Tribuna do Leitor

JEITO SUADO DE LEVAR A VIDA


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Meu pai, de forma generosa, me cede anualmente uma quantia “x” para minhas despesas anuais, tudo dentro de um planejamento, que previamente estabeleço com ele. É evidente que puxo esses valores lá para cima, pois ninguém gosta de trabalhar/viver com a corda no pescoço. E toco o meu ano com aquele dinheirinho. Faço tudo o que tenho que fazer e algumas coisinhas mais, pois é para isso mesmo que viemos a esse mundo. Só que, esperto que me acho ser, por mais que invente gastos, sempre ao final de cada ano tenho uma considerável sobra de valores no caixa. E daí sempre me bate uma questão: que fazer com isso? Devolver é coisa que não me passa pela cabeça, pois se assim o fizer, com certeza, no próximo ano terei reduzida minha cota anual. É a lei do mercado e do mundo atual, o dos ditos espertos. E quando chega esse momento, tenho que fazer o diabo para gastar aquela sobra. Compro um monte de coisas supérfluas, desnecessárias, porém necessárias para que não se altere a lei dessa vida. E, dessa forma, vou enchendo minha casa de penduricalhos mil, renovando meus bens materiais, tudo à custa de meu santo paizinho, que arca com tudo resignadamente. E na hora da prestação de contas, tudo está lá devidamente registrado, como de prioridade máxima, com preços superfaturados, seguindo uma lei que eu mesmo criei, que acertadamente denominei de “responsabilidade fiscal e administrativa”. Meu pai, que de bobo não tem nada, sabe das artimanhas que faço, finge ser enganado e eu finjo enganá-lo, com tudo continuando como dantes nesse lindo joguinho de cena. Ambos não têm muita coragem de melindrar o outro, pois essa relação de pai e filho sempre é muito generosa e quando são evitados os conflitos, melhor para as partes. É assim que eu vivo, com ano após ano tendo que refazer meu “planeja aumento” (sempre para mais). Vocês, simples mortais, conhecem algum sistema similar em funcionamento no momento? Se por acaso tiverem conhecimento, me avisem, pois tenho o maior interesse em aperfeiçoar cada vez mais, esse meu requintado modo de ganhar a vida. Cartas para a redação, por favor. (Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2)

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