A sociedade brasileira assiste assustada e estarrecida a um ato de barbárie de uma jovem. A humanidade assiste perplexa a mais um ato de desumanização. É o caos. Será o fim do mundo? E a jovem Suzane acaba com a vida dos próprios pais em nome de um suposto amor. E todos se perguntam, apelam para o senso comum, arriscam reflexões filosóficas, numa tentativa de compreender tamanho ato de horror. E nós, como educadora, ousamos também fazer uma breve análise, buscando entender, justificar ou até perdoar, talvez.
Na segunda metade do século XX, na era pós-industrial, assistimos ao surgimento de uma sociedade fundamentada nos moldes positivista, mecanicista, fragmentado, onde ocorreu o culto ao intelecto, à razão, ao corpo, à matéria, ao consumismo, às ciências formais e nós nos deparamos com o embrutecimento dos homens pela racionalidade e objetividade. Ora, isso refletiu enormemente nas instituições educativas, nos meios de comunicação, resultando num culto ao individualismo, numa competitividade, pois o capitalismo selvagem do ter superou a formação do ser. E ao lado disso, houve a desestruturação da família, não só dos mais pobres, pois os pais estão cada vez mais ausentes da vida dos filhos, a igreja deixou de dar direção moral às novas gerações, as comunidades sumiram nessa era pós-moderna, as cidades se transformaram em amontoado de pessoas fisicamente próximas sem qualquer forma de organização humanitária, os mais velhos não passam mais sua sabedoria aos mais novos. E essa responsabilidade social caiu nas costas da escola, que na sua grande maioria só têm professores de matérias, conteúdos escolares, conhecimentos, habilidades e não têm professor de gente, de valores como a solidariedade, a fraternidade, a empatia, a colaboração, a convivência com o outro, a emoção, o afeto, a compaixão, só há formadores de mentes, não de corações.
Infelizmente, muitos pais deixam a responsabilidade total da educação de seus filhos para as escolas e os meios de comunicação, não selecionando nem as escolas e muito menos os valores deturpados passados pela grande maioria da mídia.
E assim, a jovem Suzane não obteve a sua socialização primária no âmbito familiar, conseguindo sim a satisfação de todas as suas vontades materiais, desenvolvendo em seu caráter, um exacerbado egocentrismo a ponto de eliminar os próprios pais, obstáculos aos seus desejos. No momento certo (do nascimento à adolescência) não lhe ensinaram limites, a compartilhar, a respeitar o outro, a amar incondicionalmente.
Devemos culpar somente essa jovem ou não terá chegado a hora de revermos nossas visões de mundo, de homem, de educação, de sociedade? Não caberá também à escola rever a sua posição e perceber a enorme responsabilidade social que lhe compete nesta sociedade desumana e cruel? Não será preciso introduzir no currículo das escolas as artes, a música, a poesia, a dança, a literatura, para produzir emoção, sentimento, e outros valores adormecidos na nossa juventude? Estaremos sendo professores totais, escolas totais, para cobrir essa grande lacuna que é a promoção humana na educação? (Leda Fernandes Michellão - RG: 4.860.757)