Cultura

Janela aberta

Por Itamir Crivelli | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 2 min

O recanto era muito agradável. Uma chácara dentro da cidade. Lá desfrutávamos do convívio de pessoas simples (como nós), que lutavam pelo dia-a-dia. A praça, onde ficava a capela de Nossa Senhora Aparecida, era o refúgio da garotada.

O lugar era aberto à comunidade. Ninguém nos fiscalizava ou determinava o que fazer. Simplesmente jogávamos peão, búrica, futebol com bola de meia, e o tempo passava. Da capela resolveram construir uma igreja. Levou tempo.

Também, durante a construção, desfrutávamos de um lazer sincero, leal e cristão. Terminaram a construção da igreja (igreja nunca termina). Que maravilha. Depois vieram a revolução, o progresso e tudo o mais para nos tirar a tranqüilidade. Sanite, Tibidoi, Armandinho e tantos outros. Dona Viola com seus filhos, Mariquinha, Yolanda, Armando...

O Matadouro Municipal era onde hoje está o Jardim Santana. Lá comandava o sr. Ezídio Bastos, homem de pulso firme, destemido, que deixava o local como um brinco. Limpíssimo. Na rua Araújo Leite existia o açougue do “Chico Gabriel”, pai do dr. Nicola e do Jadir.

Tinha também a irmã, a Igéia, dotada dos maiores predicados de beleza. Deus foi-lhe farto e não poupou capricho. Tinha também a Branca Bichusky, outro monumento de escultura que a todos extasiava pela exuberante beleza. Lamentavelmente deixaram-nos prematuramente. Deus sabe o que faz, com certeza.

Os anos passaram, como tudo sucede no mundo e na vida. Por isto diz a Bíblia que há tempo para tudo.

E daquela bucólica Bauru, do meu saudoso bairro, pouco ou nada restou. A Rodoviária ocupou a chácara do senhor Manoel. A Bauruauto substituiu a White Martins. A praça da igreja está cheia de edificações e escolas.

É o progresso limpando os resquícios de um passado glorioso, cuja recordação muito nos enternece. Mas, foi lá embaixo que nasceu Bauru, foi na Lagoa do Ministro, onde o Rio Bauru transbordava com as chuvas torrenciais que ainda continuam destruindo Bauru, que tudo começou.

Ah! Bauru da minha infância. Quanta saudade sinto ao abrir esta janela para o passado que não volta mais. Relembrar é bom, mas vamos continuar com o progresso, que é ótimo, mas que se modifica muito rapidamente, sem dar tempo para saudade. Até breve. (O autor é advogado e colaborador de Ju Machado, Escritório de Arte)

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