O tratamento da homeopatia baseia-se na cura pela energia que emana de todas as substâncias. Por isso, os remédios homeopáticos precisam ser manipulados, conservados e ingeridos com muito critério. Os cuidados são especiais desde a produção, que segue um verdadeiro ritual.
Durante a consulta, o médico faz um “interrogatório” com o paciente, tentando saber o máximo possível sobre a personalidade daquela pessoa. A partir destas características e dos sintomas relatados, ele determina quais substâncias devem constar naquele medicamento.
O farmacêutico vai colher amostras de cada um dos produtos solicitados. Eles são diluídos e macerados, sendo transformados no que se chama tintura-mãe: um concentrado daquele produto.
A partir daí, são feitas diluições consecutivas, sendo um mililitro (ml) da tintura-mãe para cada 99 ml de álcool absoluto. Essa mistura é chamada 1 CH (Concentração Hahnemaniana). Retira-se 1 ml desta mistura e dilui-se em outros 99 ml de álcool (2 CH) e assim sucessivamente, até chegar ao ponto em que haja apenas uma “memória” da substância original.
Farmacêuticos informam que, neste processo, o mais importante é a chamada dinamização. Cada vez que é feita uma diluição, o medicamento tem que ser agitado vigorosamente (sucussão) por 100 vezes. É isso que vai fazer com que a substância principal libere sua energia.
É essa energia que tem o poder de provocar a reação do organismo. Isso quer dizer que quanto mais diluída a substância, mais dinamizada ela foi e, portanto, melhores serão seus efeitos terapêuticos.
Os medicamentos homeopáticos podem ser comercializados em soluções alcoólicas, glóbulos de sacarose ou açúcar de cana, comprimidos ou pastilhas à base de lactose. Também podem ser produzidos em forma de pomadas, cremes, hidrolatos, óvulos vaginais e colírios.
De acordo com o médico homeopata Afrânio José Martinelli, os cuidados devem continuar após a compra do produto. Os remédios devem ser mantidos em seus frascos originais e muito bem fechados. Principalmente aqueles que são produzidos na forma líquida, que podem evaporar ou sofrer contaminação se não estiverem bem fechados.
Segundo o médico, os medicamentos homeopáticos devem ser guardados bem protegidos do sol, do calor forte, da luz direta e longe de aparelhos eletro-eletrônicos, como rádio, TV, forno de microondas, computadores, telefone celular e bips. A radiação dos aparelhos pode alterar o efeito dos remédios.
Também deve-se evitar guardá-los próximos a outras substâncias que exalam cheiros fortes, como perfumes, sabonetes, produtos de limpeza e inseticidas.
“Em casa, mantenha os remédios em local seco, ventilado e escuro. Por exemplo, dentro do armário de guardar pratos e copos. No carro, deve-se evitar a exposição ao sol, portanto, nunca deixe medicamentos homeopáticos no maleiro, porta-luvas ou console. E no aeroporto, não submeta o medicamento ao aparelho de Raio-X”, orienta.
Martinelli afirma que estes cuidados conservam os produtos ativos por vários meses. Os remédios homeopáticos preparados de acordo com as normas técnicas da Farmacopéia Homeopática Brasileira têm validade de dois anos.
Como tomar
“A energia do remédio homeopático é assimilada pela saliva. Por essa razão, deve-se deixar que dissolvam naturalmente sobre ou sob a língua. Na forma líquida, deve ser mantido na boca pelo tempo máximo possível antes de ser engolido. Isso é necessário para que sejam paulatinamente dissolvidos e absorvidos pela mucosa bucal”, informa Martinelli.
Para não comprometer a eficácia medicamentosa, o paciente não deve pôr a mão nos remédios. Os glóbulos devem ser despejados na tampinha do próprio frasco ou numa colher e ser colocados diretamente na língua. As gotas podem ser pingadas diretamente na boca ou diluídas em um copo com um pouco de água filtrada.
Quando o paciente é um bebê, deve-se preferir a medicação na forma líquida. Geralmente, o produto fica na boca da criança por tempo suficiente até que seja engolido. Em geral, não se deve interromper o sono da criança para administrar o remédio, pois o sono é um método fisiológico de reposição de energia. Espera-se que os sintomas estejam menos intensos neste período. A criança só deve ser acordada se houver orientação específica do médico nesse sentido.
Martinelli ressalta que o paciente deve tomar os remédios longe de alguns alimentos. Produtos com sabor acentuado ou cheiro forte devem ser evitados meia hora antes e meia hora depois da medicação. O mesmo vale para escovar os dentes com creme dental.
Durante todo o tratamento, recomenda-se não ingerir café ou bebidas alcoólicas por pelo menos 24 horas após a ingestão do remédio, pois eles podem produzir efeitos tóxicos quando combinados com a medicação homeopática.
Como tudo começou
A principal diferença entre a homeopatia e a medicina convencional é que enquanto a alopatia usa os remédios para cortar os sintomas de uma doença, a homeopatia prescreve substâncias que provocam ainda mais as reações do organismo.
Essa diferença vem de uma idéia formulada por Hipócrates, no século IV a.C. Observando a natureza, o médico grego afirmou que há duas maneiras de se obter a cura: pelos contrários (princípio defendido pela alopatia) e pelos semelhantes (caminho seguido pela homeopatia).
As bases científicas da homeopatia foram lançadas na Europa há cerca de 200 anos, pelo médico alemão Christian Friedrich Samuel Hahnemann. Filho de pais pobres, concluiu o curso de medicina com muita dificuldade, trabalhando como tradutor de obras literárias para pagar as despesas da universidade.
Formado, trabalhou em diversas cidades da Alemanha, deixando excelentes contribuições para a literatura médica. Dez anos depois, no entanto, Hahnemann abandonou a clínica e voltou a dedicar-se às traduções literárias.
Ele estava desiludido com a medicina que, naquela época, tratava seus pacientes com sanguessugas e sangrias - práticas que ele considerava mais danosas que benéficas. Cansado de ver seus pacientes morrerem, voltou à literatura.
E foi lendo e pesquisando que ele encontrou os primeiros relatos da cura pelo semelhante. Neste época, Hahnemann já acreditava que o organismo tem capacidade de realizar a própria cura, que os sintomas refletem um esforço do corpo para combater a doença e reencontrar seu equilíbrio.
A partir daí, ele começou a fazer experiências em indivíduos saudáveis, testando os efeitos de produtos vegetais, animais e minerais. Se uma substância provocava febre numa pessoa sadia, ele passava a usar aquela substância para tratar um paciente que estivesse com febre. Assim, passou a relatar os efeitos de diversas substâncias, quase sempre fazendo de si próprio a cobaia.
Mais tarde, ele descobriu que um mesmo medicamento nunca produzia sintomas iguais quando ministrado a pessoas diferentes. Foi assim que Hahnemann começou a considerar, além dos sintomas, as características emocionais e mentais do paciente. Só depois de traçar um perfil completo do indivíduo é que ele prescrevia um medicamento.