Tribuna do Leitor

Inversão de valores


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É inacreditável o que temos visto nos últimos dias! É impressionante o nível de violência a que chegou o ser humano! O pior é que a gente nem pode “se consolar” dizendo que ela é fruto da miséria, da fome, da falta de oportunidade... Não.

Que dizer quando uma filha de classe média alta mata os pais “por amor”? Pode existir algo mais equivocado, uma inversão de valores maior do que essa?

Que dizer quando dois membros do exército, vestindo um uniforme que deveria ser exibido com orgulho porque simboliza, em última análise, a defesa de um país, da sua soberania e das pessoas que nele vivem, o utilizam para extorquir e matar?

Realmente, deve ser o “final dos tempos”... isso só para citar dois casos...

Um que, aliás, muito me tocou.

Não conheci o Alberto tão de perto para dizer que existia laços de amizade entre nós; nos reconhecíamos quando nos encontrávamos.

Apesar de conhecê-lo “de longe”, indiscutivelmente ele me cativou.

Inesquecível o seu depoimento na Semana da Unidade dos Cristãos, há alguns anos, sobre como ele e sua mãe conviveram com o fato de serem cristãos de denominações diferentes, e como, acima de qualquer divergência, Jesus sempre reinou.

Impressionou-se a delicadeza, a dedicação e o amor que aquela pessoa dedicava àqueles que nem conhecia, saindo de seu país de origem para trabalhar na África e depois, num esforço de aprimoramento, vir estudar no Brasil para especializar-se em doenças tropicais, pretendendo voltar ao continente africano para cumprir a missão que havia se proposto.

Alberto é uma destas pessoas que a gente diz “de Deus” e tenho a plena convicção de que está no paraíso.Quando ele desapareceu e custou-se a ter notícias, e o pior era uma sombra bem concreta, ficava pensando comigo mesma, como seria possível dar sentido para algo tão horrível.

Depois veio a confirmação do que já se esperava... Como entender que uma pessoa que devota sua vida a viver o Amor e a fazer o bem – até as últimas conseqüências, como o foi o fato de aceitar dar carona – poderia perdê-la de um modo tão cruel e por um motivo tão torpe?! Trinta reais!

Impossível não pensar no dinheiro ganho por Judas! Impossível não pensar no sacrifício de inocentes que se repete infinitamente pelo mundo, pela crueldade daqueles que ainda não conhecem Jesus. A tentação de se perguntar “por quê?” é grande! Mas aprendi que ficar se perguntando os porquês da vida não leva a gente para lugar nenhum... É preciso dar um sentido... Perguntava-me então: para quê? A resposta não demorou muito a vir, pelas próprias notícias dos jornais: o movimento ao qual o Alberto pertencia irá levar o perdão e falar do amor de Deus aos dois assassinos. Quiçá, prestará auxílio às suas famílias, penso eu...

Transformar dor e tristeza em bênçãos... É só esse o caminho possível para que o mundo mude. Paradoxalmente, esses homens que não têm a menor sombra de Deus no coração, tendo feito o pior que se pode fazer nesta vida, talvez encontrem o seu caminho de salvação...

Os caminhos de Deus são mesmo insondáveis e misteriosos! Aos focolarinos e a todos que pertencem ao Movimento Focolares, minha solidariedade nessa grande perda, expressando o quanto lamento! Mas, além disso, preciso dizer também o quanto vocês são necessários a este mundo, o quanto são luz e sal! Sei que, apesar de sua dor, isso não os desanimará e encontrarão em Jesus abandonado as forças que precisam para continuar a evangelizar!

Possamos todos nós – enxergando, ver; e escutando, ouvir – que a humanidade está nos seus estertores; que cada um de nós é responsável em mudar o que está aí. Nada de grandes feitos, nada de grandes gestos. É ali, ó, na sua família, com seus vizinhos, na sua rua, no seu trabalho, na natureza à sua volta, que precisa ser cuidada para não morrer. Mudar com gestos de amor, com paciência, com compaixão, com caridade.

Lembrando que a humanidade precisa cultivar uma ética de responsabilização e do cuidado, encerro com uma frase de Leonardo Boff: “O que se opõe ao descuido e ao descaso é o cuidado. Cuidar é mais que um ato; é uma atitude. Portanto, abrange mais que um momento de atenção, de zelo e de desvelo. Representa uma atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de envolvimento afetivo com o outro”.

Possamos nós, Senhor, entender logo! (Marly Rodrigues Mendes Fernandes)

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