado (risos).

JC - Então deve ser daqueles que dorme duas horas e meia por noite? Mauricio – É, eu tenho dormido pouco. Ontem (segunda-feira) eu fiquei avaliando o projeto de um livro que nós vamos rodar em conjunto com um outro escritor e excepcionalmente saí onze e meia. Mas sobre o projeto ainda não vou te contar agora, é segredo.

JC - Você está com 67 anos, dorme pouco e parece um menino de 45. Você deve seguir dietas milagrosas, faz tratamento com pozinhos mágicos... Mauricio – Muito obrigado, muito obrigado. Mas faço ginástica de manhã quando dá tempo e tenho um médico que me acompanha há uns 17 anos, quando descobri que sou hipertenso. Ele me faz a cada ano, ano e meio uma bateria de exames e me passa alguns suplementos e vitaminas de acordo com cada momento. Ele trabalha com medicina ortomolecular e é muito bem informado e me sugere coisas que previnem uma série de causas de problemas. Agora está tudo niveladinho!

JC - E você cada vez mais moço... Mauricio – Mais moço eu não sei, mas eu estou ficando é sabido de tanta coisa que ele me dá para ler. (risos) Eu preciso me cuidar! Porque eu gosto do que eu faço, quero continuar fazendo e tenho muita coisa para fazer ainda. Eu tenho essa responsabilidade para comigo mesmo.

JC - Como contador de histórias, se pudesse você teria vida eterna? Mauricio – (risos) Não, não. Alguém tem que fechar a cortina de vez em quando. Mas eu acho que na minha atividade, que é intelectual e ao mesmo tempo psicomotora e que precisa funcionar certinho para desenhar bonitinho. Eu imagino que vá chegar, como meu ídolo Will Eisner, criador do Spirit, está chegando, com 80, 90 anos em plena atividade.

JC – Nesse ritmo todo o que vem por aí? Mauricio – Estou pensando em fazer uma exposição interativa com tudo sobre as histórias em quadrinhos, com alguma coisa eletrônica, algumas brincadeiras. Estamos com um projeto de parque temáticos nos shoppings, que são o início de um processo para fazer parques menores. Nós estamos fazendo uma oficina de fabricação de brinquedos para estes parques. A proposta de levar os parques para o exterior está aguardando uma resposta da economia mundial. Mas quando retomarmos o projeto, tudo indica que o nosso próximo parque temático seja na Itália. Em cinema temos dois projetos de longa-metragem, um deles ficará pronto no ano que vem, provavelmente o Horácio em computação gráfica e quero fazer um projeto com crianças, mas estou esbarrando numa resistência interna dentro dos estúdios. Estou também planejando uma série de programas de televisão dirigidos à pré-escola e a alfabetização. Esse projeto era para ter sido feito a algum tempo, mas agora tem que sair no ano que vem. O Ministério da Educação já deu seu aval. Mas se perdurarem as pesquisas, pessoas ligadas ao novo governo, pessoas que estão na lista dos ministeriáveis, acenaram em assinar o projeto como programa de governo. Isso é uma boa, pois existem 12 milhões de crianças em idade pré-escolar sem acesso à escola, mas com televisão. Vamos transformar aparelhos em professoras eletrônicas, mas com categoria, viço, humor e a turma da Mônica.

JC - Para finalizar, existe algum personagem que você gostaria de criar e ainda não criou? Mauricio – Um personagem que eu queria lançar em revista, e que provavelmente não vou conseguir é a Tina. A Tina, o Rolo, a Pipa essa turma toda. Primeiro porque eu não sou jovem para escrever para o universo em que eles vivem. Teríamos que ter roteiristas mal saídos da adolescência. Mas daí surgiu um problema mais sério, essa tribo toda de 15, 16, 17 anos muda de línguas e costumes a cada seis meses. Acabei de ler no jornal que neste verão as meninas vão mostrar a calcinha. Até agora os meninos mostravam a cueca. São esses modismos que daqui a seis meses mudam tudo, e as nossas revistas são feitas de nove meses a um ano, consequentemente em seis meses tudo o que fiz já envelheceu. A garotada vai comprar a revista e vai dizer que o “Tio está por fora”. A idéia é levar para jornal e internet. Aliás, acho que a história jornalística será o que vem aí depois, principalmente em cima do on-line. As revistas e editoras vão ter que dar um jeito para também sair numa velocidade maior. Vai ser uma loucura, mas tudo bem.

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