Existem cinco fontes diferentes para a ingestão de flúor: água, leite em pó, cremes dentais, suplementos e alguns produtos industrializados. Dentre eles, os dentifrícios e os alimentos são considerados os grandes vilões. Os alimentos porque não contêm no rótulo a informação de que possuem o elemento químico. As pastas porque a criança engole, quando deveria cuspir.
A pesquisadora Marília Buzalaf lembra que o flúor foi adicionado aos cremes dentais no Brasil a partir de 1989. “Desde então, houve um aumento muito grande nos casos de fluorose, que hoje acomete cerca de 30% das crianças no País. E continua aumentandoâ€, adverte.
Segundo ela, o problema dos cremes dentais é que quanto menor a criança, maior é a tendência de que ela engula a espuma. E a quantidade do elemento químico nos dentifrícios é muito grande. Em média, são 1,5 mil partes por milhão (ppm), ou seja, são 1,5 mil microgramas de flúor para cada grama de pasta.
“Para você ter uma idéia, se você colocar uma porção de pasta na escova na transversal, uma porção do tamanho de uma ervilha, vai dar meio grama, que seria mais ou menos 0,75 miligramas (mg) de flúor. Uma criança de dois anos, com 12 quilos, pode ingerir até 0,84 mg de flúor por dia. Então, se ela engolir uma porção desta de pasta, ela praticamente já atingiu o limite delaâ€, salienta.
A especialista afirma que a ingestão dos dentifrícios varia entre 10% e 100%. Adultos ingerem 10% ou menos, porque têm o controle, cospem a espuma toda e enxáguam a boca. Quanto menor a criança, mais dificuldade ela tem em entender e fazer isso.
Outro problema apontado por Buzalaf é que os cremes dentais vêm ganhando sabores cada vez mais atrativos. Os infantis, principalmente, imitam o gosto de balas e chicletes. “Eu já vi em congressos casos de crianças de creche que pegam um pãozinho, recheiam com pasta de dentes e comem, porque a pasta tem gosto de morango e passa muito bem por uma geléiaâ€, destaca.
Ela orienta que os pais apenas “sujem†a escova das crianças com o dentifrício, usando uma quantidade muito pequena e dando preferência àqueles com menor concentração de flúor em sua composição. E que instruam os filhos a não engolir a espuma e enxaguar muito bem a boca para eliminar todo o resíduo de produto químico.
Dentre os alimentos, uma das preocupações dos especialistas é com a preparação do leite em pó, principalmente os derivados de soja, que apresentam uma quantidade grande de flúor.
O ideal, segundo Buzalaf, é que estes leites sejam preparados com água mineral sem flúor, principalmente nos primeiros anos de vida da criança. Isso porque a água do abastecimento público contém entre 0,6 mg e 0,8 mg de flúor por litro.
Uma criança com dois anos de idade, que pode ingerir até 0,84 mg de flúor por dia, terá ultrapassado este valor se ingerir mais de um litro de leite por dia - o equivalente a quatro copos. Pior: nesta idade, as crianças já ingerem outros alimentos, já usam dentifrícios, ou seja, já têm outras fontes de flúor.
“O problema é justamente este, a somatória destas fontes. Se fosse uma só, seria fácil controlar. Mas a criança tem contato com vários potenciais causadores de fluorose todos os dias, dentro e fora de casaâ€, lamenta.
Industrializados
Outra fonte de flúor que vem sendo estudada pela FOB são os alimentos processados industrialmente. Muitos deles contêm taxas importantes do elemento químico, sem qualquer referência disso na embalagem. “Não existe uma legislação para isso, não existe controle da quantidade de flúor nos produtos, nem que obrigue o fabricante a informar este índice no rótuloâ€, observa Buzalaf.
Ela e seus alunos analisaram em laboratório vários produtos que podem aparecer na dieta das crianças. Entre eles, algumas marcas de achocolatados prontos para beber, cereais, iogurtes, sopas prontas, chás, sucos e bolachas recheadas apresentaram quantidade significativa de flúor em sua composição.
“Para uma criança de dois anos, cujo limite é 0,84 mg de flúor por dia, uma caixinha de achocolatado representa 40% de suas necessidades diárias. Três bolachas recheadas são mais 40%. E nós sabemos que muitos pais deixam o pacote de bolacha na mão dos filhosâ€, ressalta.
Ela observa que, com tantas fontes de flúor, é um absurdo que alguns pediatras e dentistas ainda prescrevam suplementos de flúor em comprimidos para crianças. Na opinião dela, os pais devem recusar este tipo de tratamento, que foi muito eficaz antes da fluoração da água e dos dentifrícios, mas que hoje é uma ameaça de superdosagem e fluorose.
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Controle é essencial
Para a pesquisadora Marília Buzalaf, a grande variedade de produtos potencialmente ricos em flúor exige uma atenção especial dos pais. Para prevenir a fluorose, é preciso controlar a dieta e os hábitos dos filhos, principalmente nos primeiros sete anos de vida.
Além dos biomarcadores e análises de laboratório, outro método que ela considera muito interessante e eficiente é a dieta duplicada. “Você dá um pote de dois litros para a mãe e orienta que ela despeje ali uma porção igual de tudo o que a criança comer ou beber naquele dia, inclusive água. Depois de 24 horas, a gente mistura tudo e analisa em laboratório para ver quanto de flúor ela ingeriu pela dietaâ€, explica.
Paralelamente, o profissional pede que a criança simule uma escovação dos dentes no consultório, reproduzindo as condições que ela tem em casa. Mede-se a quantidade de creme dental que o paciente ou a mãe colocou na escova e colhe-se tudo o que a criança cuspir após a escovação.
“Aí você analisa a quantidade de flúor deste material colhido e subtrai do total presente no creme dental inicialmente. Assim, você consegue descobrir qual é a ingestão diária de flúor daquela criança, na dieta e na escovaçãoâ€, comenta.