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Eletrônica, elétrica, mas sempre Daniela

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 11 min

Ela já teve uma cabeleira farta, mudou a cor, diminuiu os fios, alisou-os e agora apresenta um visual bem curtinho. A sua música também teve fases: nasceu axé, virou samba-reggae, ganhou toques de bossa e batuques eletrônicos que chegaram a chocar o público e a crítica. Mas uma coisa não se altera na carreira da cantora Daniela Mercury: o sucesso.

A baiana de Salvador canta que é de qualquer lugar e de fato o é. Afinal, o mundo se rendeu ao seu suinge mesmo depois de ter optado por temas mais femininos nas canções que sempre exaltavam o Brasil.

Apaixonada pela música, pela dança e pela vida, Daniela não fecha o sorriso e vê o mundo com um olhar contaminado de afeto.

Às vezes, quando se chateia é com ela mesma, ao ponto de não agüentar mais ouvir sua voz, ou não querer mais ensaiar ou cantar determinada faixa. Mas na hora do show, um espetáculo sempre muito produzido e dissipador de energia, a cantora confessa: “No palco nada me chateia.”

Daniela Mercury conversou com a equipe do Ser no sábado passado, quando esteve em Bauru trazendo o show “Sou de qualquer lugar” ao palco da Grand Expo.

JC - A Daniela de “Sou de Qualquer Lugar” passou por uma mudança radical? Daniela Mercury - As pessoas quiseram enxergar isso um pouco mais e porque foi também um disco mais radicalmente pop, o último disco Sou de Qualquer Lugar, aí com a saída de Mutante como música principal que ganhou o Multishow, as pessoas disseram: “Puxa, ela está diferente!” Mas o disco traz as percussões, só que com uma sonoridade mais nova, porque eu tenho viajado muito, sempre fui muito inquieta, fiquei apaixonada pelas experiências que estão sendo feitas no mundo com música eletrônica e resolvi misturar música brasileira. Mas mantendo o calor da música da gente, mantendo as rítmicas, buscando nova sonoridade mesmo para poder modernizar. Como artista jovem, como artista que gosta do novo, esse disco e os próximos serão assim. O próximo DVD, que vai ser gravado em janeiro, também vem com essa mistura, desde coisas acústicas até coisas misturadas de música popular com música eletrônica.

JC - Fora o DVD quais os projetos novos? Daniela – Eu faço o Pôr-do-sol no Farol da Barra, dia 1º de janeiro. Estou convidando os artistas, mas Brown (Carlinhos) deve fazer comigo. É um especial que vai sempre para a televisão. É um show acústico que faço sempre no dia 1º. O Carnaval sempre é um evento para mim, que cuido para que esteticamente também faça sentido na minha vida, não é somente uma saída de trio. Eu devo fazer esse ano um trio techno de novo, acho que um trio acústico. O camorote vai ser reeditado, o tema é “Flores”, quem está fazendo o camarote é Paulo Borges, que faz todos os desfiles fashions, que faz o São Paulo Fashion Week, e está cuidando do camarote que é badaladíssimo. E esse DVD terá a participação de alguns artistas internacionais dentre eles Rosário Flores, que está fazendo o novo filme de Almodóvar, “Toureira”, e que é uma cantora espetacular espanhola, que vai estar comigo. O Brown também vai estar participando do DVD. É o que posso adiantar agora. Neste momento, estou muito envolvida com a feitura do DVD que tem a direção de Nelson Motta que está fazendo a produção do disco junto comigo. São os planos atuais. Eu continuo a fazer show, tenho vários shows no verão, mas o projeto para o futuro é esse.

JC - O verão é inteiro no Brasil? Daniela – O verão é inteiro no Brasil porque nesse momento está muito frio lá fora para eu ir. Este ano eu fiz 28 shows na Europa, estive nos Estados Unidos, estive no México e acabei de voltar de Angola. Aliás, fiquei fascinada com Angola porque apesar da situação em que eles estão de reconstrução do país, que está em paz agora, eu vi uma identidade enorme com a cultura nossa da Bahia.

JC - Como é cantar numa feira agropecuária? Daniela - É pegar um público da cidade inteira. As pessoas querem festa. Eu acho que tem muito tempo que não me vêem e trago no repertório meus grandes sucessos e mostro como está a Daniela agora, porque as pessoas não têm me visto ultimamente, porque tenho feito muitos shows pelo Brasil, mas coincidentemente não aqui em Bauru. Então, o público pode ver a produção com vídeos lindos de Gringo (Cardia), o cenário é do “Sou de Qualquer Lugar”, que rodou o mundo todo e vários estados brasileiros. Eu adoro fazer show grande...

JC - Também não abandona o Gringo por nada. Daniela – É, não abandono o Gringo Cardia (risos), inclusive ele vai fazer a direção de arte do DVD. Eu acho o Gringo tão comprometido com Brasil, um artista que tem uma leitura moderna e ao mesmo tempo tem uma relação tão forte com o País, com os brasileiros, com a cultura brasileira que me identifico muito com a forma dele olhar a arte. Então, é por isso que eu chamo o Gringo sempre para fazer as coisas que faço.

JC - E esse visual de cabelo curtíssimo? Definitivamente você abandonou a cabeleira? Daniela – (risos) Realmente foi cortado ontem à noite (na véspera do show em Bauru). Eu já venho anunciando meus cortes porque cada mês que passava eu vinha cortando o cabelo mais, mais e mais para ter coragem de chegar a esse ponto. Mas acho que daqui não passa mais não.

JC - Mas cada visual marca uma mudança também no seu trabalho, que hoje está bem diferente? Daniela – Eu estou predominantemente pegando o lado mais pop do meu trabalho, que sempre houve. Vocês já conhecem vários sucessos meus que são “Nobre vagabundo”, “Só pra te mostrar”, desde “O Canto da cidade”. A única coisa é que eu estou puxando mais para esse lado, mas continuo com o samba reggae, com a música afrobaiana, porque é a minha paixão, a minha loucura.

JC - Uma grande vitória também foi o lance da música eletrônica, pois quando você apareceu com o trio elétrico techno todo mundo caiu matando e você conseguiu provar que era bom e que ia dar samba, não é? Daniela – É justamente isso: deu samba, por isso que resolveu tudo. No final das contas, não importa que seja eletrônico ou não, deu samba. A gente fez samba e o brasileiro quer suinge. Eu entendi perfeitamente no primeiro ano que as pessoas estranharam. Eu me senti meio E.T. em cima daquele trio, uma estrangeira dentro de Salvador, porque realmente era um estilo que Salvador não estava muito acostumado a ver. Eu sabia que iria ser estranho, mas foi um elemento de provocação mesmo. Foi uma intervenção que eu sabia que causaria estranheza. Hoje em dia eu tenho uma tribo enorme de adeptos da música brazuca eletrônica que eu faço, porque eu boto os percussionistas em cima do palco e a gente na verdade faz uma grande jam, um grande laboratório de música eletrônica com música brasileira, o que tem feito surgir também as idéias para os meus discos.

JC - Foi com essa mistura que você alcançou um grande público fora do Brasil? Daniela – Na verdade, para eles lá fora, para quem já faço shows há mais de oito anos desde que eu comecei a minha carreira no Brasil, é muito diferente o que a gente faz. Inclusive eles têm mais contato com a música eletrônica do que o universo total da música popular brasileira. Eles conhecem muito pouca coisa da música brasileira. O que se conhece fora do País, pela grande maioria da população, é bossa nova e o samba do Rio de Janeiro. Então a gente começou a colocar outros ritmos no mapa. No universo cultural europeu eles já sabem que existem outros estados, outros ritmos no Brasil e outros artistas novos como eu, Carlinhos Brown, Lenine, Marisa Monte, Chico César, que estamos fazendo muitos shows lá fora.

JC - Os japoneses também têm uma paixão especial por você? Daniela – É, eu até gravei em japonês, né? Mas você sabe que lá é longe e toda vez eu fico assim: vou lá, mas ainda não fui. Eu tenho todos os meus discos gravados no Japão, sou convidada todos os anos para cantar no Japão, mas ainda não tomei coragem porque tenho trabalhado muito. Mas acredito que no próximo ano, depois da turnê dos Estados Unidos eu consiga dar um pulo no Japão. Tenho uma curiosidade de vê-los dançando. Eu já vi japoneses em outros lugares. No Havaí, eu já fiz show e tinham muitos japoneses. Sei que eles dançam reggae muito bem e adoram a música brasileira.

JC - Como é o trabalho de preparação dos seus discos? Daniela – Olhe, eu escolho o repertório todo e adoro poder interferir nos arranjos porque eu acho uma das coisas mais difíceis é conseguir conceito, fazer algo que não foi feito ainda, descobrir novas possibilidades. Isso realmente é um trabalho do artista, do criador. Uma das coisas que mais me fascina é criar. Então, eu estou agora fazendo os arranjos com Michael, que está fazendo a co-produção deste disco, que é um músico meu, e a minha banda tem feito coisas comigo, mas tentando fazer coisas inusitadas. Nem copiar nada que está sendo feito eletrônico e tentar renovar a MPB, porque eu acho que a nova geração precisa revelar compositores. Eu vou continuar revelando neste disco novo, tem inclusive uma música inédita que vem de um pessoal do Rio, que é supernovo e maravilhoso. É assim que vou escolhendo meu repertório: muito livre. Estava conversando com João Bosco e disse a ele que esse trabalho de pesquisa de novos compositores era fascinante.

JC - Neste último disco você trouxe Nação Zumbi com uma roupagem muito legal e tem Lenine. A proposta é uma integração de Recife com Salvador? Daniela – Recife é um lugar espetacular que teve o movimento do mangue beat, que não conseguiu ganhar a força que deveria no Brasil. Ganhou muito conceito, mas não ganhou popularidade, acredito até pela morte muito cedo de Chico Science. Mas estou tentando de alguma forma ajudar para que isso se mantenha vivo e reforçar a importância do mangue beat no Brasil. Eu sou fascinada por Lenine, acho um dos maiores artistas brasileiros e vamos continuar a fazer parcerias juntos. Nesse disco vem também uma parceria com o pessoal do Rappa, com Falcão, Lobato, vamos fazer coisas juntos.

JC - E quando sai esse novo disco? Daniela – Vai sair em março. A gente grava dia 24 e 25 de janeiro em Salvador, na Concha Acústica e em março o DVD e o disco estarão nas lojas tanto no Brasil quanto fora.

JC - Isso cumpre o cronograma de a cada dois anos um disco novo? Daniela – Espero ter outros mais rapidamente, porque a gente está trabalhando tanto e eu sou tão cuidadosa com tudo que os trabalhos ficam com diferença de dois anos. Mas se puder até faço projetos extra-carreira no meio desse tempo, porque a vontade não falta. Idéias também não.

JC - Como você avalia o cenário da música brasileira? Daniela – A gente está num momento muito interessante da música brasileira, porque não tem nada prevalecendo, nenhum gênero predominando. Isso é muito bom, dá para respirar, dá vontade de ver gente nova surgindo. Eu acho que as pessoas precisam ter coragem de criar trabalhos novos, usar a identidade e acreditar. Sucesso sem música boa não interessa.

JC - São 11 anos de carreira, a partir do primeiro disco... Daniela – Não fala 11 não, fala cinco, três (risos).

JC - E agora você tem um filho músico, que no começo da carreira você dizia ter dó de deixar as crianças pequenas em casa. Como é isso? Daniela – Pois é... A Giovana é bailarina e está com 15 anos. O Gabriel está com 17 anos tocando violão, guitarra, compondo. Eu estou felicíssima porque eu dei o violão, botei piano em casa e demoraram a escolher a música. Agora, eles viraram meus grandes companheiros. O Gabriel me mostra tudo, tem uma música minha e dele neste último disco, que chama “Aeromoça”. Eu encontrei um parceiro em casa. É tudo o que eu podia sonhar na vida. Agora, estou curtindo tocar com ele, ouví-lo, compreender o que ele gosta e mostrando os discos todos para ele conhecer o máximo de novidades e a história da música brasileira.

JC - Você tem vontade de fazer um projeto no estilo dos Tribalistas? Quem você chamaria para somar com você? Daniela – Na verdade eu tenho um projeto com Brown de fazer todos os sábados um ensaio de novas sonoridades em Salvador, no Gueto Square, que a gente começa dia 7 de dezembro só para grupos novos de Salvador e nós sendo os provocadores dessa noite. Eu já tenho essa inquietação e já convidei Lenine, Falcão, estou convidando Samuel, do Skank e alguns músicos para fazermos parcerias juntos e fazermos shows diferentes. Acho que essa inquietação de Marisa (Monte) é a mesma que a minha e a vontade de estar trabalhando com gente que cria, compositores novos, sem dúvida, a gente é de uma tribo parecida. Temos muita coisa em comum na vontade de criar e se arriscar.

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