RH & Tendências

Diretor do Centrinho defende a autonomia

João Pedro Feza(*)
| Tempo de leitura: 5 min

Dar autonomia, estimular o diálogo e acreditar na capacidade de sua equipe são alguns dos ingredientes que garantem o êxito da diretoria de Divisão Hospitalar do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP) - Centrinho, de Bauru. À frente desse setor está o professor associado Ruy Cesar Camargo Abdo, 51 anos.

Fiel às suas bases filosóficas, familiares e religiosas, ele destaca que o respeito e o reconhecimento do talento e esforço dos profissionais que estão à sua volta são “pontos vitais” que tornam o ambiente de trabalho mais agradável e produtivo ao mesmo tempo.

Não é pouca coisa: são 257 pessoas distribuídas por três diretorias técnicas do Centrinho/USP. Entre os serviços prestados estão desde aqueles de especialidade médica até os diversos procedimentos das áreas de enfermagem, diagnóstico e tratamento, além de residência em otorrinolaringologia e estágios em fonoaudiologia, fisioterapia e psicologia, totalizando 43 residentes e 30 estagiários.

“Nosso compromisso é servir ao próximo com uma humanização verdadeira, conquistada na prática do dia-a-dia e na integração entre profissionais e pacientes”, diz.

Confira entrevista a seguir:

Pergunta - O senhor começou cedo. Aos 22 anos, já era cirurgião-dentista pela USP e, aos 23, professor da Faculdade de Odontologia de Bauru. Essa precocidade na profissão foi determinante para o seu amadurecimento como chefe de equipe?

Resposta - Do ponto de vista meramente cronológico, não. É que, no início da minha carreira docente, atuava apenas como cirurgião-dentista no hospital. Só depois da pós-graduação (mestrado), em 1976, é que comecei a aprender a organizar trabalhos em equipe, graças ao trabalho no setor odontológico.

Pergunta - Em que momento o senhor descobriu que era melhor delegar do que simplesmente exigir?

Resposta - No momento em que foi aumentando de forma expressiva o número de funcionários para pleno atendimento das necessidades dos pacientes (mais de 55 mil cadastrados). É um processo que naturalmente também fez ampliar os setores sob minha responsabilidade. Dessa forma, como reação a uma situação nova, percebi que seria vantajoso para todos dividir funções para que a nossa estrutura funcionasse melhor e com uma autonomia verdadeira.

Pergunta - Qual é o perfil dos profissionais que compõem a sua diretoria?

Resposta - Posso assegurar que todos adotaram um perfil parecido no atendimento humanizado ao paciente e no convívio diário com os colegas. Diria que é um perfil profissional muito bem-embasado no tripé honestidade, justiça e transparência.

Pergunta - Como é o dia-a-dia no hospital?

Resposta - Para minha felicidade, é muito ativo. Afinal, além de dirigir a diretoria de Divisão Hospitalar, participo também da FOB como professor efetivo de graduação e pós-graduação. Aliás, quero dizer que essa troca de experiência só tem a acrescentar, a engrandecer a minha própria vivência.

Pergunta - Como agir diante de imprevistos, levando-se em conta que o trabalho não pode parar e o paciente não deve ser preterido jamais?

Resposta - O tempo, a boa fé e a boa vontade ensinam: nesses casos, é preciso agir com sabedoria. E sabedoria nada mais é do que a vivência acumulada de cada um. Portanto, uma vez frente-a-frente com fatos inesperados, é necessário manter o controle emocional, pesar prós e contras dos procedimentos que serão adotados em caráter emergencial e colocar não só a técnica, mas também o coração, a serviço da solução para aquele problema que surge sem avisar.

Pergunta - Qual a estratégia para harmonizar a convivência entre profissionais de especialidades diferentes?

Resposta - Primeiro, é preciso estabelecer um canal de mão-dupla com todos. Ou seja, da mesma forma que eu falo, também devo saber ouvir. Mas ouvir atentamente, com real interesse. Assim, com diálogo claro e ponderado, é possível manter um clima de gentileza mútua e de ações solidárias e prestativas no ambiente de trabalho, independentemente da especialidade que determinado profissional ocupa.

Pergunta - Em todos esses anos, qual foi a maior conquista e a maior dificuldade que o senhor já enfrentou?

Resposta - Na verdade, não existiu uma maior dificuldade específica. As dificuldades existem para fazer a gente crescer, avançar - além e apesar delas. Já a maior conquista ao longo do tempo foi o respeito que conquistei dos meus companheiros de trabalho. E também o enorme e sincero respeito que aprendi a ter por eles.

Pergunta - De que forma a religiosidade influencia sua filosofia de trabalho?

Resposta - Acho que a fé faz do ser humano um ser especial. Nesse sentido, a religiosidade produz um suporte ético e traz conforto espiritual para todas as horas. E ensina ainda que, em casa ou no relacionamento profissional, devemos sempre procurar compreender as atitudes alheias. Além de compreender e reconhecer os acertos dos outros. Acima de tudo, é preciso preservar nossos princípios, a nossa dignidade e o nosso caráter, que são marcas registradas de todo cidadão de bem.

Pergunta - Há algo que ainda não fez no Centrinho/USP e pretende implementar para o ano que vem?

Resposta - Sim, sempre há muita coisa ainda a se fazer. Mas não se trata de nenhuma medida drástica. São mais os pequenos e não menos importantes acertos do dia-a-dia para aprimorar a forma de atendimento e a interação entre os nossos profissionais.

Pergunta - Como o senhor imagina que o hospital do Centrinho estará daqui a 30 anos?

Resposta - Depois de tudo que já foi feito e levando-se em conta o trabalho atual, digno de reconhecimento dentro e fora do Brasil, só consigo ver o nosso hospital no futuro como um centro muito evoluído. Um local que terá acompanhado as inovações tecnológicas e aplicado as grandes descobertas da ciência em favor de pacientes de todas as classes sociais.

Pergunta - Por último, trabalhar pelo benefício alheio é...

Resposta - Uma escolha gratificante, de reconhecida utilidade e que deixa em nosso íntimo, quando as portas se fecham ao final do expediente, uma intensa sensação de dever cumprido.

(*)Especial para o JC

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